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A horrenda história do palhaço homicida John Wayne Gacy chega à Netflix

Culpado de mais de trinta homicídios, violava as vítimas e escondia-as debaixo de casa. As gravações inéditas são a prova que faltava.
Gacy foi executado em 1994

John Wayne Gacy tinha o tempo contado. A esposa esperava-o para que fossem juntos a um funeral, mas havia um pequeno problema: o norte-americano tinha o cadáver de um jovem escondido no quarto de hóspedes. “Mesmo em frente ao roupeiro estava a entrada para a cave”, explica. “Abri a pequena porta e atirei o corpo lá para dentro.”

Nesse espaço amplo, mas onde só se conseguia entrar a rastejar, Gacy escondeu, ao longo de vários anos, 29 cadáveres. Haveria de ser condenado por 33 homicídios. Uma sentença que o distingue como um dos mais perigosos e assustadores assassinos em série da história dos Estados Unidos.

É na primeira pessoa que Gacy revela todos os pormenores dos tenebrosos homicídios, numa série de gravações inéditas que chegaram à Netflix na quarta-feira, 19 de abril, em mais uma minissérie documental de “Conversas com um Assassino: As Gravações de John Wayne Gacy”. A série dividida em três partes é novamente da autoria de Joe Berlinger, o homem que revelou as gravações também inéditas de outro serial killer, Ted Bundy.

O nome de Gacy é particularmente delicado porque, apesar de ter sido executado em 1994, as memórias dos cruéis assassinatos continuam a ressurgir do passado. Aconteceu em 2021, quando outra das suas vítimas foi finalmente identificada, mais de 40 anos depois da morte. Um ano depois, ainda há vítimas por identificar.

A violência esteve sempre presente, sobretudo durante a infância em Chicago, onde nasceu numa família de classe operária. O pai era mecânico, mas também propenso ao uso da violência, verbal e física. Gacy era frequentemente espancado e insultado. “Idiota”, “estúpido”, “maricas”.

Inevitavelmente, os abusos deram origem a comportamentos desviantes. Apanhado a acariciar uma criança, acabou por ser violentamente agredido pelo pai. Foi também alvo de abusos sexuais por parte de um amigo da família.

Além dos claros problemas psicológicos impostos por uma infância traumática, Gacy sofria também de problemas cardíacos que o faziam perder a consciência, apesar de nunca lhe ter sido diagnosticada uma condição grave.

Acabaria por sair de casa, envolver-se na política, no Partido Democrata e inscreveu-se num curso de gestão. Chegou a trabalhar como assistente numa casa mortuária e foi aí que tudo começou a tornar-se ainda mais bizarro. Gacy, que dormia junto à sala de embalsamento, terá observado as técnicas e, numa das noites, confessa ter-se deitado dentro de um caixão com o cadáver de um jovem rapaz que acariciou, antes de entrar em choque.

Poucos anos depois, já a trabalhar como gestor do departamento de vendas de uma empresa de calçado, conheceu a colega e futura mulher, Marlynn Myers. Nessa mesma altura, voltou a ter uma experiência homossexual que o marcou, depois dos abusos que sofreu durante a infância.

A imagem que Gacy fazia transparecer era uma de normalidade, pai de duas crianças, dono de um restaurante. Nos seus tempos livres, participava em ações de caridade em hospitais infantis, vestido de palhaço, onde assumia o alter-ego de Pogo, O Palhaço.

Em agosto de 1967, a imagem exemplar começou a ficar manchada, ao aliciar um jovem de 15 anos para sua casa para ver filmes pornográficos. Ofereceu-lhe álcool e tentou violá-lo. Repetiu a estratégia com vários jovens locais, até que um deles o denunciou, mas Gacy negou tudo.

Acabaria por ser condenado por uma acusação de sodomia, o que provocou um tremendo choque na sua vida. A mulher pediu o divórcio e fugiu com os filhos, com quem nunca mais teve contacto.

Na tentativa de começar uma vida nova, voltou a mudar-se para Chicago, depois de cumprir pouco mais de um ano de pena de prisão. Ao fim de um ano, estava de volta aos velhos hábitos. Voltou a tentar aliciar e violar um jovem e, pouco tempo depois, foi detido e acusado de agressão, depois de se ter feito passar por um agente da polícia e forçar um jovem a fazer sexo oral. A queixa acabaria por ser retirada — mas nenhum dos acontecimentos foi reportado aos agentes prisionais responsáveis pela sua liberdade condicional.

Gacy fazia ações de caridade vestido de palhaço

Com o cadastro arquivado, Gacy voltou a casar, a estabilizar a sua vida e a regressar ao seu alter-ego como palhaço. Foi também nessa altura que o comportamento se tornou ainda mais violento. A três de janeiro de 1972, voltou a tentar aliciar um jovem de 16 anos que esperava pelo autocarro para regressar a casa no estado vizinho.

Gacy convenceu-o a ficar em sua cara e a fazer-lhe uma visita guiada pela cidade. Pouco se sabe do que aconteceu nessa noite, apenas o relato de Gacy, que diz ter encontrado Timothy McCoy na porta do quarto com uma faca na mão. Sobressaltado, Gacy levantou-se e o jovem, assustado, terá erguido os braços. Um corte acidental no braço de Gacy provocou uma luta que acabou com a morte do jovem.

Esfaqueado por várias vezes no peito, McCoy ficou imóvel no chão, a desfalecer. Enquanto isso acontecia, Gacy recorda-se de ter ido à cozinha lavar a faca e reparar que o jovem estaria a preparar o pequeno-almoço — e não o queria matar.

Foi o primeiro corpo que o assassino escondeu na caixa de ar por baixo da casa. O primeiro homicídio seria tema de muitas das conversas gravadas nas cassetes. Confessa ter-se sentido excitado pelo gargarejar de McCoy, à media que sufocava no próprio sangue, sem conseguir respirar. Gacy admite ter sentido algo próximo de um orgasmo. “Foi quando percebi que a morte era a mais excitante das sensações.”

Essa descoberta levou-o a cometer pelo menos mais 33 homicídios nos sete anos que se seguiram até à sua detenção em 1978. A nova minissérie acompanha todos estes relatos na primeira pessoa e contém declarações chocantes do assassino que violava e assassinava cruelmente todas as suas vítimas.

“Não tenho qualquer tipo de remorso. Os palhaços safam-se de tudo o que façam. Até de homicídio”, confessou. “Adoro essa sensação de poder.”

O espaço debaixo da casa onde foram encontrados os cadáveres das vítimas

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