Pêpê Rapazote é um dos protagonistas de “Lisbon Noir”, a nova coprodução entre a Prime Video e a TVI que estreou esta segunda-feira, 13 de abril. A obra é, de certa forma, inspirada em Diogo Alves, que se tornou conhecido como o “Assassino do Aqueduto”, na primeira metade do século XIX. Entre 1836 e 1839, assassinou cerca de 70 pessoas, atirando-as do Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, sendo executado em 1841.
A história de “Lisbon Noir”, que estreia esta segunda-feira na TVI às 22h35 (enquanto os quatro episódios já estão disponíveis na Prime Video), começa quando um diplomata de Espanha cai do topo do Aqueduto das Águas Livres em Lisboa. No início, a Polícia Judiciária pensa que se trata de um suicídio ou homicídio isolado. No entanto, à medida que o caso é investigado, torna-se claro que há um assassino em série atualmente à solta em Lisboa, obcecado com os crimes de Diogo Alves, tentando imitá-lo.
“Este novo psicopata aterroriza a cidade, escolhendo os seus alvos e lançando-os dos pontos mais altos e icónicos de Lisboa, começando pelo Aqueduto. Para travar esta ameaça, os inspetores Daniel e Laura, com personalidades opostas mas competências muito especiais, terão de aprender a trabalhar juntos com Noir numa corrida contra o tempo para salvar Lisboa e preservar a reputação internacional que a cidade conquistou nos últimos anos”, lê-se na sinopse. O elenco também inclui Beatriz Godinho, Mina El Hammani (de “Elite”), Luís Filipe Eusébio, Cleo Diára, Teresa Tavares, Paulo Pires, entre outros.
Antes de começar as gravações, Pêpê Rapazote, de 55 anos, não estava familiarizado com o caso. “Parece que muita gente conhecia e eu era dos poucos que não”, conta à NiT. À medida que os dias no set passavam, foi mergulhando na história do serial killer, cuja cabeça está conservada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
“Sei que a ideia, na altura, foi tentar abrir a cabeça de um assassino em série para ver o que se passa na cabeça de um tipo que mata 70 pessoas. Ainda hoje há a tentativa de justificar através de alguma malformação, deformação ou um funcionamento irregular do lobo esquerdo ou do lobo direito que permitam explicar algum comportamento”, acrescenta.
Pêpê Rapazote, contudo, não acredita que a resposta possa estar no cérebro, mas sim em algo muito mais abstrato. “Não tem nada a ver com a física. Tem a ver, imagino, com a alma que nasce connosco e muitas vezes andamos à procura da psicanálise de algum momento traumático que tenha acontecido numa primeira infância que possa justificar depois este despoletar dos acontecimentos”, confessa.
Também a sua personagem em “Lisbon Noir”, o Inspetor Daniel, é assombrado por algo que lhe aconteceu quando era mais novo. “Ele tem um problema muito grande com as alturas”, descreve. “Tem uma atração pelo abismo, justificada por um trauma maior que o pai o obrigou a passar”, diz Rapazote.
É este detalhe que torna o investigador um dos papéis mais complexos da sua carreira. “Tem um perfil de personagem curtinho, mas todos os episódios dão-nos uma complexidade que me fazia ser capaz de escrever 10 ou 15 páginas a tentar traçar um perfil psicológico do Daniel. Isso é extraordinário”, destaca.
A assustadora história de Diogo Alves
Por detrás da narrativa, está a mítica figura de Diogo Alves, o Assassino do Aqueduto. Nasceu em 1810, na região da Galiza, em Espanha, tendo emigrado ainda jovem para Portugal, onde viria a trabalhar como criado em casas abastadas.
Durante algum tempo, levou uma vida aparentemente discreta. Tudo mudou na década de 1830, quando iniciou uma série de crimes que rapidamente o tornariam num homem temido na capital. O seu modo de atuação consistia em assaltar pessoas que atravessavam o Aqueduto das Águas Livres — uma infraestrutura na altura utilizada também como via pedonal —, atacando-os sobretudo durante a noite ou em momentos de menor circulação.

Após roubar as vítimas, Diogo Alves empurrava-as do alto do aqueduto. A queda de 65 metros levava à morte inevitável. Durante algum tempo, as autoridades chegaram a considerar que as mortes poderiam estar relacionadas com suicídios, dada a altura do local e a ausência de testemunhas diretas. No entanto, o número crescente de cadáveres encontrados na zona levantou suspeitas e levou a uma investigação mais aprofundada.
Estima-se que Diogo Alves tenha assassinado cerca de 70 pessoas, embora o número exato nunca tenha sido definitivamente confirmado. A sua atividade criminosa prolongou-se durante vários anos, criando um clima de medo entre os habitantes de Lisboa e levando, eventualmente, ao encerramento do aqueduto como passagem pedonal.
O fim dos crimes não ocorreu devido a mais um assassinato no aqueduto, mas sim após o envolvimento num outro delito. O serial killer fazia parte de um grupo responsável por um violento assalto à casa de um médico, durante o qual foram assassinados vários membros da família. Este episódio permitiu às autoridades identificar e capturar os responsáveis, incluindo Alves.
Detido e posteriormente julgado, Diogo Alves foi condenado à morte. A execução teve lugar em 1841, sendo enforcado, numa época em que a pena capital ainda era aplicada em Portugal.

Após a sua morte, ocorreu um episódio singular que contribuiu para a sua notoriedade histórica: a sua cabeça foi removida e preservada para estudo científico, no âmbito das teorias de frenologia que eram muito populares na altura — procuravam relacionar características físicas do crânio com traços de personalidade e comportamento criminoso. A cabeça encontra-se ainda hoje conservada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
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