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Alcachofra, “o vilão dos chefs de cozinha” e a mais recente estrela do “Masterchef”

O humorista e cronista Miguel Lambertini comenta todas as incidências do mais recente episódio do concurso culinário.
Nunca se sabe o que sai da caixa

Ontem vi mais um episódio do “Masterchef”, na RTP e uma coisa que constato é que, nos últimos tempos, os programas de culinária passaram a ser um género de aula de bioquímica. É que agora sempre que alguém apresenta um prato substitui os ingredientes pelos seus nutrientes. Faz-me lembrar o “Era uma vez…a Vida”, aqueles desenhos animados maravilhosos dos anos 80 em que lipídios, vitaminas, minerais, proteínas, glóbulos brancos e outras células conviviam alegremente dentro do corpo humano de um menino francês, que normalmente descurava a sua higiene pessoal.

Estou com medo que, da próxima vez que pedir um bife com batatas fritas e ovo a cavalo, o empregado grite para a cozinha: “sai um prato de proteína com aminoácidos a cavalo e uma dose de hidratos de carbono para a mesa dois!”.

No episódio de ontem os participantes foram surpreendidos com a primeira caixa mistério, uma pequena arca em madeira posicionada em cima da bancada de cada um. “O que estará lá dentro?”, perguntaram os chefs aos aspirantes. Marisco, tofu, um daqueles macacos indianos tramados que salta para cima das pessoas e arranca-lhes uma orelha? Nada disso, dentro da caixa estava algo muito mais assustador: duas alcachofras. Sim, aparentemente a alcachofra é o vilão dos chefs de cozinha e todos os participantes ficaram aterrorizados com a presença desta temível planta.

Eu também não faço a minima ideia como é que se cozinha uma alcachofra e acho que mais rapidamente comia macaco, mas os cozinheiros puderam relaxar porque a caixa pretendia apenas fazer uma homenagem a Maria de Lurdes Modesto, “a mãe” da cozinha tradicional portuguesa. E assim, ao invés de plantas de aspecto jurássico, os participantes tiveram sim de cozinhar um prato típico de uma região de Portugal.

Os três melhores pratos foram do Alberto — que está há 6 meses em Portugal e ainda assim conseguiu fazer uma carne de porco que agradaria a qualquer compadre alentejano — do João e David. O júri acabou por dar a vitória ao João, que fez uma receita do seu avô, caldeirada de galinha com bacalhau. Pelo nome podia ser perfeitamente um dos pratos que a minha filha inventa na sua cozinha de brincar, coisas como Pizza de gomas com natas ou Sopa de gelado de chulé. Mas a verdade é que a combinação, aparentemente inusitada, de ingredientes resultou num petisco sublime que a chef Marlene Vieira descreveu como um “abraço gastronómico”.

A segunda prova deste episódio foi a primeira passada fora do estúdio. Os concorrentes foram até à Quinta da Alorna, para servirem o almoço aos trabalhadores da vindima que, coitados, não bastava estarem a trabalhar no campo desde as seis da manhã, agora ainda têm de levar com sopa de espargos ao almoço.

Os concorrentes dividiram-se em três equipas, cada uma com um respectivo capitão. A equipa azul liderada pelo António, a equipa vermelha liderada pela Mafalda e a verde liderada pelo João. O desafio passava por cozinhar uma sopa forte, um prato principal e uma sobremesa para os 150 trabalhadores da vindima. Coelho, frango do campo ou codorniz eram as três “proteínas” disponíveis para criar o prato principal. João, como ganhou o desafio anterior, pôde escolher primeiro e optou pelo frango do campo para a sua equipa, o coelho para a equipa da Mafalda e a codorniz para a equipa do João.

Mafalda é muito engraçada e ontem fez-me lembrar uma versão moderna da personagem do Herman, “Filipa Vasconcelos”. A arquiteta arregaça as mangas e mostra-se super confiante para fazer coelho à caçador porque, explica “eu nunca cozinhei coelho, mas fazia-se imenso lá em casa”. Só faltou dizer “eu cozinho para o povo com o mesmo prazer que cozinho para as amigas da mãe, tá a perceber?”

Entretanto João achou que seria boa ideia a sua equipa confeccionar chips de batata doce para acompanhar com o frango do campo, mas o chef Vítor Sobral, com o seu tom de Guarda da GNR, demoveu-o desse pensamento. A vitória acabou por sorrir à equipa do António que fez uma ótima sopa da pedra colombiana — receita do Alberto, claro, que em apenas dois programas já só me apetece convidá-lo para ir lá a casa cozinhar — e uma codorniz que os chefs adoraram.

De volta ao estúdio, todos os concorrentes das duas equipas que não venceram a prova, tiveram de participar numa prova de eliminação, com três rondas para serem salvos, três em cada ronda. Numa preocupação com o desperdício, que é louvável, a produção disponibilizou aos concorrentes uma caixa com produtos excedentes da prova anterior.

Os aspirantes foram apresentando os seus pratos, até que na ronda final a decisão ficou apenas entre Tânia Amor e Felícia Daniliuc. Os chefes preferiram o prato de Tânia e por isso Felícia foi eliminada do programa e Tânia subiu à varanda onde os seus colegas estiveram durante a prova a mandar palpites. No fundo eles só queriam ajudar, claro que se fosse eu em stress lá em baixo, ao primeiro bitaite atirava-lhes com um par de ovos à cabeça. Perdão, uma mão cheia de proteína, carregadinha de aminoácidos.

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