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“And Just Like That”: Ele morreu, o sexo desapareceu e as bainhas desceram

O reboot de "O Sexo e a Cidade" é bastante mau e demasiado cringe. Leia a crónica de Elsa Araújo Rodrigues.
"And Just Like That..." estreou a 9 de dezembro na HBO Portugal.

Carrie num daqueles mini chapéus ridículos, check. Piada fraquíssima sobre distanciamento social, OK, já cá faltava o zeitgeist pandémico. Monólogo ainda pior sobre as novas formas de cumprimentar, também. Mal chegamos aos 40 segundos e a náusea é já incontrolável, quando surge o elefante invisível no saguão do spot demasiado clean e movimentado: onde está a Samantha?

“Já não está connosco”, responde Charlotte com a gravitas possível. Deus, no caso, a Deusa morreu e ninguém espalhou a notícia por Nova Iorque inteira? Resposta inqualificável e justificação parola — “está em Londres”. Faz todo o sentido. Sobretudo quando para o quarteto a única cidade europeia onde vale a pena viver é Paris (como qualquer nova-iorquina que se preze sabe). Ainda não consegui processar tanta desgraça em tão pouco tempo e ouço aquele gritinho irritante da Carrie. Uh! Olho para o relógio: passaram 1 minuto e 20 segundos. Não sei se aguento mais 20 e tal.

“A vida é curta”, diz a nossa escritora favorita a tentar desviar um assunto que se tornou desconfortável (hélas, envolve sexo). Quem também está a ficar sem tempo sou eu, infelizmente os anos também passaram por mim. Estou velha e sem paciência para reboots mal amanhados — tudo o que este “And Just Like That…” é. Despachei de uma assentada que me soube tão bem como uma cacetada, os dois primeiros episódios de dezena que já produziram. Uma hora da minha vida que jamais vou recuperar.

Idade, mid life crisis fora de época (Miranda voltou à universidade para salvar o mundo), cabelos brancos, daqui a 10 anos vou continuar a fingir que ainda sou quarentona — até agora a única sugestão de Carrie que sinto realmente vontade de concretizar quando chegar aos afamados 55 que as personagens dizem ter.

“Existem temas mais importantes no mundo do que tentar parecer jovem”, diz Miranda. Ai, sim? Para quem? Seria apenas uma pergunta retórica se não fosse exatamente essa a razão de existir de duas personagens novas que tomam conta de todas as cenas e nas quais antes nem reparávamos: o botox e os fillers. Admito que já por lá andassem entre 1998 e 2004 (quando “O Sexo e a Cidade” foi exibido na HBO), mas agora saltam à vista: os lábios da Charlotte ferem olhos, inclusive.

O meu nível de enjoo tinha acabado de atingir a estratosfera quando o pão chegou à mesa. Pouco depois servem-se batatas fritas gordurosas e aí veio tudo para fora. Como se alguma gaja de Upper East Side fosse alguma vez apanhada em público a come(te)r esse pecado capital. Solto um impropério sonoro em direção ao ecrã, alguns destroços ficaram colados. Nojento, eu sei. Ah e também aprecio o tubérculo frito. Assim como assim, não vivo em Manhattan. Não por falta de vontade. Um desejo que nem sabia que tinha e só descobri quando comecei a acompanhar as peripécias do quarteto maravilha.

Todas sonhávamos com essa cidade imaginada, que nunca existiu — foi construída por Darren Star e Michael Patrick King. Não faço ideia do que se passa na cabeça de King, mas não sei se quero saber. É também autor deste reboot e o péssimo resultado está à vista: o argumento é sofrível, as piadas são francamente más (embora não desçam ao nível dos lábios — não tenho uma fixação com esta parte do corpo, garanto — do Lawrence do segundo filme, lembram-se?). De resto, no mesmo patamar de qualidade das inenarráveis películas.

É tudo mau demais, incluindo os outfits. Primeiro: as fabulosamente torneadas pernas da Carrie desapareceram. Choremos. De desgosto e alívio (adeus adutores, abdutores e leg presses). Estamos a falar de uma overdose de saias rodadas quase até ao tornozelo: se existe peça de roupa que grita velha gaiteira é esta. Talvez tenha uma ou duas no armário, mas nunca me passaria pela cabeça, nem pelas pernas, usá-las dia sim, dia não. Se calhar é porque ainda não estou nos 50, mas como já não falta assim tanto acabei de decidir deitá-las fora. Antes prevenir que remediar.

Os vestidos Oscar de la Renta com flores destinados a duas miúdas pré-adolescentes são só ridículos (e horrendos). O piscar de olho ao designer fétiche da série original está tão mal enjorcado que só falta mostrarem o contrato de product placement com a marca. Os sacos porta fatos estão demasiados minutos em cena e tudo parece falso e surreal. A filha mais nova de Charlotte é skater (yeah!) e resume a situação: “descreve bonito”.

E eis que chegamos ao momento alto do primeiro episódio. Big continua a chamar miúda à Carrie. Como se ele, um homem que nunca cresceu, fosse agora o adulto na sala (veremos se maturou nas cenas dos próximos capítulos — mas tenho sérias dúvidas). Christ. Vergonha alheia. Por outro lado, está barrigudo e aqueles traços mandibulares já viram melhores dias. Oh yeah, life is so fair.

