Televisão

Álvaro Morte: o cancro, os negócios e os gémeos do Professor, de “La Casa de Papel”

O ator espanhol que virou uma celebridade mundial tem uma nova série. "The Head" chega esta quarta-feira a Portugal.
O outro lado do ator.

Foram vários os momentos em que as coisas poderiam ter corrido de maneira diferente. Álvaro Morte poderia não ter sido ator, poderia não ter sobrevivido a uma luta contra o cancro e até a série que o catapultou para a fama mundial poderia ter chegado ao fim bem antes do tempo. 

O ator espanhol nascido em Cádis há 45 anos é o tipo discreto dentro e fora do ecrã. Muito antes de ser o Professor, de “La Casa de Papel”, Álvaro começou uma carreira com o seu nome verdadeiro, Álvaro Antonio García. Ao longo dos anos foi tendo papéis pequenos em diferentes séries da televisão espanhola. O ator continuava à procura de uma oportunidade a sério quando, em 2011, lhe foi diagnosticado um cancro um perna. O prognóstico era terrível: davam-lhe poucas esperanças de vida.

Álvaro lançou-se numa luta épica durante meses contra a doença. E saiu vencedor. No ano passado, durante uma entrevista à revista mexicana “Notimex”, falou sobre esse período: “O que me curou foi isso, não ter medo. Considero a morte parte da vida. É algo que devemos aceitar porque mais tarde ou mais cedo vai acontecer”.

O ator sabe bem o que é estar nos dois lados do sucesso. “Nesta profissão, um dia estás lá em cima e no dia seguinte lá em baixo”, afirmou certa vez. No seu caso, passou bem mais tempo no fundo da pirâmide. Talvez seja por isso que quando a fama chegou, não o tenha mudado por aí além. 

Ao entrar nos quarenta, Álvaro contou que a sua própria mulher, Blanca Clemente, já duvidava que viesse a ter papéis de protagonista. Era coisa para os mais novos. Em 2017, no entanto, a espanhola “Antena 3“ lançava “La Casa de Papel”. A série estreou em canal aberto com sucesso, em Espanha, chegando a ter audiências de mais de quatro milhões de espectadores. Mas foi perdendo força com o passar do tempo. No final da segunda temporada, o elenco de assaltantes e investigadores despedia-se, assumindo que a história terminara por ali.

Foi então que a Netflix se intrometeu e levou as duas primeiras temporadas para a plataforma. O resto já o sabemos: a série viciante espalhou-se. Tanto que, agora, em 2020, parte da quinta e última temporada até foi filmada em Portugal. O fim aproxima-se, é certo, mas não sem antes se ter tornado a série (sem ser em língua inglesa) mais vista em todo o mundo. O Professor de “La Casa de Papel” não será esquecido — até porque está a lançar novos projetos.

A 21 de outubro, o AXN começou a transmitir “The Head”, uma série de seis episódios numa estação de pesquisa na gelada Antártida. Há uma parte da equipa que fica para trás, isolada do mundo, durante seis meses. Quando os reencontram, o cenário parece coisa saída da longa estadia de Jack Nicholson no hotel de “The Shining”

Na nova série, o ator é Ramón, figura algo solitária que esconde algo do seu passado, e que entre o seu inglês fluente lá ouvimos um “frio de cojones”, bem apropriado ao Pólo Sul.

O inglês fluente (e nem sempre é fácil quando o sotaque espanhol se intromete) é uma daquelas conquistas já antigas e cada vez mais úteis, que lhe tem permitido trabalhar no seu país e fora dele. Além de “The Head”, estreou-se com destaque em longas-metragens em 2018, com “Durante la Tormenta”, além de ser central noutra série espanhola que tem sido particularmente bem sucedida em Espanha nos últimos dois anos, “El Embarcadero”.

Curiosamente, Álvaro Morte nem sempre esteve ligado às artes. Começou por estudar engenharia de telecomunicações. Porém,  tudo mudou no dia em que ligou ao pai, “um empreendedor nato”, a explicar que pretendia mudar de carreira. A conversa foi relatada pelo jornal “El Pais” recentemente.

