Televisão

Álcool, drogas e depressão. A vida triste de Matthew Perry

Foi um sucesso enorme como Chandler Bing, em "Friends", mas depois tudo descambou. O ator morreu este sábado em casa.
Morreu aos 54 anos.

Chandler, Monica, Rachel, Phoebe, Ross e Joey, os eternos protagonistas de “Friends” não marcaram só uma geração. A icónica comédia da NBC que estreou em 1994 e terminou dez temporadas depois, em 2004, bateu todos os recordes possíveis. Na era do streaming, foi uma das séries mais vistas de sempre na Netflix — e também foi descoberta por gerações que não podiam ter acompanhado a sitcom durante os anos em que esteve no ar. Hoje, o mundo inteiro está de luto pela morte de uma das personagens mais adoradas da televisão: Chandler Bing. 

Não tinha a beleza do Joey nem a inteligência do Ross. Era desajeitado, sarcástico e desesperado por amor. Odiava o trabalho que tinha e passou as dez temporadas de “Friends” a tentar descobrir o seu lugar no mundo. Fazia piadas quando se sentia desconfortável e usava o humor como um escudo para não lidar com problemas.

O que poucos sabiam, na altura, era que por trás de uma personagem que fazia rir milhões de espectadores, escondia-se um homem que lutava contra o vício da droga e do álcool. Ao longo dos anos, Matthew Perry esteve em várias clínicas de reabilitação e tem um longo historial de depressão. Chegou mesmo a dizer, numa entrevista, que não se recordava das gravações de três temporadas inteiras de “Friends”, e que os problemas de dependência o afetaram gravemente.

O ator partilhou a sua luta contra o vício num livro de memórias que foi publicado há cerca de um ano, a 1 de novembro. Em “Friends, Lovers and Big Terrible Thing”, fala sobre alguns dos piores vícios que teve durante as gravações, bem como dos rumores de romances que lhe foram atribuídos. 

“Queria partilhar quando estivesse segura em entrar no lado negro novamente. Tive que esperar até estar bastante sóbrio ‒ e longe da doença do alcoolismo e do vício ‒ para escrever tudo. Tinha a certeza que ia ajudar as pessoas se fizesse isso”, contou à revista “People”, na altura do lançamento da autobiografia.

Nascido a 19 de agosto de Williamstown, no estado norte-americano do Massachusetts, Matthew Perry cresceu com o sonho de se tornar jogador de ténis profissional antes de tentar atuar. Aos 24 anos, foi escolhido para interpretar Chandler, o papel que iria mudar para sempre o rumo da sua vida.

Um milagre chamado Chandler

Matthew Perry quase não teve a oportunidade de interpretar a personagem de Chandler Bing em “Friends”. Corria o ano de 1994 e o ator estava desesperado por trabalho, tanto que até chegou a rezar para que a sua vida mudasse, semanas antes da audição para a sitcom.

Na altura, estava fora do mercado porque tinha sido contratado para uma sitcom de ficção científica chamada “LAX 2194”, cuja narrativa se desenrolava no aeroporto de Los Angeles do futuro. Apesar de estar comprometido com o novo papel, lembra-se de receber o guião de “Friends” e ter pensado que era “hilariante e incrível”. “Havia uma parte que era perfeita para mim e estava a deixar-me louco não poder ir por causa da série futurista. Estava a enlouquecer”, disse.

Tudo começou a mudar quando um dos executivos da FOX assistiu ao episódio piloto de LAX 2194 e admitiu que tinha sido “a pior coisa que já viu em toda a vida”. Nesse momento, virou-se para Perry e disse que estava disponível para participar na sitcom “Friends Like Us”, que depois se tornou “Friends”.

“Cerca de três semanas antes da minha audição para ‘Friends’, eu estava sozinho no meu apartamento, no décimo andar era muito pequeno, mas tinha uma bela vista e estava a ler no jornal sobre Charlie Sheen. Dizia que Sheen estava mais uma vez em apuros por alguma coisa, mas lembro-me de ter pensado: não sei porque se importa, ele é famoso”, escreveu no livro de memórias.

