Televisão

“After Life” é um rebuçado colorido embrulhado em papel sem cor

A NiT já viu a segunda temporada da série de Ricky Gervais — é uma das melhores coisas da Netflix.
A série mais emotiva da carreira de Ricky Gervais.
85

A segunda temporada de “After Life” confirma uma equação simples sobre a carreira de Ricky Gervais: é o resultado direto da soma de todas as séries que ele criou. Isso não quer dizer que seja a mais engraçada, a mais original ou sequer a melhor; quer apenas dizer que Gervais jamais teria conseguido entregar uma história tão bem escrita e subtil se não tivesse passado pelas experiências “The Office”, “Extras” ou “Derek”.

Aqui, as personagens não são aceleradas para forçar uma narrativa. Em vez disso, as figuras caricaturadas — como a prostituta com um bom coração ou o psiquiatra inconveniente — constroem um cenário pausado para equilibrar o estado depressivo de um jornalista viúvo e suicida interpretado por Ricky Gervais. 

Na história, Tony perdeu recentemente a mulher e luta todos os minutos para encontrar um motivo forte o suficiente para continuar a viver. Umas vezes esse estímulo é o cão, outras é o pai demente que está internado num lar. Seja como for, no final do dia ele volta sempre para uma casa vazia onde adormece a ver vídeos de Lisa no computador. Pode ler mais detalhes sobre as personagens e o enredo neste artigo da NiT. 

“After Life” é diferente de tudo aquilo que já vimos, sobretudo numa altura em que as séries são consumidas ao estilo fast food: depressa e para uma satisfação imediata. Ou seja, ironicamente, Ricky Gervais usa a Netflix para escrever um manifesto encapuzado contra a própria plataforma.

Desta vez, temos seis episódios de 30 minutos para saborear em cada diálogo, monólogo ou piada. “After Life” fica connosco muito depois dos créditos, perdido nas melhores partes do nosso cérebro. É como se fosse um rebuçado colorido propositadamente embrulhado em papel sem cor para que tenhamos de nos esforçar até chegar lá. Ainda bem — precisamos tanto que seja assim, que nos obriguem a sermos assim. 

Ao contrário do que a sinopse parece indicar, “After Life” é uma celebração da vida construída da forma mais arriscada possível: em cima da tristeza e da angústia. O próprio nome é uma provocação subtil de Ricky Gervais — um ateu super ateu — sobre a verdadeira vida depois da morte. Neste caso, ela é a vida de quem continuou por cá à procura de algum tipo de felicidade.

Todas as personagens são exatamente assim: tristes e solitárias, mas ao mesmo tempo divertidas e solidárias. No fundo, Ricky explica-nos que estes estados de espírito costumam andar aos pares. É nos momentos mais tristes que tomamos as decisões mais importantes e é precisamente quando estamos sozinhos que queremos ser mais solidários.

Este melting pot foi habilmente temperado com o humor inconveniente e desconfortável de “The Office“; a angústia e necessidade de reconhecimento de “Extras“; e o humanismo corajoso de “Derek“. O resultado é uma obra-prima pouco óbvia e sobretudo uma porta de entrada para a cabeça de Ricky Gervais, numa espécie de ensaio filosófico sobre as relações humanas, Deus e o consumo da informação.  

Que bela série — e que bela cabeça. Bravo, Ricky. 

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