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A máfia, os milhões e a ousadia de Madoff: a burla do século chegou à Netflix

Durante anos enganou investidores e roubou milhares de milhões de euros sem ninguém saber. A sua história chega agora em formato de minissérie.
Madoff morreu em 2021

“As pessoas pensam que se trata da história de um só homem”, alerta uma das vozes do trailer da nova série documental que retrata a figura negra que Bernie Madoff representou para muitas famílias norte-americanas que, de um dia para o outro, se viram sem nada.

A verdade, explica a produção realizada por Joe Berlinger, é que “não há maneira de gerir um esquema Ponzi de 50 mil milhões de euros sem que mais pessoas saibam”. Ainda assim, Madoff chegou ao fim desta história com mais de uma década como o grande culpado. O homem que mentiu e roubou até ser apanhado — e que morreu na prisão aos 82 anos, em 2021.

“Madoff, o Monstro de Wall Street” estreou a 4 de janeiro, e procura desvendar o que está por detrás de tudo o que aconteceu. Acima de tudo, questiona o gesto final de Madoff: o momento em que assume toda a culpa pelo esquema financeiro que defraudou milhões e aceita passar o resto da sua vida numa cadeia.

O gesto poderá não ter sido assim tão altruísta, um momento de honestidade, de arrependimento. “Num crime de colarinho azul, a investigação só começa depois de caírem os corpos. Nos crimes de colarinho branco, os corpos começam a cair depois da investigação“, esclarece a série de quatro episódios que pode ser vista na Netflix.

A devastadora crise económica de 2008 foi a peça do dominó que fez cair todo o esquema de Bernie Madoff, um dos nomes mais fortes de Wall Street, uma figura respeitada e prestigiada. Foi conselheiro de organizações governamentais durante a crise de 1987 e um dos homens responsáveis pela criação da NASDAQ.

Sob o seu nome, geria a Bernard L. Madoff Investment Securities, do 19.º piso de um edifício no centro de Manhattan. E quando a crise imobiliária de 2008 provocou um rombo no mercado bolsista, muitos investidores decidiram retirar o dinheiro que tinham entregue a Madoff para investir em seu nome.

Quando isso aconteceu, o esquema foi destapado: já não havia dinheiro nenhum para distribuir; os lucros astronómicos que reportava a cada cliente eram falsos. Em cima da crise, somava-se uma burla de dimensões inimagináveis que prejudicou celebridades, clubes desportivos, hospitais, faculdades, fundos de pensões. Todos confiaram em Madoff e nunca questionaram os investimentos super-lucrativos — e por isso perderam tudo.

Dois pisos abaixo do 19.º, no 17.º andar por baixo da sede de Madoff, o norte-americano geria uma equipa sombra, responsável por falsificar provas, comprovativos de rendimento, de investimentos. Às mãos dos clientes — e das entidades reguladoras — chegavam um rasto de dinheiro falso que escondiam o que realmente acontecia: um roubo descarado.

“O 17.º piso estava repleto de tipos que completaram apenas o ensino secundário ou pessoas que nunca teriam a oportunidade de ganhar este tipo de dinheiro. O Bernie sentia que as podia controlar e manipular”, revela Berlinger, que também realizou o documentário polémico sobre Jeffrey Epstein, “Filthy Rich”.

Nesse piso, recheado de caixas arquivadoras e impressoras, fabricavam-se as folhas que serviam para ocultar as verdadeiras intenções de Madoff. E como refere o documentário, o homem de Wall Street não trabalhava sozinho. Ao seu lado trabalhava Frank DiPascali, o seu braço direito que morreu em 2015 com apenas 58 anos, então já a enfrentar múltiplos processos por crimes financeiros. É retratado como “o fiel coronel de todos os pecados de Madoff”.

O próprio confirmou às autoridades a verdadeira identidade de Madoff. “É um facto simples: o Bernie Madoff sabia de tudo, eu sabia de tudo, outras pessoas sabiam de tudo, mas nunca dissemos nada a clientes nem aos reguladores”, confessa num dos depoimentos revelados pelo documentário. “Ninguém comprava ou vendia nada, nada acontecia nas contas dos clientes. Era tudo falso, era tudo fictício.”

A série explora também as ligações perigosas que foram sendo criadas por Madoff, sobretudo com personagens pouco recomendáveis. Há anos que existem rumores de ligações à máfia russa e as autoridades também suspeitavam disso mesmo. “O procurador queria fazer um acordo comigo para que eu pudesse fornecer informação sobre quem estava envolvido nesta fraude”, comentou o próprio Madoff. “Acreditavam que eu não podia ter feito tudo isto sozinho, que tinha de haver outras pessoas envolvidas.”

Certo é que, após a confirmação do desaparecimento dos 19 mil milhões roubados a mais de 40 mil investidores ao longo de duas décadas, Madoff pouco ou nada resistiu. Aceitou sempre a culpa pelo sucedido e não pestanejou no momento de enfrentar uma pena de prisão de 150 anos que, na prática, era uma pena perpétua.

As pessoas acreditam que o motivo por detrás dessa assunção da culpa não foi um ato de coragem, mas uma forma de ofuscar e encontrar uma maneira de atrasar um veredito. Acredito que foi parte de um esquema de auto-proteção para evitar ser assassinado pela máfia.”

Carregue na galeria para conhecer as novas séries e temporadas que chegam à televisão e às plataformas de streaming em janeiro.

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