Não quero ser injusta. O momento mais sexy deste primeiro episódio é todo dele, quando começa a arranjar um molho de espargos com as mãos (detesto cozinhar e adoro espargos — sou uma fraca). De resto, não há muito para dizer. Ah, Big morre. Montado numa Peloton, a babar-se para uma ruiva de mamas grandes e de ataque de coração. Again: life is so fair. Claro que não podia faltar o momento dramático. Numa tentativa vã de ressuscitar John, Carrie dá cabo dos famosos sapatos Blanhik de cetim azul (ou será roxo, cor dos mortos?). Choremos, outra vez. Ou não. Já estavam demodé.

Toda a série está. Continua a andar-se de metro calçando saltos vertiginosos (com saias rodadas, repito). Aparecem palavras e expressões novas — Instagram, podcast, pessoa não binária, cisgender, woke, white saviour complex e muitas outras — a que acrescento cringe. Todas introduzidas à martelada porque descobrimos que somos brancas e ricas. E temos vergonha de ser o que somos. Se nos anos 90, todas tinham amig@s gays e lésbicas, agora todas têm amig@s de todas as cores do arco íris (e alguns até da mesma classe social!).

Diversidade, diversidade, diversidade. A ideia é boa, a concretização é péssima. Como se fosse possível mudar aquilo de que “O Sexo e a Cidade” se alimenta(va): os problemas primeiro mundistas de quatro mulheres muito privilegiadas e super mimadas. O esforço de hipercorreção não deixa esquecer o facto de que o essencial continua igual: não se percebe bem em que trabalham — ou se o fazem, de todo — e vivem vidas ostensivamente obscenas. Intuímos (subentendemos) que à custa de advogados e investment bankers: ser podcaster não é propriamente a ocupação mais bem paga do mundo. Isso, pelo menos, não mudou. Ninguém acreditava que Carrie conseguisse viver como vivia com um salário de colunista na série original. Até Miranda, a única que parecia verdadeiramente gostar do que fazia (Samantha também, mas a outra escala) deixou de trabalhar para voltar à escola. Enfim.

“Não podemos continuar a ser quem éramos”, diz Carrie. Não o diz como uma piada, mas poderia ser — uma das muitas realmente más que se ouvem a torto e a direito. A série nunca pretendeu ser realista, mas havia qualquer coisa entre aquelas quatro mulheres que nos fazia acreditar que o mundo poderia ser diferente. Poderia ser um lugar onde vestíamos o que queríamos, enrolávamo-nos com quem nos apetecia — e passávamos mais tempo a planear saídas com gajas do que a correr atrás de gajos.

“O Sexo e a Cidade” mostrou-nos que podíamos falar do quão boa ou má tinha sido a noite anterior e de cunilingus ao brunch (que na altura era só um pequeno almoço tardio após uma noite difícil e que consistia em meias de leite, torradas com manteiga a escorrer, pastéis de nata e assim, na loucura, um sumo de laranja natural ou uma garrafa de leite achocolatado Ucal). Estávamos a aprender que ser feminista era também falar de sexo com azzz amigazzz (assunto que muitas de nós, que víamos a série nos idos 2000, não tínhamos tido oportunidade de aprofundar com as nossas mães, tias, e provavelmente, nem sequer com as primas).

E depois, lá para o fim da série — quando aquilo começa a descambar — percebemos que afinal a Carrie era (só) mais uma que sonhava casar de branco (preferencialmente com alguém que ganhasse 10 vezes mais que ela) e ia ter direito ao seu príncipe encantado. Mr. Big, um dos gajos mais imaturos e emocionalmente indisponíveis que alguma vez vimos no ecrã. Blargh.

Claro que já não somos quem éramos. Temos 25 anos em cima (e filhos, e trabalhos, e maridos e ex-maridos, e sogros, e pais doentes e prestações da casa e o diabo a quatro), mas quero acreditar que ainda conseguimos falar sobre sexo (e masturbação) sem nos engasgarmos. Coisa que nem Carrie, Miranda ou Charlotte parecem conseguir fazer. Aliás, os únicos que parecem efetivamente sexualmente ativos são dois adolescentes (um deles, o filho de Miranda). Aquele reforçozinho do estereótipo que as mulheres de uma certa idade perdem todo e qualquer interesse por sexo que faltava.

Ainda não vi os restantes 8 episódios — e não gostei. Felizmente, sou antiga e privilegiada (shame on me). Tenho a famosa box set “Sex and The City – The Complete Series — 1 to 6” e ainda possuo leitor de DVD. Quando bater aquela saudade desses tempos mais simples, do meu já longínquo coming of age, vou encher um copo de vinho (vários, vá) e evadir-me para a minha Nova Iorque. Aquela cidade a tresandar a anos 90 (e só eu sei como sou fã dos nineties) onde fui mentalmente muito feliz. Ouvir aqueles textos incrivelmente bem escritos chegava a provocar orgasmos — intelectuais, mas não menos intensos.

“Não te mudes para Paris por minha causa”, atirou Big a Carrie algures na segunda temporada da primeira série, que lhe responde — e bem! — com um roll eyes. Quão diferente teria sido a vida dela, se o tivesse feito? Não sabemos. E lamento não saber. A atração pela grande maçã entretanto, apodreceu. Mas a cidade das luzes continua a exercer o seu fascínio: “teremos sempre Paris”, como dizia o outro (by the way, o único gajo no Universo que pode dirigir-se a uma mulher usando a expressão kid e isso soar como um elogio).

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