— Vais estudar o quê? Arquitetura?
— Não exatamente, vou estudar artes dramáticas.
— Mas como é que te vais alimentar?

O lado artístico não surgiu do nada, explicou. A sua mãe nunca foi profissional das artes, mas sempre se habituou a vê-la pintar, cantar e dançar na casa da família em Cádiz. Por isso, o jovem Álvaro arriscou tudo — mesmo sabendo que estava a desiludir as expectativas do pai. 

Demorou uns anos a chegar lá mas foi o próprio a revelar em entrevistas nos últimos anos que — apesar da resistência inicial — o pai se tornara o mais “orgulhoso” dos seus fãs.

Estudou representação na Finlândia, na Universidade de Tampere, uma pequena cidade com pouco mais de 200 mil habitantes, mas que tem salas de teatro a brotar que nem cogumelos. “Todas cheias e as pessoas repetem uma e outra vez porque entendem que o teatro é algo vivo”. 

Uns anos mais tarde, a ver uma peça de teatro com a mulher, ocorreu-lhe que o teatro clássico é algo divertido. Por isso, os dois decidiram abrir uma companhia de teatro independente, em 2012, chamada 300 Pistolas. O espaço continua a funcionar em Madrid, Espanha. Costuma ter peças de teatro clássico, incluindo versões de Shakespeare que convidam à participação do público. Muitas das sessões são para escolas, como forma de o teatro chegar aos mais novos.

O seu Instagram hoje em dia tem mais de 11 milhões de seguidores, quase todos são resultado direto do sucesso de “La Casa de Papel”. Esta janela é uma oportunidade para o vermos a trabalhar e para sabermos quais os próximos projetos. Pelo meio, é também uma oportunidade de conhecermos a família. Álvaro e Bianca são pais de um casal de gémeos, León e Julieta, de seis anos. As imagens que geralmente partilha dos filhos escondem sempre os rostos. 

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Ahora SÍ empieza el #findesemana #julieta

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Para o ator, tentar manter-se fiel a si próprio é algo que nunca deixou de dar trabalho. Chegou a recusar fazer publicidade quando tinha pouco dinheiro para não correr o risco de ficar associado ao selo de “aquele tipo do anúncio”. Para conseguir o papel que o tornou famoso, o Professor, fez cinco castings no espaço de dois meses. Inicialmente queriam alguém que fosse uns anos mais velho, já nos 50. Mas o papel ficou mesmo para ele.

Hoje em dia é reconhecido não só em Espanha, mas no resto da Europa, Ásia ou América do Sul. Isso não o atrapalha. “Sou normal, muito normal. Quero sê-lo”, insistia numa entrevista ao “El Mundo” no ano passado.

Ao mesmo jornal, acrescentou “Dou assim, otimista, positivo. Não preciso de terapias ou meditação. Os meus escapes são a música, sou um melómano de gostos ecléticos e as histórias que encontro em qualquer lugar; num livro, numa viagem, num filme. Vou por uma rua, olho para cima e fico a imaginar a vida das pessoas que vivem naquelas casas, é isso que me entusiasma. Isso e os meus filhos e as pessoas de quem gosto”.

Entretanto, já deu conta dos seus planos para abrir uma produtora. Quando voltou da Finlândia, há muitos anos, aproveitou para estudar cinema no regresso ao seu país. Não estranhemos por isso se o Professor se aventurar também atrás das câmaras. Álvaro Morte tem do seu lado aquela experiência de quem sabe que por vezes é preciso esperar pelo momento e oportunidade certas. E se há algo que partilha com a sua personagem na série da Netflix, é este lado cerebral, de quem sabe o que quer. 

Já que aqui está, carregue na galeria e recorde as recentes filmagens em Portugal da última temporada de “La Casa de Papel”. Álvaro Morte não filmou por cá mas houve caras conhecidas por Lisboa e Almada.

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