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Amores desfeitos, a prisão e o cancro: a vida trágica de Tiger King

A vida de Joe Exotic sempre foi atribulada e piorou depois da fama mundial. A história prossegue em “Tiger King 2”, a sequela.
Contado, ninguém acreditava

Entre a violência que salpica o mais louco e inesperado documentário dos últimos anos, sobressai um momento menos turbulento. Nele, Joe Exotic comemora o amor a três num casamento invulgar com dois homens aparentemente heterossexuais.

Como seria de esperar, toda a preparação e a boda estão disponíveis no YouTube (cortesia da Joe Exotic TV) e envolve muitos cabelos oxigenados, fatiotas rosa choque e uma espécie de calma que soa estranha no meio da desvairada vida daquele a quem chamam Tiger King.

Não há género ou tema que possa definir e encapsular toda a loucura deste “Tiger King”. Do consumo de drogas ao abuso de animais passando pela violência, pelas tentativas de homicídio, pelo uso de armas, pela posse de animais selvagens, da pertença a cultos a candidaturas políticas e um mais do que duvidoso sentido de moda — a série documental é uma avalanche de bizarrias e, adivinhou, está de volta para uma segunda temporada.

“Pensámos que já tínhamos visto tudo, mas apenas espreitámos a superfície”, anuncia o trailer oficial da sequela que estreia esta quarta-feira, 17 de novembro. “Quanto mais fundo descemos, mais louco, profundo e letal tudo se torna.”

Entre as curiosas personagens que habitam este mundo paralelo de homens e mulheres fascinados por tigres selvagens, nenhuma é tão imprevisível, divertida e intrigante como Joe Schreibvogel, o homem de 58 anos que chegou a envergar o crachá da polícia, antes de virar a vida do avesso.

Na verdade, Schreibvogel é apenas um dos seus nomes. Haveria de adotar o apelido hifenizado Maldonado-Passage (os nomes dos seus dois maridos) mas revelou-se ao mundo como Joe Exotic, o Tiger King — Rei dos Tigres.

Nascido numa família pobre, Joe era fascinado pelos animais, mas a forma como lidava com eles indiciava, seguramente, que algo poderia não estar bem. Ainda novo, tinha o hábito de disparar a arma de pressão de ar contra os pássaros, apenas para depois os tentar ressuscitar injectando-os com água.

Joe Exotic com um dos seus primeiros tigres, ainda bebé,

Cresceu no Kansas rural, onde teve que reprimir a sua homossexualidade, eventualmente revelada aos pais por um dos irmãos que o odiava. Com o seu segredo descoberto, Exotic entrou em depressão profunda e, segundo relatos do próprio — contestados por alguns dos seus familiares, terá tentado o suicídio ao conduzir o carro patrulha em que seguia contra uma ponte.

Foi então que tentou a sorte junto dos animais de que tanto gostava. Depois de tocar pela primeira vez em leões bebé na Florida, abriu uma loja de animais de estimação com o único irmão com quem se dava. Claro que, sendo Joe Exotic quem era, os problemas nunca demoravam muito tempo a surgir.

Depois da morte do irmão e do encerramento da loja, abriu outra apenas em seu nome e onde criou um protótipo do que viria a ser o seu mundo. Pela montra e pelas estantes era normal ver símbolos de orgulho gay e bandeiras americanas com as cores do arco-íris.

Assim que as multas começaram a chegar — alegadamente por não cumprir as normas camarárias impostas à loja —, Exotic fez o que sempre faz: ergueu a voz e atacou tudo e todos.

“É tempo do meu povo falar e vou liderar a matilha”, revelou a um jornal local, enquanto acusava as autoridades camarárias de o multarem apenas por ser homossexual. “O preconceito tem que acabar. Porque é que um homem gay não pode ter um dia feliz em família sem enfrentar o preconceito? Nós não escolhemos esta vida. Nascemos assim.”

Um jovem Joe Exotic a lutar pelos direitos dos homossexuais.

A loja haveria de fechar, apenas para concretizar o seu grande sonho: o de ter o seu próprio jardim zoológico. Em 1997 comprou uma quinta que pertencia aos pais e inaugurou o GW Zoo.

Quando em 1999, as autoridades locais encontraram dezenas de emas abandonadas, Exotic ofereceu-se para as acolher, mas capturá-las revelou ser uma tarefa complicada. Os animais de grande porte debateram-se e provocaram vários feridos. Algumas morreram durante a recolha. E um vídeo tramou Joe Exotic.

Nele, Exotic era visto a matar várias emas com uma caçadeira, uma decisão apoiada pelo chefe da polícia local. “É mais humano do que obrigá-las a passar pelo stress de serem capturadas e transportadas”, justificou o dono do zoo, que haveria de ser levado a tribunal por crueldade animal. Foi ilibado de todas as acusações.

