Televisão

Ângelo Rodrigues: “É uma série com um lado erótico a partir de um olhar feminino”

O ator português fala pela primeira vez sobre a série internacional que esteve a gravar para a Netflix. Estreia este ano.
Ângelo Rodrigues será um dos protagonistas.

Em setembro do ano passado que a Netflix anunciou uma nova série brasileira, “Olhar Indiscreto”. Entre o elenco principal encontrava-se o português Ângelo Rodrigues. Desde então, não foram divulgados mais pormenores sobre o projeto, mas sabe-se que o thriller psicológico estreia na plataforma de streaming em 2022. 

Agora, e pela primeira vez, Ângelo Rodrigues deu uma entrevista sobre a produção. Em conversa com a NiT, falou sobre como conseguiu o papel, descreveu as diferenças nas gravações em relação a outros projetos e deixou algumas pistas sobre a narrativa e os grandes temas do enredo.

O elenco inclui ainda Débora Nascimento, Emanuelle Araújo e Nikolas Antunes, entre outros. Leia a entrevista.

As primeiras imagens da série foram divulgadas em setembro. Estavam a decorrer as gravações?
Tudo começou tudo em maio do ano passado, quando estava a recuperar de mais uma cirurgia de reconstrução da perna. No exato dia em que chego a casa, depois de ter estado internado no hospital, o meu agente brasileiro entra em contacto comigo a dizer que tinha um casting para a Netflix. Foi um episódio bastante caricato porque tive que fazer uma self-tape com quatro cenas onde tinha de parecer que estava normal, não é? A parte engraçada foi fazer essas cenas sem que ninguém percebesse que não conseguia andar. Felizmente deu certo. 

Quando começaram as filmagens?
Os ensaios aconteceram em agosto e as gravações em setembro. Até à última hora, até viajar para o Brasil, pensei que se tinham enganado porque foi tudo tão inesperado. Ainda por cima, estava fisicamente debilitado e, de repente, aparece-me um casting em que se eu conseguisse o papel teria um enorme alcance… Será que se enganaram? Porque isto é uma produção da Netflix Brasil e eu sou o único português no elenco. Mas deu tudo certo e lá embarquei para essa experiência transatlântica, para dar um intenso mergulho emocional nos ensaios que fizemos durante um mês. Como estávamos ainda em contexto pandémico, todos os profissionais estavam bastante carentes de conexões. Isso tornou ainda mais especial o processo dos ensaios. A partir do momento em que nos pudemos encontrar fisicamente em São Paulo, os ensaios duravam umas 10 horas com todo o elenco a fazer jogos de desinibição, entrega e afinidade. Tornou-se uma troca bastante intensa, literalmente do suor às lágrimas [risos]. E é engraçado porque desde 2012 que vou ao Brasil todos os anos. E foi preciso o mundo parar parar, ficarmos todos para casa, para este casting chegar — ainda por cima através do meu quarto. Há coisas inesperadas.

Este projeto foi apresentado como um thriller psicológico. O que pode desvendar sobre a história?
A história gira em torno da Miranda, uma hacker muito habilidosa mas que também tem um lado voyeurista. Ela é uma voyeurista insaciável que gosta de observar os vizinhos nos seus momentos mais íntimos. A minha personagem chama-se Heitor Prado, é um empresário português dono de uma cadeia de hotéis. É uma pessoa abastada, um milionário com alguma influência social. E, nessa cadeia de hotéis, um dia tem um problema de segurança no sistema informático e contrata uma hacker para resolver esse problema. É aí que o Heitor se encontra com a Miranda pela primeira vez. E o thriller psicológico gira em torno da relação entre eles — e da procura pelo pai biológico da filha do meu personagem.

A produção procurava um ator português para este desempenhar o papel?
Não, por isso é que recebi este convite com total surpresa, tanto que a personagem virou portuguesa por minha causa.

Além dos ensaios que descreveu, como se preparou para encarnar o Heitor?
A abordagem foi completamente diferente. A produção ia buscar-nos e levar-nos ao hotel, parece que vivíamos dentro do tal thriller psicológico que queríamos contar. Para criar uma relação com o meu braço-direito na série, a nossa preparadora de elenco não nos disse nada e levou-nos para a rua. Aí entregou-lhe a chave do carro e disse-lhe para me conduzir pela cidade de São Paulo e para improvisarmos um texto a partir daí. Nisto, está uma das realizadoras da série sempre a gravar o ensaio. Fez um plano sequência infinito enquanto estamos a dar voltas ininterruptas por São Paulo a improvisar um com o outro. Construímos memórias nos ensaios para isso transparecer na nossa relação enquanto personagens. Depois, acho que esta produção tem alguns fatores diferenciais.

Quais são?
É um projeto exclusivamente feito por mulheres, da conceção à execução. É um original da Marcela Citterio, uma autora argentina, adaptado por uma autora brasileira que é a Camila Raffanti. Tem três realizadoras, uma diretora de arte, uma diretora de fotografia, uma operadora de áudio, uma iluminadora, no guarda-roupa — tudo mulheres. Foi a primeira vez que trabalhei num projeto assim. Porque a Netflix quer contar uma história com algum teor não só psicológico mas também erótico e queriam que o prazer fosse apresentado através do olhar feminino. Erotismo com um cuidado feminino atrás das câmaras. Geralmente, estes ambientes são maioritariamente masculinos em Portugal. Outro fator diferencial é que, por ser um projeto tão peculiar no assunto que ia tratar, existia uma intimacy coordinator.

