Televisão

“A Serra” conta a mesma história de todas as novelas que já existiram no mundo

O cronista Miguel Lambertini analisa a nova produção da SIC, que estreou esta segunda-feira.
Júlia Palha é a protagonista.

Betas a fazer de campónias é a nova grande cena para esta estação, no que toca ao enredo das novelas portuguesas. Depois de Kelly Bailey interpretar uma matarruana na novela da TVI, chegou a vez de Júlia Palha dar vida a Fátima, uma pacóvia da serra, na nova novela da SIC.

“A Serra” estreou esta segunda-feira, 22 de fevereiro, e conta a história de todas as novelas que já existiram no mundo até hoje: um casal de empresários abastados — os vilões — tem uma filha que namora com um rapaz que se apaixonar por uma miúda de origens humildes — a protagonista. Miúda esta que tem uma relação comercial com os pais da namorada do rapaz por quem se apaixonou, dando azo a uma grande guerra entre famílias. Ficou confuso, não foi? 

Pronto, é mais ou menos isto, e no final os vilões morrem num final horripilante, ficam malucos ou são presos. Já o par de apaixonados casa e vive feliz para sempre, numa cabana na Serra da Estrela. Ou, como esta é uma novela do século XXI, o par de apaixonados junta-se em união de facto e vive feliz numa cabana na Serra da Estrela, até serem despejados por um fundo de investimento americano que vai dinamitar um penedo para criar um mega empreendimento turístico. Porque, como diz o próprio slogan de “A Serra”, o amor move montanhas. Neste caso, o amor ao dinheiro dos turistas.

Além de ser a estreia de Júlia Palha num papel principal — a meu ver, totalmente merecido — esta novela marca o regresso da atriz Sofia Alves, que esteve afastada da televisão durante vários anos. Muitas pessoas se perguntaram o que esteve Sofia a fazer durante este período e a resposta é simples: esteve preservada em criogenização. Só pode, porque continua igual e a idade não passa por ela.

A atriz interpreta uma das vilãs desta história e vai fazer a vida negra à personagem de Júlia Palha que, coitadinha, só queria fazer queijos e farinha e logo no primeiro episódio tem de lidar com a morte do irmão, com a possível falência do negócio do pai e, pior que tudo, com o facto de ter partido os seus óculos numa queda. O que é uma verdadeira tragédia, porque encontrar um oculista numa aldeia perdida no meio da Serra da Estrela deve ser mais difícil do que pôr o Jesus a falar inglês corretamente.

Fátima tem um pequeno e modesto moinho na serra, que utiliza para moer farinha, mas esse trabalho manual árduo não a impede de se apresentar sempre como se fizesse parte do catálogo de Inverno da Tommy Hilfiger. Quando a jovem vai à estação de comboios descarregar sacas de farinha, esbarra com Tomás, que faz o saco cair, e em vez de dizer: “mas você é vesgo ou quê, não vê por onde é que anda? Saia-me mas é da frente e deixe passar quem trabalha!”, Fátima prende o olhar em Tomás e neste encontro dá-se amor à primeira vista. 

Entretanto, enquanto Tomás andava a fazer olhinhos à menina bonita da Serra, a sua namorada Mariana aguardava com expetativa a sua chegada, na esperança de que seja desta que ele a vá pedir em casamento. O problema é que Tomás nem um chocolate dos Alpes trouxe para oferecer à sua namorada, quanto mais um anel de noivado. Além disso, depois de conhecer Fátima, Tomás já só pensa na melhor forma de acabar o namoro com Mariana, sem que esta o atire do alto da serra ou lhe dê um pontapé no cume.

Para aclarar a mente, o jovem acha que é boa ideia ir passear para o meio do mato, mesmo no momento em que um nevão está prestes a cair sobre a Serra. Claro que foi uma péssima ideia, mas como o rapaz dá aulas de ski nos Alpes é provável que não seja propriamente um Einstein. Já meio perdido, no meio da escuridão, do vento e da neve feita em computador, Tomás depara-se com Fátima, que anda à procura da Estrela, a sua cadela que está prestes a parir e que, tal como Tomás, achou que era uma boa ideia ir fazê-lo no meio de um temporal de neve e gelo.

Como a cadela não aparece, o casal decide voltar para a aldeia, mas nisto tropeçam e caem numa ribanceira, momento no qual Fátima parte os óculos, mas ainda assim consegue descobrir uma cabana de pastores no meio da noite escura. E aqui, quando estavam a escrever a história, alguém disse “epá, já passaram quinze minutos e a Júlia Palha ainda não apareceu em lingerie sexy, não pode ser… Já sei! E se na cabana ela se despisse porque as roupas ficaram todas molhadas? Boa ideia!”, disseram os restantes, enquanto acediam ao site da Victoria’s Secret para escolher a roupa interior incrivelmente sensual (que uma campónia nunca usaria). À luz da fogueira que Fátima acendeu estupidamente rápido, o casal cede ao ambiente romântico e beijam-se apaixonadamente, enquanto os seus corpos semi-desnudos se tocam.    

“Estás a olhar pra onde?”, pergunta Fátima, como quem diz: “Ei, os meus olhos estão aqui em cima, marotão”. Eu acho que todos sabemos para onde é que Tomás estava a olhar. É que um homem não é de ferro, caraças, e o amor move montanhas… mas não só. 

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