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A história real do viking narcotraficante — que é contada numa nova série

Claus Malmqvist passou os últimos 16 anos atrás das grades. Agora vai ser a estrela de um novo documentário.

Era um desconhecido no seu país de origem, a Dinamarca, mas rapidamente se estabeleceu como o principal traficante de haxixe da região. Poderia pensar-se que esta é uma história de narcotráfico que não envolve a América do Sul, mas inevitavelmente, o entroncado nórdico de cabelo loiro acabaria por encontrar o fim da carreira precisamente numa perigosa cadeia do Rio de Janeiro, no Brasil.

O jornalista dinamarquês Jeppe Facius conhece melhor do que ninguém a trama real da vida de Malmqvist. Foi ele quem se embrenhou na história e chegou até ao próprio, na tentativa de perceber o que motivava um dos maiores traficantes do pacato país.

Facius tornou-se, também, na melhor fonte para a série “O Viking: História de um Narco”, que chegou à Filmin a 2 de agosto. Os quatro episódios narram a vida de Malmqvist, numa produção que saltita entre a ficção e a realidade.

O próprio Malmqvist também deu uma mãozinha, ele que cumpriu finalmente a sua pena de 16 anos e tem até um perfil no Instagram, onde tem partilhado algumas das imagens de arquivo. Pelo caminho, aparentemente orgulhoso, promove o documentário sobre a sua vida criminal.

A sentença foi anunciada em 2007, num tribunal dinamarquês que o condenou pelo tráfico de 13 toneladas de haxixe e pela tentativa de fazer chegar à Europa pelo menos 500 quilos de cocaína. Tinha 40 anos e enfrentaria uma pena de 16 anos — atenuada pelo tempo que cumpriu numa prisão do Rio de Janeiro, onde foi detido. Após recurso, a sentença final foi confirmada em 2009. Saiu em liberdade em 2021.

Malmqvist foi incapaz de contrariar as provas que estavam nas mãos das autoridades dinamarquesas, entre escutas telefónicas e emails que confirmavam as intenções do traficante. Lars Petersen, um dos seus cúmplices, foi condenado a pena perpétua por tráfico de haxixe e homicídio.

No dia da sentença, estava no tribunal a mulher de Malmqvist, uma brasileira com quem iniciou uma relação antes da sua detenção, quando estava já evadido no Brasil. Soube do nascimento do filho atrás das grades, três meses depois da sua detenção no Rio de Janeiro, em 2005, a pedido da Interpol.

O alerta chegou às mãos das autoridades brasileiras, que detiveram o europeu no aeroporto de Belém. Malmqvist declarou ser agente imobiliário. O outro cúmplice, o holandês Dirk Van Wout, apresentou-se como professor de ecologia. Não foi o suficiente para enganar as autoridades.

Já na prisão, o dinamarquês lutou contra o pedido de extradição feito pelas autoridades do seu país. Dinamarca e Brasil não tinham qualquer acordo de extradição e essa poderia ser a forma de escapar à sentença certa em Copenhaga. Contudo, isso significava que poderia passar um longo período em prisão preventiva nos temidos estabelecimentos prisionais brasileiros. Foi isso que aconteceu.

Malmqvist não descreve a prisão Ary Franco como tal. Talvez mais como uma masmorra, um “buraco no solo”, anotou o jornalista Jeppe Facius. Por lá ficou durante um ano e meio em condições desumanas.

“Não desejo aquilo a ninguém. Mais de mil pessoas enfiadas em celas abertas, subterrâneas, onde a luz do dia dificilmente chegava. A violência, a corrupção, o ruído, era uma loucura”, revelou ao jornal dinamarquês “Berlingske”.

“Era impossível dormir uma noite inteira na Ary Franco. Era constantemente acordado com os gritos das lutas que ocorriam nas outras celas, entre membros dos cinco gangues rivais que por lá andavam. Era rara a luta que não resultava em mortes, mas os guardas não eram particularmente expeditos no que tocava à proteção dos presos”, conta.

As violações sobre os prisioneiros mais fracos eram “rotineiras”. “Os chineses eram quem sofria mais, eram frágeis e falavam uma língua que ninguém conhecia.”