O seu GW Zoo continuou a crescer e entre várias experiências, descobriu o filão de ouro. Rapidamente percebeu que mais do que espetáculos de animais selvagens e sessões de ilusionismo, os visitantes queriam brincar com as crias de tigres e leões — e estavam dispostas a pagar por isso.

As relações atribuladas

Conheceu o primeiro marido em 1986, num bar gay de cowboys no Texas, onde Joe trabalhava como segurança. Brian Rhyne tinha 19 anos e um estilo semelhante ao de Exotic: a já famosa poupa, o longo bigode e um outfit assente em jeans e botas de cowboy. Rhyne, infetado com HIV, acabaria por morrer em 2001.

Um ano depois, Exotic iniciou um novo relacionamento com Jeffrey Hartpence, um dos colaboradores dos seus espetáculos itinerantes. A ligação complicou-se e entre o consumo excessivo de álcool e drogas, os conflitos tornaram-se violentos, ao ponto de Hartpence ameaçar Exotic com uma arma apontada à sua cabeça.

Dias antes, Exotic teria deixado uma ameaça implícita na secretária do companheiro. Uma foto de Golias, o maior tigre do zoo, com um ar ameaçador, a devorar um pedaço de carne. Sobre a carne podia ler-se “os restos mortais de JC” e uma nota escrita à mão: “Se não atinares, esta vai ser a tua realidade.”

A polícia interveio e deteve Hartpence, que mais tarde viria a ser condenado por pedofilia e homicídio. Por essa altura já o Tiger King tinha saltado para outra relação com John Finlay — o primeiro amor que também acabaria por se tornar estrela da série documental da Netflix — e que aceitou tatuar na barriga a frase “propriedade privada de Joe Exotic”.

Durante dez anos, o casal manteve-se inseparável, apesar de Finlay reconhecer ser heterossexual. Só que em 2013, há um terceiro elemento que se junta à complicada relação: Travis Maldonado, um jovem de 19 anos com um passado problemático com metanfetaminas, mas que aceitou uma proposta de emprego no zoológico. Ao fim de um mês, a relação tripartida era publicamente assumida. Um ano depois, tinha lugar o casamento não-oficial que simbolicamente unia os três homens, dos quais apenas um era assumidamente homossexual.

O casamento não-oficial entre Travis Maldonado, Tiger King e John Finlay.

“Sempre namorei com raparigas enquanto andava na escola”, confessa Finlay na série, onde é também revelado que mantinha vários casos extraconjugais com algumas das mulheres que trabalhavam no zoo. Uma delas acabaria por engravidar, o que precipitou o fim da relação com Exotic.

“Deixou-me por uma rapariga. Não tenho como competir com isso”, explicou Tiger King. Um mês depois do casamento, Finlay perdeu a paciência e atacou Exotic. Acusado em tribunal pelas agressões físicas, nunca mais voltou ao zoo.

O cenário não era muito diferente com Travis. “Disse ao Joe pelo menos três vezes que o Travis não era gay. Andava a comer todas as miúdas do zoo”, explicou Rick Kirkham, o produtor de televisão que colaborou com Exotic no seu programa.

Quatro anos depois, acontecia uma tragédia. Maldonado brincava com uma arma que pensava estar descarregada, apontou-a à cabeça e disparou. Contrariamente ao que pretendia, a bala foi mesmo projetada. As autoridades concluíram ter-se tratado de um suicídio acidental. Exotic ficou inconsolável.

Fiel ao seu estilo bizarro, Tiger King convocou uma conferência de imprensa para explicar todos os acontecimentos. “O que quer que ouçam nas notícias ou nas redes sociais, ele não se matou. Ele amava a vida mais do que possam imaginar.”

Surpreendentemente, ou talvez nem tanto, dois meses depois da morte de Maldonado, Exotic casava-se com outro homem jovem, Dillon Passage, de apenas 22 anos. Mais estranho ainda: uma das testemunhas presentes na cerimónia era precisamente a mãe de Travis Maldonado.

Também essa relação acabaria num divórcio anunciado no verão de 2021, mas por essa altura, já Exotic tinha problemas mais graves: a prisão.

A vida atrás das grades

No mundo dos criadores de animais selvagens, falava-se mais de selvajaria e menos de animais. Foi assim que nasceu a rivalidade épica entre Exotic e Carole Baskin, que travou uma guerra para tentar impedir as lucrativas sessões entre visitantes e crias de tigres.

Após perder um caso em tribunal e ter de pagar mais de 800 mil euros, Exotic prometeu vingar-se. A guerra suja entre difamações públicas e vídeoclipes, onde acusava Baskins de ter assassinado o marido e ter dado o corpo a comer aos seus tigres, levou Tiger King à bancarrota.

