Televisão

Albano Jerónimo: “A minha série da Netflix tem um orçamento como ‘Black Mirror'”

O ator falou com a NiT sobre “The One”, outros projetos que tem desenvolvido e as dificuldades da cultura em Portugal.
O ator já gravou a série da Netflix.

O mundo mudou e um dos setores mais afetados foi o da cultura. No entanto, um batalhão de mentes criativas e a fervilhar, em Portugal e no mundo, tem contribuído para alterar o paradigma e alimentar a esperança — e também para animar todos aqueles que estão confinados em casa.

Uma dessas pessoas chama-se Albano Jerónimo. O ator português de 40 anos, através da sua companhia Teatro Nacional 21, tem sido um dos nomes que têm feito chegar às pessoas, através dos ecrãs, peças de teatro online — e também cursos de escrita. Tem ainda sido um dos participantes em “Como é que o Bicho Mexe”, programa já icónico de Bruno Nogueira no Instagram, que chega ao fim esta sexta-feira, 15 de maio.

A NiT falou com Albano Jerónimo sobre como tem sido esta fase para o ator, os problemas do setor da cultura, a internacionalização e “The One”, a série britânica da Netflix em que vai interpretar um dos protagonistas. Estreia entre setembro e outubro.

Enquanto ator e criativo, como tem sido passar estes dois meses em isolamento?
Tem sido um misto de sensações, experiências, emoções — e um confronto com as tuas escolhas de vida, de uma forma geral. O que é que quero dizer com isto? O ano começou com “A Herdade”, que esteve em festivais como Veneza, tudo isso decorreu, há quatro ou cinco meses ganhei o prémio de Melhor Ator no Festival Internacional de Cinema de Dublin, e de repente comecei a perceber que o filme que ia rodar com o Edgar Pêra foi adiado, três digressões de dois espetáculos foram adiadas, uma série foi adiada, isto tudo no espaço de uma semana e meia. Tudo descambou. Ao mesmo tempo começas a perceber a avalanche que vem do oriente, que começa a aproximar-se cada vez mais do teu País, e de repente estabelece-se o estado de emergência pela primeira vez após o 25 de abril. Os filhos deixam de ir à escola, passam a ter aulas em casa, a tua dinâmica familiar muda, ficas confinado ao teu espaço de casa, é toda uma outra realidade. No meio destas coisas todas, tens duas hipóteses: ou reages ou não reages.

Foi fácil fazer a escolha certa?
Tive ali um período de anestesia na primeira semana, que foi um bocadinho violenta, com estes embates todos, mas, por defeito, desde criança que, sempre que me vi em adversidades, fui obrigado a reagir. Ou seja, estes momentos menos bons da vida sempre me ajudaram a potenciar as descobertas e as reinvenções, e assim foi. Pus-me no terreno, eu e a minha estrutura profissional do Teatro Nacional 21. Começámos logo, fomos a primeira companhia teatral a apresentar um espetáculo online — obviamente que isto não é teatro, mas estamos a falar de uma oferta cultural, que decidimos manter, baseados numa inquietação permanente e desejo de comunicação latente. No Dia Mundial do Teatro, fizemos uma programação para o dia, de manhã à noite, que culminou nesta espécie de Neteatro — brincando assim com os conceitos. Acho que a melhor forma de pensar como é que eu vivi estes dois meses é assim. Concretamente, enquanto ator, tive de me adaptar. Deixei de ter teatro, e toda a minha carreira é baseada em teatro. Deixei de ter esse horizonte. Cinema? Igualmente. Sendo que agora no cinema pelo menos já existe uma perspetiva ou outra. Em televisão também. Quando digo perspetiva, digo na execução.

Ou seja, há perspetiva de retomar gravações? Ou fazer castings?
Ou seja, já existe uma forma de se voltar ao trabalho, com mais ou menos sacrifícios, mas pelo menos já existe uma receita que à partida pode funcionar. Estou a falar de produções lá fora, em Inglaterra tens que ir primeiro para lá, ficar de quarentena 15 dias, e só depois é que podes começar a trabalhar. Em França igualmente. Cá, o que é que se está a fazer? Os profissionais que estão envolvidos em produções têm de fazer um teste, para saberem se estão ou não com Covid-19. Se não estiverem, aí, sim, já podem trabalhar durante um período de tempo, mas estão obrigados de 15 em 15 dias a fazer um teste. 

Mas já entrou nesse processo de trabalho em Portugal?
Não, estou a apontar para que isso aconteça, se tudo correr normalmente — sendo que o conceito de normalidade hoje em dia é muito relativo [risos] —, tenho a perspetiva de poder rodar cá um filme francês no final de junho ou início de julho, um filme português em agosto, e isto a acontecer tem de se obedecer a estas normas de segurança. Teatro? É algo que só daqui a um ano e meio, na melhor das hipóteses, voltaremos a ter uma espécie de normalidade nas salas.

Apesar de os teatros poderem reabrir no próximo mês com várias regras de segurança.
Sim, mas, por exemplo, a Sala Garrett do D. Maria II, tem uma lotação de 500 e tal lugares. Com as normas de segurança, falamos de uma lotação de 72 pessoas. Portanto, está a ver as restrições. Isto sem falar da Sala Estúdio… Pode imaginar as contas, são tenebrosas.

Ou seja, praticamente não é viável?
Eu acho que pode acontecer, como é óbvio, o fenómeno teatral pode dar-se. Agora, não vai acontecer na sua plenitude. Pode retomar uma oferta, mas com uma escassez tremenda, que descaracteriza as próprias salas e espaços, as programações, todo um rol de questões que, na verdade, já deviam ter sido pensadas há algum tempo. Aquilo que nós — comunidade artística, onde incluo técnicos, programadores, atores — nos vimos agora confrontados… O que é que concluímos? É que há uma clara inaptidão por parte do nosso governo no pensamento cultural para o País. Não há nada pensado. Não estamos a falar de uma política de subsídios, estamos a falar de um pensamento sobre a cultura, de uma programação regional. Devido a este confinamento, vemo-nos deparados com as fragilidades imensas deste setor. E é o que estamos a viver, em que um ator não tem direito a subsídio de desemprego se não tiver estado a trabalhar seis meses seguidos na mesma entidade. Todos nós sabemos que um ator, por condição básica, é freelancer. É alguém que trabalha aqui três meses, e depois vai trabalhar ali um mês e meio. Ou seja, nunca trabalhas seis meses de fio a pavio num sítio.

Essas regras, que abrangem todas as áreas profissionais, acabam por não ser justas para todas as profissões.
Claro, todos nós contribuímos, somos contribuintes, somos cidadãos ativos que contribuímos para o bem-estar social. E quando chegam estas alturas, somos excluídos de qualquer apoio.

A longo-prazo, como a pandemia está a expor as tais fragilidades no setor, é possível que a área saia reforçada?
Como diria o Jorge Palma, sou um otimista cético. Quero acreditar que, de facto, isto nos possa colocar num ponto de reset, de um upgrade aqui do disco interno, que nos faça olhar para a natureza, para a sociedade, a cultura, saúde, educação… Estamos a falar de profissionais que não são acarinhados com o devido respeito. E com este momento tudo isso vem à superfície de forma brutal. Estamos a sentir isto tudo, de uma forma ou outra, mais ou menos, na pele.

E as coisas serão sempre diferentes nos próximos tempos por causa disso.
Quem sobreviver a este momento — porque há atores que hoje em dia simplesmente não têm dinheiro para comida — vai perceber que o paradigma mudou. Ou arranjas outra coisa para fazeres, paralelo a esta coisa de ser ator, ou então és alguém que consegue sobreviver, ou porque tens uma estrutura familiar financeira que te possibilita sobreviver a isto com alguma tranquilidade, ou não, ou tens que ir à luta todos os meses. E é o meu caso, tenho que ir à luta todos os meses.

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