“Do nada, ajoelhei-me, fechei os olhos com força e rezei. Nunca tinha feito isso antes. Disse: Deus, podes fazer o que quiseres comigo. Apenas, por favor, torna-me famoso”, recordou. Três semanas depois, foi escolhido para interpretar a personagem de Chandler. 

“Deus cumpriu a sua parte, mas o Todo Poderoso, sendo o Todo Poderoso, não se esqueceu da primeira parte dessa oração”, disse Perry, a referir-se ao seu vício.

55 comprimidos por dia

O vício no álcool começou no auge da carreira, aos 24 anos, quando foi escolhido para participar em “Friends”, ao lado de Jennifer Aniston, Courteney Cox, Matt Le Blanc, Lisa Kudrow e David Schimmer. “Conseguia lidar com isso, mais ou menos, mas quando tinha 34 anos, estava realmente envolvido em muitos problemas”, confessou. 

A decadência das drogas piorou muito depois do ator ter sofrido um acidente de jet-ski. A certa altura, começou a tomar 55 comprimidos do opióide analgésico Vicodin por dia, usado para as dores, e pesava 58 quilos. 

Mesmo com o apoio dos colegas de “Friends”, que foram “compreensivos e pacientes”, não sabia como parar.  “Lembro-me de uma vez em que a Jennifer Aniston, que interpreta Rachel Green, confrontou-me de forma estranha, mas amorosa. Disse-me que todos sabiam que eu tinha voltado a beber porque todos sentiam o meu cheiro. O plural ‘todos’ atingiu-me de uma maneira… Eles foram muito compreensivos e pacientes. Casei com a Monica e fui levado de volta para o centro de reabilitação. Estava no ponto mais icónico de ‘Friends’, no auge da minha carreira, e acabei numa carrinha a ser levado por um funcionário preocupado com o meu vício”, lê-se no livro.

Ao longo dos anos, Matthew recordou que apenas esteve sóbrio na nova temporada — a que lhe valeu uma nomeação para melhor ator. “Eu fiquei do género: ‘Isso deve querer dizer alguma coisa’. Eu não sabia como parar. Se a polícia chegasse a minha casa e dissesse: ‘Se beber hoje à noite, vamos levá-lo para a cadeia’, eu fazia as malas. Não podia parar porque a doença e o vício são progressivos. Ficam cada vez piores à medida que envelhecemos”.

Desde 2001 que estava “quase sóbrio”, tendo cerca de “60 ou 70 pequenos contratempos ao longo dos anos”. O ator participou em seis mil reuniões de alcoólico anónimos, desintoxicou-se 65 vezes e passou por 15 centros de reabilitação, gastando cerca de nove milhões de euros para combater os vícios.

Em 2018, esteve quase a morrer devido ao uso excessivo de analgésicos opióides: o cólon rebentou e passou duas semanas em coma, cinco meses hospitalizado e usou um saco de colostomia durante nove meses. O processo deixou-o com 14 cicatrizes no corpo. “São muitos alertas para me manter sóbrio. Basta olhar para baixo. Os médicos disseram que eu tinha dois por cento de hipóteses de sobreviver”, pode ler-se na obra.

A paixão por Jennifer Aniston 

Na autobiografia, Matthew Perry aproveitou para esclarecer alguns rumores que ganharam força nos últimos anos. Um deles, revelou‒se verdadeiro. O ator admitiu que os primeiros meses de gravações não foram fáceis devido à paixão não correspondida que sentia por Jennifer Aniston, que interpretava Rachel. 

“Conheci a Jennifer Aniston três anos antes de começarmos a gravar a série e senti-me atraído por ela, gostei dela. Convidei-a para sair mas ela recusou, dizendo que podíamos ser bons amigos. Os primeiros meses de gravações não foram fáceis, porque ainda estava apaixonado por ela. Mas acabou por passar, quando a série atingiu o sucesso. Ela foi dos maiores apoios que tive durante a minha recuperação e tenho muito a agradecer-lhe”, escreveu.

O ator acabou por superar a paixão no decorrer da série, mas começou a interessar-se pelas outras duas colegas do elenco, Courteney Cox (Monica) e Lisa Kudrow (Phoebe), em momentos diferentes.

“Como não ter uma crush por Jenny, Courteney e Lisa? Era difícil até ir trabalhar, porque tinha de fingir que não se passava nada”, confessou. Nas páginas do seu livro, Perry chamou Cox de “terrivelmente linda”, mas, ao contrário da série, na vida real nunca formaram par romântico.

