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“Ahsoka” é uma série perdida no seu próprio universo

O regresso de “Star Wars” é sempre um momento excitante. Infelizmente, a nova série dá trabalho a mais e prazer a menos.
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Os primeiros segundos de “Ahsoka” foram cuidadosamente desenhados pelo novo miúdo prodígio de “Star Wars” para provocar um arrepio aos velhos fãs da saga. De regresso está a introdução inicial que oferece o contexto, à medida que o texto, agora vermelho, vai passando pelo ecrã ao ritmo de uma espécie de marcha espacial.

Soa a “Star Wars”. Cheira a “Star Wars”. Mas será que é “Star Wars”? A este ponto do campeonato, o que é ou não é começa a ser uma árdua tarefa de desconstrução. E no final, o mais provável é que ninguém se entenda.

Estamos algures entre os acontecimentos de “O Regresso do Jedi” e “O Despertar da Força”, mais ou menos na linha temporal dos acontecimentos de “The Mandalorian”. “O maléfico Império Galáctico caiu e a Nova República surgiu no seu lugar. Contudo, forças sinistras trabalham nas sombras para tentar minar a frágil paz”, descreve. Ficamos a saber que os sobreviventes do Império andam desesperados à procura do último grande oficial, o Almirante Thrawn. Deveria estar morto. Há quem ache que está apenas exilado algures na galáxia. Porque não regressa? Não sabemos.

No seu encalço está Ahsoka Tano, que descobriu o alegado mapa com a sua localização na posse de outra antiga agente do Império, Morgan Elsbeth. E é aqui que começa a série — mas também todos os nossos problemas. Por nossos, refiro-me aos fãs de “Star Wars” que, apesar de entusiasmados, traçaram a linha da saga na passagem para a animação.

Se os nomes de Ahsoka ou Thrawn não lhe dizem nada, é porque certamente nunca viu as muitas temporadas das séries de animação como “Clone Wars” ou “Rebels”, que foram expandindo o cânone oficial de “Star Wars” muito para lá da narrativa dos filmes. Quem passo os olhos pelas novas séries com selo da Disney, terá reconhecido Ahsoka de um par de episódios de “The Mandalorian” e “The Book of Boba Fett”.

Nada disto seria um problema se os primeiros dois episódios fizessem um esforço extra para colocar a par todos os recém-chegados a este palco secundário de “Star Wars”. Isso não acontece, o que cria desde logo um gigantesco problema à série que estreou na Disney+ esta terça-feira, 22 de agosto: é altamente divertida para quem empenhou muitas horas nas séries animadas e conhece todas as personagens; e é profundamente aborrecida para quem não é capaz de apanhar todas as referências.

É verdade que à segunda trilogia, “Star Wars” começou a exigir algum arcaboiço aos seus fãs. A experiência será tão mais agradável quanto for o conhecimento do universo, das personagens, da cronologia, da política do mundo em que se movem. Mas este é um equilíbrio delicado de manter, sobretudo em séries e filmes de uma saga que se quer pop, acessível e, em última análise, espetacularmente divertida.

Ser obrigado a fazer um trabalho de casa para poder ver uma série é um compromisso que nem eu, fã casual, nem o telespectador comum estará disposto a fazer. Por mais que os criadores afirmem que não é necessário devorar as séries de animação para ver “Ahsoka”.

Quem é Thrawn? Porque está num local aparentemente inacessível? Que sítio é este porque é que também é um mistério o paradeiro do rebelde Ezra Bridger? E porque é que ele parece ser tão importante? Seria impossível dar todas as respostas em apenas dois episódios, mas parece imprescindível dar alguma base de sustentação que explique minimamente algumas das dinâmicas das personagens — quanto mais não seja para que a atenção de quem vê não disperse, perdida na irrelevância de olhares dolorosos e relações feridas, sabe se lá porquê.

Este não é, de todo, o único problema da série. Numa aparente tentativa de ser mais “Star Wars” do que “Star Wars” era, somos bombardeados com sabres de luz e sequências de combate que esbatem toda a antecipação. Em apenas dois episódios, os sabres de luz são desembainhados por quatro vezes, o que prova que em “Ahsoka”, os jedi estão completamente fora de controlo.

Depois há tudo o resto. Os diálogos pachorrentos, as personagens insossas e uma narrativa que parece dirigir-se a tantos outros lugares comuns por onde “Star Wars” já passou. Defeitos (e não feitio) que nem os cenários e os mundos desta galáxia ajudam a digerir.

“Ahsoka” tem imensa dificuldade em encontrar o fino equilíbrio entre a animada narrativa de ação e aventura no espaço e os temas mais profundos de propósito, de vida, de relações entre as personagens. Pelo contrário, o que nos entregam é mais uma aventura steb by step, um puzzle mecânico que saltita sem magia de jornada em jornada, onde o herói serve apenas o propósito de completar estas tarefas sem vida.

E pensar que ainda há poucos meses, a Disney nos deu “Andor” e transformou, de forma gloriosa, o que podia ser apenas mais um capítulo “Star Wars” numa das melhores séries do ano.

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