Malmqvist viu-se preso num imbróglio jurídico que ele próprio provocou, ao pedir asilo político no Brasil e ao tentar lutar contra a extradição. Isso fez com que, durante um ano meio, tivesse que ficar detido nessas condições.

O dinamarquês era alto, forte e tinha dinheiro suficiente para tornar o dia a dia menos desconfortável. Acabou por criar ligações com um grupo de estrangeiros com quem partilhava cela.

Um deles era o banqueiro português Camilo Coelho, ex-gerente do Banco Totta & Açores, que foi preso por suspeitas de ter desviado dez milhões de euros da instituição bancária. “Era um dos meus amigos mais próximos, um banqueiro português que esvaziou os cofres do seu banco e fugiu para o Brasil. Lá, vivia uma vida extravagante, numa enorme penthouse com vista para Copacabana. Acabou preso a pedido da Interpol”, recorda. Travou também amizade com um americano, John Alite, “amigo de infância de John Gotti”.

Malmqvist com Alite, conhecido assassino da família Gambino

“Até hoje, se alguém me acorda de repente, ainda tremo. Ainda consigo ouvir o som das ratazanas, que corriam livremente no chão lamacento das celas”, recorda o dinamarquês, que viveu meses nas celas sobrelotadas — onde cabiam 16 presos, estavam normalmente 25 a 30.

Em dias de chuva, o nível da água podia atingir até um metro nas celas. Quando as águas recuavam, deixavam para trás um chão enlameado e recheado de poças húmidas. O único conforto advinha dos extras que cada um podia obter dos guardas, a troco de dinheiro, claro.

“Tudo se podia fazer com dinheiro. Confiscavam as nossas coisas, que podíamos ter de volta mediante um custo. Só que nada nos garantia que não fossem confiscadas novamente. Lâminas de barbear, iPods, sapatos, pequenas televisões, tudo se arranjava.”

Certo dia, um grupo de polícias armados irrompeu pela cela e levaram-no numa carrinha, deitado, até ao aeroporto, onde foi recebido por quatro agentes dinamarqueses. Havia sido dada ordem de extradição.

Vários problemas burocráticos mancharam o processo, que requeria uma assinatura especial do então presidente Lula da Silva, que ninguém parecia ter na sua posse. Ainda assim, Malmqvist entrou no avião e foi levado para Copenhaga.

“Para mim, continua a ser um mistério como é que ele saiu daquela prisão. À época, o ministério da justiça dinamarquês tinha aceitado cumprir os requerimentos legais brasileiros para a extradição, mas quando chegou à Dinamarca, alargaram as queixas contra ele, o que é ilegal”, explicou o advogado de defesa.

Apesar das tentativas de provar em tribunal que a extradição havia sido ilegal — o que permitiria que Malmqvist pudesse sair em liberdade —, os tribunais dinamarqueses mantiveram a acusação e ditaram uma sentença de 16 anos, atenuada em sete meses, para compensar o tempo de detenção no Rio de Janeiro.

Detido e a cumprir pena, poucos quiseram saber de Malmqvist, mas o dinamarquês ainda tentou ensaiar um reencontro familiar, ao pedir que a sua família pudesse viajar para a Dinamarca. “Ele nasceu três meses após a minha detenção. Agora tem seis anos. Tem passaporte dinamarquês mas não fala a língua. Gostava de o trazer, a ele e à minha mulher, para que possamos ter uma vida de qualidade por cá”, revelou em 2011 ao “Ekstrabladet”.

Malmqvist queixou-se de discriminação, não só por não lhe ter sido autorizada uma saída precária no Natal, para visitar a família, mas porque se viu impedido de receber a visita da mãe, doente em cadeira de rodas, porque “a prisão não tem acessos para pessoas naquelas condições”.

Sobre a sua sentença, o traficante continua a não a compreender. “Não percebo porque é que fui condenado. De certeza que não foram os 500 quilos de cocaína, porque não tinham qualquer prova”, referiu. O dinamarquês viu ainda serem-lhe confiscados mais de um milhão de euros. Agora, dez anos depois, Malmqvist é um homem livre e prestes a ver a sua vida através de um retrato televisivo.

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