“Havia uma regra que tínhamos – era muito importante para nós os seis, que éramos amigos. Se estivéssemos a namorar ou se houvesse algo estranho a acontecer, isso poderia atrapalhar as coisas”, disse.

Quando o coração parou 5 minutos

No livro de memórias, Perry também explicou o motivo que o levou a desistir de participar em “Não Olhem Para Cima”, filme popular de Adam McKay, que contou com um elenco de luxo, onde iria interpretar um jornalista republicano num pequeno papel. 

Enquanto estava numa clínica de reabilitação na Suíça, Perry mentiu aos médicos e alegou que tinha graves dores de estômago. Conseguiu o que queria — os especialistas receitaram-lhe medicamentos para as dores, o que serviu para alimentar a sua adição. Na verdade, Perry não tinha quaisquer dores.

“Levei uma injeção às 11 da manhã. Acordei 11 horas depois num hospital diferente”, escreve Matthew Perry no livro. “Aparentemente, o propofol tinha parado o meu coração. Durante cinco minutos. Não foi um ataque cardíaco, mas nada estava a bater. Disseram-me que um suíço robusto não queria que o tipo de ‘Friends’ morresse na sua mesa, então ele fez-me RCP durante os cinco minutos inteiros, a bater no meu peito.”

“Se eu não tivesse entrado em ‘Friends’, teria ele parado aos três minutos?”, brincou o ator. “Será que ‘Friends’ me salvou a vida outra vez? Pode ter salvo a minha vida, mas também me partiu oito costelas.”

Matthew Perry deveria ter contracenado com Meryl Streep em três cenas — naquele que seria o “maior filme” da sua carreira até à altura — mas graças às dores que sofreu depois do procedimento a que foi sujeito, tomou a decisão de deixar o projeto. Isso partiu-lhe o coração, como disse.

O reencontro com os colegas de “Friends”

Um dos momentos mais esperados para todos os fãs da série de comédia foi a tão aguardada reunião especial de “Friends”, que estreou na HBO em 2021. Por todo o mundo, os espectadores puderam recordar momentos nostálgicos da comédia, observar a química natural entre o elenco e divertir-se com algumas participações improváveis.

Muitos fãs, contudo, mostraram-se preocupados nas redes sociais com Matthew Perry. O discurso arrastado e a boca descaída levaram a que muitos se questionassem sobre se o ator teria tido alguma recaída, já que é conhecido o seu histórico de abuso de drogas e álcool.

O assunto não foi abordado no especial, embora Matthew Perry tenha revelado que sofria de uma enorme ansiedade durante a rodagem, feita com público, quando a plateia não se ria como devia das piadas do guião. 

Ao jornal britânico “The Sun”, uma fonte explicou que nos dias das gravações, Matthew Perry tinha sido sujeito a um procedimento dentário de emergência, que o deixou com algumas dores.

“O Matthew apareceu para a reunião e membros da sua equipa disseram que ele teve um tratamento dentário de emergência naquele dia. Isso teve impacto no seu bem-estar e na forma como se estava a sentir”, disse a fonte.

E acrescentou: “Ele estava com algumas dores, o que provocou um discurso arrastado. Obviamente, ninguém quer filmar depois de um procedimento destes, mas aconteceu. O Matthew disse aos que estavam à sua volta que estava sóbrio e que não há motivo para preocupações”.

Matthew Perry foi encontrado morto no jacuzzi, na sua casa em Los Angeles, nos EUA, por volta das 16 horas locais (meia-noite de domingo, em Portugal) deste sábado, 28 de outubro. Os paramédicos terão sido chamados telefonicamente para acorrer a uma paragem cardíaca. Apesar de não existir sinais de crime, nem drogas encontradas no local, o caso está a ser investigado pela polícia de Los Angeles.

O ator terá chegado a casa durante a manhã de sábado, depois de praticar pickleball durante duas horas. Segundo a “TMZ”, o ator pediu a um assistente pessoal que saísse para fazer um recado. Quando regressou, duas horas depois, encontrou-o no jacuzzi, já sem sinais vitais, e ligou para o número de emergência médica.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT