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A nova série de “League of Legends” era tudo o que gostaria de ter visto aos 15 anos

"Arcane" divide-se em três atos: o último saiu a 20 de novembro. Está disponível na Netflix e é um presente para os nostálgicos.
O desfecho da história estreia a 20 de novembro.
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Sinto que uma série baseada no mundo de “League of Legends” (“LoL”) era algo que andava a ser falado desde a altura em que passava horas em frente ao computador enquanto ignorava todas as minhas responsabilidades. Tinha 15 anos e era isso que todos fazíamos. Na altura, era o jogo mais jogado de sempre, com milhões de utilizadores ativos diariamente. Era o “Fortnite” da altura. No entanto, foram precisos aproximadamente seis anos para “Arcane” passar de um rumor a um projeto real na Netflix. Assim que carreguei no play para mergulhar na série senti-me novamente adolescente.

A produção estreou a 6 de novembro na plataforma de streaming. Para escapar à fórmula habitual, com todos os episódios a serem disponibilizados em simultâneo, neste caso vamos ter de esperar para ver o desfecho da história. Isto porque o projeto se divide em três atos, cada um com três episódios. A 6 de novembro saiu o primeiro, o segundo foi lançado a 13. A conclusão da narrativa ficou disponível a 20 de novembro.

O facto de existir uma série de “League of Legends” era o suficiente para me deixar nostálgico, mas a música de abertura levou o sentimento muito mais além. Não foi a letra que causou o impacto, mas sim a voz de quem a canta — Dan Reynold, dos Imagine Dragons. Uma homenagem clara da Riot Games (os criadores de “League of Legends”) a todos aqueles que já viviam o videojogo em 2014, altura do quarto Torneio Mundial de “LoL”, onde 16 equipas de todas as partes do globo jogaram por um prémio de um milhão de dólares (aproximadamente 880 mil euros).

Logo no início do primeiro episódio conseguimos perceber no ambiente da série, não reinam a felicidade e harmonia. Muito pelo contrário. Se há coisa que retiro do que vi é o trauma e a dor que tentaram passar. Digo tentar porque, por vezes, os olhos das personagens são demasiado artificiais. Apesar do esforço para os tornar em algo real, muitas vezes não conseguiam transmitir a emoção que pretendiam. Em momentos de gritos e tensão, estavam quase estagnados, o que acaba por retirar entusiasmo ao que estamos a ver.

Isto acontece devido ao desejo sempre crescente da Riot Games de criar algo que se diferencie no mercado (o que já era visível desde 2013, ano em que fiz login pela primeira vez no jogo). No entanto, as coisas nem sempre correm como desejamos e foi isso que aconteceu com o estilo de desenho que vemos em “Arcane”. Embora único, e diferente dos traços mais relaxados e menos detalhados que vemos atualmente, por vezes as emoções não eram transmitidas corretamente. 

Por outro lado, quando tudo se alinhava, era uma visão impressionante. Se, numas vezes, o que os olhos mostravam não correspondiam aos sentimentos retratados, noutras deixavam-nos angustiados com o desespero que passavam para este lado do ecrã. O resultado era uma arte bastante irregular, em que ora corria bem e o resultado era perfeito, ora corria mal e acabava por ser desastroso.

Após a cena inicial que define de imediato o clima de “Arcane”, somos apresentados ao grupo que acompanharemos durante os restantes episódios: Vi (Hailee Steinfeld), Powder (Mia Sinclair Jenness), Claggor (Roger Craig Smith) e Mylo (Yuri Lowenthal). Os cabelos das duas primeiras personagens mostraram logo quem eram no jogo (embora aqui bastante mais novas e sem as roupas em que normalmente as via). Infelizmente, os últimos dois abandonaram a série pouco depois de ela começar, num momento de pura frustração que nos deixa irritados, e ao mesmo tempo tristes por Powder, uma rapariga impulsiva com uma sede insaciável por aprovação e reconforto.

A série aborda um tema clássico e que tem estado muito em voga na ficção: o fosso entre ricos e pobres. Enquanto uns lutam para sobreviver num ambiente literalmente tóxico, outros vivem nas nuvens onde a tecnologia e a magia se tornam cada vez mais banais. A corrupção tanto dos “de cima” como dos “de baixo” está bastante presente em “Arcane”, com jogos mentais e negócios ilegais entre ambos os lados.

Se há algo que aprendi enquanto jogava “League of Legends” foi a estar atento a todos os easter eggs que a Riot Games escondia. Esta lição foi aplicada, mais uma vez, enquanto via “Arcane”, onde as referências a personagens que não chegam a aparecer na série são vastas, comprovando mais uma vez que, além de ser um boa introdução ao mundo do videojogo, é um presente para os mais saudosistas. Enquanto umas eram mais discretas e difíceis de apanhar (como a fotografia de uma personagem do jogo numa máquina abandonada de arcade), outras não se escondiam atrás de sujidade e má iluminação, como uma das músicas que ouvíamos num rádio.

“Arcane” acabou por me fazer perder o entusiasmo assim que deu um enorme salto temporal. A Powder, agora Jinx, era uma criança inocente (e por vezes irritante) quando a série começou. Uns episódios depois era uma jovem adulta psicopata. Embora tenhamos alguns vislumbres de como se tornou numa assassina brutal, nunca sabemos a história completa da sua entrega à loucura, algo que esperava ver. As relações estavam alteradas e as personagens mais maduras, e toda essa evolução acabou por ficar perdida, tirando um pouco da humanidade que gostaria de ver em cada uma das personagens.

A grande diferença entre o jogo e a série são as cenas de luta. Enquanto em “League of Legends” o passo era acelerado com mil coisas a acontecerem ao mesmo tempo, em “Arcane” é quase como se o tempo parasse. Sinceramente, acho que resulta. Durante os combates conseguimos perceber o esforço da equipa responsável pela animação da série — as expressões faciais são altamente exageradas mas, ao mesmo tempo, complexas e bem estruturadas. As lutas são também bastante brutais: há mortes em todo o lado e uma quantidade abismal de sangue que nos faz esquecer o facto de a boca gritar mas os olhos transmitirem zero emoção.

Isto quando a boca correspondia às palavras que dela saíam, outro dos grandes problemas da série, visto que às vezes parecia estar a ver uma série dobrada devido aos movimentos bizarros dos lábios.

Apesar de “Arcane” recorrer a vários clichês aborrecidos, tem também várias reviravoltas pelas quais não esperávamos. No primeiro caso, a típica situação em que alguém apanha uma conversa a meio e sai desiludida. Já na segunda situação vimos uma verdadeira alteração de papéis, em que um rato mata, literalmente, um gato, numa cena que nos mostra quem é o verdadeiro vilão de “Arcane”.

O último episódio do segundo ato prepara bem o que estará para vir na série — um desfecho que nos deixa tão angustiados quanto esperançosos. Após momentos de pura psicopatia voltamos a ver uma luz de humanidade em Jinx, após um reencontro com a irmã, Vi. Claro que, dado tudo o que já se passou e o clima tenso entre elas, as coisas não acabam bem e afastam-se após uma batalha contra os habitantes “de cima”. Embora por vezes seja insuportável, Jinx acaba por ser o destaque de “Arcane”, graças à versatilidade da suas emoções.

Apesar de todos os problemas que possa ter — e são vários — “Arcane” é o presente ideal para todos os jogadores de “League of Legends”, quer tanto para os que ainda jogam para os que já tenham abandonado o jogo.

Carregue na galeria para descobrir outras novas séries (e temporadas) que estreiam neste mês de novembro.

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