Uma especialista em coordenar as cenas íntimas.
Exatamente. Penso que faz parte do plano da Netflix, onde existe uma importante carga erótica nas cenas, tem de haver um responsável por essa construção, que começa nos ensaios. Tivemos a oportunidade de fazer uma desconstrução diferente das cenas. Como recriar uma cena erótica num ambiente seguro e confortável? 

Qual foi o grande desafio deste projeto?
Falar português do Brasil. Isso ficou bem definido logo na self-tape. Mesmo quando começámos os ensaios fisicamente — porque nos conhecemos antes, via Zoom — de repente sou atirado para um país que fala a nossa língua mas com um sabor diferente no sotaque. É como representar com um colete de forças. Como estou condicionado pelo sotaque, improvisar torna-se mais complicado, por exemplo. Paralelamente à produção, trabalhei com uma fonoaudióloga. Fazíamos sempre exercícios de voz — acabava de gravar, via os textos que tinha para o dia a seguir, decorava as cenas em casa e parte do meu trabalho era enviar cada cena individualmente para a minha fonoaudióloga. Ela respondia quando eu acordava, tipo às sete ou oito da manhã, com pequenas indicações. Como “Ângelo, nesta sílaba não prolongues tanto”.

Sabe quando “Olhar Indiscreto” vai estrear?
Só sabemos que é em 2022. A Netflix tem uma política de secretismo invejável.

Suponho que esteja expectante para que a estreia aconteça.
Muito, claro que sim. Quero muito ver o resultado. Agora estou em processo de dobragem das cenas num estúdio em Lisboa — cenas que, por algum problema técnico ou pela circunstância em si, o áudio teve de ser melhorado e então é preciso dobrar em estúdio. É um processo bastante esquizofrénico. Volto de um projeto a falar português do Brasil, entretanto já entrei noutro trabalho e estou no meu país de origem a falar o nosso português e de repente tenho de ir para estúdio ver o trabalho que fiz e recordar como fazia o sotaque [risos].

Por ser uma produção da Netflix, a probabilidade de vir a ter uma grande visibilidade — ainda por cima sendo uma série brasileira — é bastante grande. Como encara essa possibilidade?
É mais um desafio profissional. Não muda a nossa forma de trabalhar. O alcance é que é outro. Saindo do meu controlo, não tenho como sofrer por antecipação, se não estaria aqui pejado de ansiedade. Mas não, estou a levar as coisas de consciência tranquila, fiz o máximo que conseguia. Seja bom, mau, péssimo ou brilhante, fiz o máximo que conseguia.

Ficou com mais vontade de fazer produções no Brasil e para a Netflix, mesmo noutro país?
Claro que sim, é encorajador. O formato streaming veio revolucionar não só o mercado de consumo do audiovisual, mas também a minha profissão. Atualmente, penso que a ideia do sonho americano já está obsoleta. Aquela imagem dp ator que vai para Los Angeles trabalhar durante anos a fio, que quase passa fome a trabalhar em restaurantes e bares à espera de uma oportunidade até conseguir singrar no meio… De repente, a pandemia acelera o processo de conseguires fazer um casting a partir de tua casa. Abre a porta para comunicarmos em qualquer língua. E a revolução do streaming está a tornar o consumidor mais empático com outras línguas. De repente, já não é estranho veres uma série em coreano, como o “Squid Game”, ou uma “La Casa de Papel” em espanhol, ou um “Dark” em alemão. Não só torna o consumidor mais adulto e exigente, como o torna mais recetivo a outros sotaques — e é aí que entro, talvez na altura certa.

O facto de ser um thriller psicológico também foi algo que lhe agradou?
Bastante. Vou confessar uma coisa: dois temas que tratamos na série é bondage — sado-masoquismo — e shibari, que é uma técnica de amarração japonesa. Nos ensaios tivemos formação, estive a ver pessoas a serem amarradas, para eu próprio aprender esses rituais, para as atrizes com quem ia contracenar passarem por essa experiência e também para abrir os horizontes no que toca a contar uma história de prazer sem limites. Para isso a Netflix achou bem patrocinar a iniciativa de nos pôr a falar com a pessoa mais experiente do Brasil em sado-masoquismo. É um mergulho profissional bastante diferente do que estava habituado.

Ao longo da sua carreira já fez várias cenas íntimas. Sente que trabalhar com uma coordenadora de intimidade faz a diferença?
Acrescentou. No início era estranho para toda a gente, porque era uma novidade, até para a própria. Era o primeiro trabalho do tipo que ela estava a fazer, tinha tido formação da Netflix, era uma coach e preparadora de elenco que agora tem esta nova responsabilidade de preparar as cenas íntimas. E ainda por cima num país como o Brasil, conhecido pela libertação no que toca à abordagem que fazem ao sexo, isso pode gerar algum desconforto. Mas não foi o que aconteceu. Ela tornou-se na nossa maior aliada e tornou-nos bastante conscientes de algumas coisas que aceitamos na nossa carreira, simplesmente por aceitar. No nosso ofício como atores, para construíres uma carreira, és habituado a dizer sempre que sim. E até ignorando possíveis desconfortos que possas sentir. Porque existe sempre uma relação vertical.

Uma hierarquia na produção.
Exato. E, de repente, estou num projeto em que a comunicação é completamente horizontal. Eu também contribuía criativamente para a produção. As primeiras leituras de guião foram com a guionista via Zoom, e alterámos algumas falas porque nos cabiam melhor quando as dizíamos. Sentia que a obra estava viva. 

Enquanto aguarda por “Olhar Indiscreto”, carregue na galeria para conhecer séries novas que já pode ver na Netflix (e não só).

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