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Abusos e maus tratos aos filhos: o lado negro da vida de Mia Farrow

Farrow é a lança apontada a Woody Allen no novo documentário da "HBO". Mas anos antes, o testemunho de um dos filhos revelou outra realidade.
Moses com os pais e os irmãos

Moses vestiu pela primeira vez o par de calças novas. A rebeldia adolescente levou-o a cortar algumas das presilhas. “Achei que iam ficar muito cool”, recorda. A mãe, Mia Farrow, não partilhava a mesma opinião. “Quando viu o que tinha feito, espancou-me repetidamente e obrigou-me a tirar a roupa. Disse-me que ‘não merecia receber qualquer peça de roupa’ e forçou-me a ficar nu no canto do quarto, tudo isto à frente dos meus irmãos.”

Adotado em 1980 por Farrow — e mais tarde por Allen — e hoje com 42 anos, as revelações dos maus tratos sofridos às mãos de Farrow levaram a que a mãe o tratasse como um “traidor”. Para Mia, Moses “estava morto” e as suas recordações eram “irrelevantes”. “Isto vindo de uma mulher que hoje se assume como uma “defensora das vítimas de abuso”, escreveu em 2018.

Nesse ano, Moses deixou um poderoso testemunho contra-corrente, numa altura em que o movimento MeToo reacendia as críticas a Woody Allen, numa tentativa de cancelar o realizador, assente nos alegados abusos sexuais cometidos em 1992 sobre Dylan Farrow.

Numa longa carta publicada online, Moses partiu em defesa do pai, que dizia estar a ser injustamente acusado, anos depois de ter sido ilibado em tribunal. O testemunho abriu finalmente a porta ao outro lado da família Farrow, quase toda ela firmemente instalada na parte oposta barricada, lado a lado com Mia — e contra, claro, Woody Allen.

O testemunho com quase três anos é hoje outra peça importante para entender o complexo caso que voltou aos temas do dia, depois da estreia de “Allen vs Farrow” na “HBO”. O último episódio chega a 15 de março.

As memórias de Moses percorrem o problemático passado familiar da mãe, os maus tratos sofridos na infância, a alegada manipulação, a obsessão com Woody e até as mortes de alguns dos irmãos.

Woody, o monstro

A primeira memória leva-nos até 4 de agosto de 1992, dia dos alegados abusos de Allen. Mas Moses pinta o retrato vivido na casa nos últimos sete meses — altura em que Mia descobriu o caso que o ex-companheiro teria com a sua filha adotiva de 21 anos, Soon-Yi.

“Durante meses, meteu-nos na cabeça como um espécie de mantra: o Woody era ‘maléfico’, ‘um monstro’, ‘o diabo’ e a Soon-Yi ‘estava morta para nos’. Era o refrão constante, estivesse ou não o Woody por perto. Repetiu-o tantas vezes que o Satchel anunciou-o a uma das nossas empregadas: ‘A minha irmã anda a foder o meu pai’. Ele tinha acabado de fazer quatro anos”, recordou Moses, que sublinhou que Farrow era a única “fonte de informação” sobre o pai. “E ela era extremamente convincente.”

De Allen, recorda-o apenas como carinhoso e cuidadoso, “feliz no seu papel de pai”. Apesar de não viver na casa com o resto da família Farrow, passava os dias com as crianças. “Não me parecia um monstro”.

Moses recorda Allen como um “pai carinhoso”

Moses acabou, mais tarde, por ser também co-adotado por Woody Allen, que conviveu pacificamente com os outros filhos de Mia. Pelo menos até ao rebentar do escândalo: Allen tinha uma relação com Soon-Yi. Farrow impôs de imediato uma condição: ambos deveriam ser “removidos” das vidas dos Farrows. “E nós não tínhamos qualquer outra opção.”

Sobre a polémica relação, Moses tem, também, uma visão diferente. “Ela não era filha dele (adotada ou enteada), nem ela tem problemas de desenvolvimento — tirou um mestrado em educação especial na Universidade de Columbia. E a acusação de que eles começaram a relação quando ela era ainda menor é totalmente falsa.”

Da relação entre os dois, Moses frisa que Allen e Soon-Yi raramente se falavam. Terá mesmo sido Mia quem sugeriu que Soon-Yi, já nos seus 20, passasse mais tempo com Allen. Só então terá começado o romance.

