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Anna Westerlund: “Eu e o João Francisco não queremos falar baixinho sobre o suicídio”

Pouco mais de um ano após a morte de Pedro Lima, a sua companheira deu uma entrevista em que falou abertamente sobre o suicídio do ator.
a família de Pedro Lima

“Senti que esta conversa era a forma de homenagear o Pedro”. Anna Westerlund, companheira de 20 anos de Pedro Lima, decidiu dar a primeira entrevista depois da morte do ator, em junho de 2020. A conversa aconteceu com Manuel Luís Goucha e rapidamente se tornou um momento de grande emoção. 

“O Pedro merece este momento, não queria que o meu silêncio pudesse ser confundido com vergonha”, refere. A companheira do ator diz que quer falar abertamente sobre a depressão e sobre o suicídio, sem tabus e sem “falar baixinho”. Tanto Anna como João Francisco Lima, filho mais velho de Pedro, têm usado as redes sociais para aumentar a discussão sobre estes temas e contar a sua experiência pessoal.

“Eu acho que ninguém escolhe ficar deprimido, de alguma forma, há pessoas geneticamente mais suscetíveis à doença e também é verdade que o Pedro tinha gavetas com monstros lá dentro”, começa por dizer Anna, e continua: “Eu digo que o Pedro morreu de suicídio, porque o suicídio é uma consequência de uma doença mental”. 

A saúde mental, que tem vindo a ser cada vez mais abordada na sociedade, é a causa de muitos suicídios, mas Anna acredita que os números não são a realidade da doença. Compara ainda a depressão com um cancro em último grau que acaba por matar rapidamente, no entanto “não há uma prevenção para a saúde mental como há para a saúde física”, afirma Anna.

A ceramista acredita que a morte do companheiro se deveu a um culminar de vários fatores, “uma tempestade perfeita”, e que o isolamento social causado pela pandemia, foi muito difícil para o ator que “entrou numa depressão galopante, violenta e rápida”. Pedro Lima chegou a procurar ajuda de psicólogos e psiquiatras, no entanto Anna acha que nem o próprio sabia da gravidade da depressão que tinha. 

“Não querendo entrar em polémicas, a depressão trata-se de várias formas, uma delas com medicação, e a medicação não serve a toda a gente, no sentido em que o tratamento não funciona com toda a gente. No caso do Pedro, a medicação acho que piorou o cenário”, diz.

Entre lágrimas, Anna contou a Manuel Luís Goucha que dias antes da morte do companheiro tinham falado sobre a possibilidade de Pedro se suicidar: “Perguntei-lhe dias antes se pensava em suicidar-se, ele respondeu-me olhos nos olhos que não. E eu acreditei. Mas a verdade é que o amor não salva tudo”.

Anna Westerlund refere ainda que ela e os filhos Emma, de 17 anos, Mia de 14, Max de 11 e Clara, de 5, estão a fazer terapia para superar a morte de Pedro Lima, e que tem olhado para a morte como uma consequência da doença e que talvez tenha sido essa perspetiva que a ajudou a superar o dia-a-dia. Confessa também que não há espaço para haver “zanga” pela morte do companheiro, mas que se questiona muitas vezes se poderia ter feito alguma coisa a tempo para prevenir este desfecho.

A conversa terminou com a pergunta “quem é o Pedro?”, a que Anna respondeu “o Pedro é o amor da minha vida”. Sublinhou ainda: “Acho que o Pedro merece falarmos sem vergonha e quem diz o Pedro diz todos os Pedros, todas as pessoas que partiram desta forma. Não só pelos que partem mas também pelos que cá ficam”.

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