As ameaças tornaram-se cada vez mais temerárias e frequentes. “Acredito que todos vocês vão parar de respirar antes de acabarem comigo”, disse num dos seus programas. Noutra ocasião, a acusação foi ainda mais gráfica. “Sabem é melhor que Carole Baskin nunca se cruze comigo pessoalmente?” Ouve-se um disparo e uma boneca loira que estava a poucos metros de Exotic é alvejada e cai. “Isto é o quanto eu já estou farto de toda esta merda.”

Exotic perdeu tudo na batalha judicial contra Carole Baskin.

Perante as sucessivas ameaças e testemunhos de pelo menos duas pessoas que confirmaram que Joe Exotic as tentou contratar para matarem Baskin, a sua detenção era praticamente inevitável. E inevitável foi também a sua condenação a 22 anos de prisão.

Foi detido em 2018 e presente a julgamento em 2019. Em janeiro de 2020, o juiz anunciava uma pena de prisão de 22 anos, uma sentença quase perpétua para o homem de 57 anos. Dava-se como provado não só que tinha tentado contratar dois indivíduos para matarem Baskin, como também havia violado várias leis federais relativas aos maus tratos de animais exóticos.

A série documental da Netflix acabaria por chegar no momento ideal, precisamente quando o mundo se fechava em casa por culpa de uma pandemia global. “Tiger King” tornou-se num êxito e, inevitavelmente, Exotic tentou capitalizar a fama.

Rapidamente se criou uma Team Tiger (uma série de fãs anónimos e de personalidades públicas que acreditavam na inocência de Joe) que lançou uma campanha de angariação de fundos. Sob a presidência de Trump, a iniciativa “Libertem Joe Exotic” ganhou ímpeto com a esperança de um possível perdão presidencial — que motivou até alguns gracejos nas redes sociais por parte de um dos filhos do presidente.

Enquanto a luta era travada fora dos muros da prisão, Joe Exotic debatia-se com outros problemas. Chegou a suspeitar-se de uma infeção por Covid-19, quando um surto infetou dezenas de prisioneiros. Exotic foi colocado em isolamento por 14 dias, algo que se veio a verificar ser apenas por prevenção. Não escapou, contudo, a um diagnóstico de cancro da próstata. “O estabelecimento prisional aprovou os testes para perceber em que fase é que estou. O meu corpo está cansado, perdi muito peso e as feridas que tenho na boca estão fora de controlo. Vomito mais do que aquilo que como”, revelou o próprio.

Apesar do apelo, muitos desconfiaram. Afinal, havia relatos de que em 2014, Exotic teria pedido ajuda monetária a amigos para ajudar no combate a um cancro na próstata e na medula óssea. Veio a saber-se mais tarde que a hospitalização estava apenas relacionada com uma inflamação na próstata, desidratação e um surto grave de herpes.

Desta vez, ainda não se sabe se tudo se trata de mais uma invenção — numa altura em que continua a pedir perdão ao presidente, neste caso Joe Biden —, mas Exotic voltou a falar sobre a doença. Em setembro revelou que o cancro terá alastrado ao estômago e que não irá avançar para tratamento caso se confirme o pior cenário. A 4 de novembro, voltou a confirmar o diagnóstico e a explicar que se trata de um cancro muito agressivo, segundo indicam os últimos testes.

“É com tristeza que tenho de anunciar que o teste da biópsia à prostata chegou e revela que é um cancro agressivo. Ainda estou à espera de mais resultados, mas neste momento não quero que ninguém tenha pena de mim”, escreveu nas redes sociais.

Mesmo doente e atrás das grades, a marca Tiger King não pára. Em apenas três meses, Joe Exotic lançou a sua marca própria de canábis e até uma campanha de venda de NFT — tokens não-fungíveis que são a última grande moda no mercado digital —, isto dias depois de Carole Baskin lançar também a sua própria criptomoeda, a $SCAT.

Enquanto tudo isto acontecia, Joe Exotic teve uma pequena vitória nos tribunais. Um painel de três juízes declarou que a sentença que o condenou a 22 anos de prisão foi mal formulada. Na opinião dos magistrados, a sentença dos dois crimes deveria ter sido contabilizada como apenas uma.

Na prática, isto significa que a ponderação não deveria ter sido entre uma pena de 22 a 27 anos, mas entre uma de 17 a 22. O tribunal irá agora reformular a sentença, o que poderá significar uma redução na pena total a cumprir.

Os advogados de Exotic prometem ir até às últimas consequências e até tentar pedir o anulamento do julgamento. “As pessoas devem saber que o que veem na televisão não é toda a verdade. Não é, sequer, a ponta do icebergue. Viram uns pequenos flocos no topo do icebergue, todos eles fabricados por aqueles que querem ver o Joe Exotic na cadeia para seu próprio benefício”, afirmou.

Verdade ou não, certo é que esta quarta-feira, 17 de novembro, a montanha-russa de Tiger King volta a abrir-se ao público. Mais uma viagem que ninguém vai querer perder.

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