“Sim, era pouco ortodoxo, era desconfortável, abalou a nossa família e magoou terrivelmente a minha mãe. Mas a relação em si não foi, nem de perto nem de longe, tão devastadora para a família quanto a insistência da minha mãe em tornar a traição o centro das nossas vidas daí em diante.”

O lado violento de Mia Farrow

Farrow passou sempre uma imagem altruísta. Era, afinal, a mulher que adotara 10 dos 14 filhos. Para Moses, passar a imagem de um “lar feliz com filhos biológicos e adotados” para o público era importante. Mas estava muito longe da verdade.

Moses, também ele adotado com poucas semanas de vida, abandonado pelos pais biológicos sul-coreanos e sofredor de uma paralisia cerebral, sublinha as “boas intenções” da mãe, embora nada disso se traduzisse nos seus comportamentos dentro de portas.

“Custa-me recordar situações em que vi irmãos meus, uns cegos ou com deficiências físicas, a serem arrastados escadas abaixo para depois serem atirados para dentro de um quarto ou de um armário, cujas portas eram depois trancadas. A minha mãe chegou a trancar o meu irmão Thaddeus, paraplégico por causa da poliomielite, num barraco no exterior da casa como castigo por mau comportamento.

De todos os filhos, Soon-Yi era, segundo Moses, o alvo principal da fúria de Farrow. O irmão descreve-a como a mais independente e a que menos se deixava intimidar pela mãe. “Quando se enervava, alertava a mãe para o seu comportamento e assim começavam discussões bastante feias.”

Numa delas, era ainda Soon-Yi uma jovem, recorda Moses, Farrow ter-lhe-á atirado um grande prato de porcelana à cabeça. “Felizmente, falhou o alvo, mas os estilhaços acertaram-lhe nas pernas.”

Não foi a única discussão que terminou em violência. Anos mais tarde, Farrow terá agredido Soon-Yi com um telefone. “Apesar da sua relação com Allen ser pouco convencional, permitiu-lhe escapar. Os outros [irmãos] não tiveram tanta sorte.”

Desses anos de juventude, Moses recorda que a vida sob o comando da mãe era “impossível”, a não ser que todos “fizessem exatamente aquilo que ela mandava”, por mais estranha que fosse a ordem.

Um episódio destaca-se na memória de Moses, o dia em que a mãe encontrou uma fita métrica no seu quarto. Com olhar intimidatório, Farrow terá perguntado se teria sido ele a pegar no objeto que procurou durante todo o dia.

“Disse-lhe que não sabia como é que tinha ido ali parar. Fez a pergunta vezes sem conta. Quando não lhe disse o que queria ouvir, esbofeteou-me e arrancou-me os óculos. Acusou-me de mentir e ordenou que fosse ter com os meus irmãos e irmãs e dissesse que tinha sido eu a esconder a fita métrica”, recorda.

Ainda hoje diz recordar-se da mãe a instrui-lo, a dizer-lhe o que deveria dizer. “Ela voltaria a entrar no quarto e eu teria que pedir desculpa por ter tirado a fita métrica, que tinha andado a brincar com ela e que nunca mais o faria. Obrigou-me a ensaiar a cena meia dúzia de vezes.”

Moses revela que essa foi a primeira de muitas sessões de “invenção de falas” e de “ensaios”. “Era, na essência, uma lavagem cerebral. Tornei-me ansioso e medroso.”

Apesar de confessar que era inútil tentar lutar contra a mãe, um dia tentou fazê-lo, quando a mãe o acusou de ter fechado os cortinados da sala. Estava na cozinha com Farrow e a sua amiga, quando a mãe voltou a insistir na acusação.

“Estás a mentir”, respondeu finalmente Moses. “Atirou-me um olhar fulminante e arrastou-me para a casa de banho. Bateu-me de forma descontrolada por todo o corpo. Esbofeteou-me, empurrou-me de costas, bateu-me no peito, enquanto gritava: ‘Como ousas chamar-me mentirosa à frente da minha amiga. És um mentiroso patológico’.”

Para Moses, ficou claro que qualquer “passo fora da realidade meticulosamente criada” por Farrow “não seria tolerado”. E, por conseguinte, a infância e juventude tornaram-no “ferozmente leal e obediente à mãe”, mas também “profundamente amedrontado”.

As mortes escondidas

Essa realidade criada por Farrow levou, na opinião de Moses, a que as causas da morte de alguns dos seus irmãos ficassem por esclarecer. Terá sido o caso de Tam, adotada em 1992 e que viria a morrer de insuficiência cardíaca com apenas 21 anos.

