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A nova edição do “Big Brother” devia mudar o nome para “Big Brother Alguns Famosos”

Bruno de Carvalho, como nós, mal conhecia os concorrentes. O humorista Miguel Lambertini sugere que mantenha a Wikipédia aberta.
Bruno de Carvalho apenas se conhecia a ele próprio.

Vinte anos depois de ter estreado, o “Big Brother Famosos” voltou à TVI, com novas caras, e quando digo novas refiro-me ao facto de ninguém as reconhecer. Foi muito divertido porque passámos a noite toda a jogar ao “Quem é Quem?”, versão Brunão. “Bruno de Carvalho, sabe quem é esta senhora? E este, Bruno, está a ver quem é?”, perguntava Cristina Ferreira, com aquele tom que as enfermeiras usam nos lares de terceira idade.

A apresentadora fez uma entrada apoteótica e enquanto descia a escadaria do estúdio, houve mais fogo de artifício do que nas celebrações da Passagem de Ano no País inteiro. O ex-presidente do Sporting foi, de resto, o nome mais impactante do elenco de participantes desta edição, que curiosamente apostou muito nos ex. Além do ex-presidente, temos Jaciara, a ex-mulher do Deco; Kasha o ex-namorado da Bárbara Bandeira; e todos os outros que na sua maioria são ex-figuras públicas.

No vídeo de apresentação, Bruno de Carvalho refere que as pessoas quando estão com ele dizem muitas vezes: “Ah, você até é normal”. Claro que 90 por cento destas pessoas são bêbados que lhe pedem para tirar uma selfie às cinco da manhã na pista do Urban. E aí até uma cabeleireira com bigode parece normal. “É bom quando deixamos marcas nas pessoas”, acrescenta Bruno de Carvalho. Então, não é? O Bas Dost que o diga.

Outro grande concorrente desta edição é o ex-jogador (lá está), Mário Jardel. Super Mário começou por agradecer a Deus e confessou que se arrepende do seu passado de abuso de substâncias. Não tanto como nós benfiquistas nos arrependemos dos seus abusos na baliza do Preud’homme, mas enfim, o que lá vai, lá vai.

Já a nível de atrizes, curiosamente, a mais conhecida é mesmo a cicatriz na testa do Jardel. Marta Gil caiu no caldeirão do Red Bull quando era pequena e entrou mais frenética que o José Rodrigues dos Santos em noite de eleições. Laura Galvão chegou e passados segundos já estava a chorar — nem foi preciso dizer-lhe quem eram os restantes concorrentes da casa.

Gente como Jorge Guerreiro, o homem que tem uma fivela com as suas iniciais ao contrário e não se cansa de entoar os seus temas musicais com versos brilhantes como “a partir de hoje vou chegar às duas, três ou quarto…vou alugar um quarto, vou alugar um quarto”. Ao preço a que as rendas estão, Jorge vai gastar o cachê todo a pagar o quarto que alugou na casa do BB.

Quem também surpreendeu foi Francisco Maria Cardoso de não sei quê, que apesar de ter nome de beto prefere ser tratado como uma personagem do “Game of Thrones”. Kasha, é membro dos D.A.M.A e apresentou-se com de colar de pérolas e um casaco de lantejoulas muito parecidos com os que a minha tia-avó usava nos natais. Não sei em que caldeirão caiu, mas de Red Bull não foi com certeza. Liliana Almeida fez parte da girl band Non Stop e como tem fobia de portas trancadas escolheu entrar no Big Brother. Ok, faz sentido.

Já o cantor Leandro recusou-se a atuar no Natal dos Hospitais com artistas populares porque achou que era um desrespeito ao seu percurso artístico, mas entrar no “Big Brother” já não lhe faz confusão. Pensando bem, foi bom o Leandro não ter atuado na gala natalícia porque com o gosto que ele tem para escolher casacos azeiteiros, era um verdadeiro perigo para os doentes na plateia, com níveis elevados de colesterol.

Quem ainda não entrou mas vai entrar é o cantor Jay Oliver, que por questões de segurança ainda está em quarentena, o que é ótimo porque assim dá-nos a todos tempo para ir à Wikipédia ver quem é o Jay Oliver.

Enquanto os famosos degustavam os queijos do Intermarché, entrou também alguém com uma máscara de papagaio. Cristina explicou que todos tinham de ignorar o animal na sala, o que não foi tarefa fácil. O único a quem não custou fazê-lo foi ao Kasha, já que estava a ignorar unicórnios brilhantes e elefantes cor de rosa desde que entrou na casa. Felizmente, depois disso juntou-se ao grupo o DJ Hugo Tabaco, o que foi porreiro porque o Kasha estava claramente a precisar de meter mais tabaco.

Por fim, entrou  atriz Catarina Siqueira — eu sei que precisam de mais um tempo para irem googlar, força — e foi desvendado quem era o concorrente que se escondia por detrás da máscara do papagaio. Ainda rezei para que fosse o Jorge Jesus ou a Maria Leal, mas afinal era o clássico Nuno Homem de Sá, que vinte anos depois volta ao lugar onde foi feliz. Aqui confesso que senti alguma falta dos palpites da Sónia Tavares ou do Jorge Corrula sobre quem seria o Papagaio.

No que toca a causas, os concorrentes do “BB Famosos” são bastante mais pragmáticos do que noutras versões do programa. Não há cá “salvar os porquinhos da Índia albinos” ou “apoiar a luta das tecelãs canhotas de Arraiolos”. Nada disso, os nossos famosos estão lá só mesmo para ganhar dinheiro e fazer com que as pessoas se lembrem que ainda estão vivos, o que pessoalmente, considero muito mais meritório e honesto.

Há mais de 30 anos, Miguel Esteves Cardoso escreveu numa das suas brilhantes crónicas que “Portugal é o paraíso dos parolos porque tudo lhes é permitido. E encomendado. Doutro modo não teríamos a riqueza da nossa arquitetura parola, a parolice especial da nossa música, a notoriedade pública dos nossos maiores políticos parolos.” Eu sei que é um bocado parolo usar citações do MEC, mas ontem lembrei-me deste texto e cheguei à conclusão que, alguns desses parolos, hoje chamam-se “famosos”.

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