Moses revela que Tam enfrentou depressões durante toda a vida — uma situação que terá sido potenciada por Mia Farrow, que recusou sempre levá-la a especialistas. “Dizia apenas que ela era ‘mal-humorada’”, justifica.

Moses recorda também a última de muitas discussões entre Tam e Mia, numa tarde de 2000. No final, a mãe acabaria por sair de casa. “A Tam suicidou-se com uma overdose de comprimidos”, sublinha.

Farrow terá explicado ao círculo mais próximo que a overdose foi acidental, já que Tam era cega e ter-se-ia enganado nos comprimidos. Moses discorda.

“Ela tinha uma memória de ferro e um enorme sentido espacial. E, claro, ser cego não a impedia de saber contar”, explica, antes de revelar que essa última discussão teve apenas outra testemunha além de si, o irmão Thaddeus. Também ele se suicidou, em 2016, com uma arma de fogo.

Lark Farrow, uma das irmãs, terá morrido de doença prolongada. Moses explica o que não foi revelado: “Ela entrou num caminho de autodestruição, com o vício, e eventualmente morreu na pobreza, com SIDA, em 2008, aos 35 anos.”

O passado turbulento

É no passado familiar da mãe que Moses encontra a raiz dos problemas, muito antes do choque com Allen desmoronar a família. Cita o avô, o realizador John Farrow, “conhecido por beber em excesso e por ser um mulherengo”, como responsável por muitas discussões na juventude de Mia que, segundo ele, terá confessado situações de “tentativa de abuso sexual dentro da família”.

Recorda também o caso de John, o tio, que deixou de visitar a família, sobretudo depois de condenado por violação de menores. “A minha mãe nunca comentou publicamente o tema ou mostrou sequer preocupação com as suas vítimas”, atira Moses.

As discussões e a violência eram comuns na casa dos Farrow

Pelo caminho, revela a relação turbulenta com Frank Sinatra, quando ele tinha 51 anos e Mia apenas 21. Na sequência do divórcio, a mãe mudou-se para perto da amiga Dory Previn, que era casada com André Previn.

“Quando a minha mãe ficou grávida do André, o casamento dos Previns acabou e a Dory acabou por ser internada numa instituição.”

Pela inocência de Allen

Do fatídico dia do alegado abuso de Allen a Dylan, Moses recorda que, sob ordens da mãe, teria que ficar atento a tudo o que Woody faria na casa. Quase trinta anos depois, continua a afirmar que nada aconteceu. E, se tivesse acontecido, alguém em casa teria visto.

Do suposto local do abuso, um sótão, explica que fazia parte da narrativa, já que era o único local mais privado onde seria possível fugir aos olhares de quem permanecia em casa. Segundo a acusação, Allen terá cometido o crime no sótão, enquanto Dylan se mantinha distraída com a pista de comboio elétrico que percorria a divisão.

“É uma precisa e entusiasmante narrativa, mas há um problema: não havia qualquer comboio elétrico no sótão. Nem sequer havia lá espaço para miúdos brincarem, mesmo que quiséssemos. Era um espaço fechado, inacabado, cheio de ângulos, com pregos expostos, placas de fibra de isolamento, ratoeiras e dejetos de rato.”

Do julgamento, recorda o nervosismo da mãe. “Insistia para que todos nos mantivéssemos juntos como família”. Moses chegou a escrever uma carta a condenar os atos do pai, que tinha feito algo “horrível e imperdoável”. “Essa denúncia pública do meu pai é, ainda hoje, o maior arrependimento da minha vida”, escreve.

Moses haveria de voltar revelar aos avaliadores do tribunal que se sentia “preso” entre os pais. A afirmação irritou a mãe: “Tens noção do que fizeste? Acabaste de destruir o meu caso. Liga ao advogado e diz-lhe que queres retirar o que disseste dos registos.”

Obediente, fez o que a mãe pediu. “Fui forçado a seguir o guião da minha mãe para provar a minha lealdade.”

A relação nunca recuperou. Moses foi enviado para uma escola longe de casa, contra a sua vontade. E a ligação com a mãe terminaria de vez quando, já adulto, decidiu contactar o pai para reatar a relação. Mia, claro, proibiu.

“Vários anos mais tarde, cortei a ligação com a minha mãe, mas precisei de anos de auto-reflexão, de ajuda profissional e de apoio dos que me amam, para perceber a triste verdade da minha infância e do que ela me fez, a mim e aos meus irmãos”, concluiu.

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