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Anya Taylor-Joy: a miúda talentosa que quer fazer esquecer Charlize Theron

Aos 24 já tem uma carreira explosiva. Escolhida pelos melhores realizadores, tem uma minissérie na Netflix e vai ser a próxima Furiosa de George Miller.
Se não a conhece, vai passar a conhecer

Colocou um par de saltos altos pela primeira vez com 16 anos. Agarrou na trela do cão e saiu à rua. O cenário improvável levou-a a cruzar-se com um profissional de uma agência de modelos. Foi abordada na hora. A carreira de modelo foi fugaz — à terceira sessão fotográfica um ator deu-lhe o contacto de um agente.

Sem qualquer tipo de treino ou formação como atriz, além de um par de aulas de teatro na escola, começou a aparecer em audições. Tentou um papel em “Malévola”, da Disney. Foi rejeitada. “Estava tão nervosa, a tremer. Chorei durante muito tempo depois de saber que não tinha ficado com o papel”, recorda.

O não foi talvez uma bênção. Ao fim de mais um par de tentativas, recebeu um guião para se preparar para um novo casting. “Li-o na noite anterior e foi um erro, porque não consegui dormir”, confessa. A sua gravação foi a primeira que o realizador viu. Não podia ser assim tão fácil. Percorreu todas as cassetes até regressar à sua e dar-lhe o papel.

O filme era “The Witch”, a produção que rapidamente se tornou num clássico do terror e que catapultou Robert Eggers para o grupo dos mais promissores cineastas da sua geração.

Ao lado de Eggers, Anya Taylor-Joy recebeu a merecida atenção, no papel da jovem Thomasin. Tinha apenas 19 anos e o seu primeiro grande papel era destaque no Festival de Sundance — onde “The Witch” foi nomeado para Grande Prémio do Júri e conquistou o galardão para Melhor Realização.

 

De repente, a vida da jovem de 18 anos mudava completamente. “Fui para o Canadá sozinha, para o meio do nada com um bando de estranhos para gravar um filme muito sombrio. Nunca questionei nada. Não tive medo”, recorda.

Não é fácil encontrar carreiras com lançamentos tão fulgurantes como a de Taylor-Joy. A verdade é que o género é uma espécie de aposta segura no currículo. Fê-lo com Eggers em “The Witch”, em “Morgan”, “Marrowbone” ou “The Miniaturist”, entre outros. Mas nenhum a levou ao topo como a colaboração com M. Night Shyamalan.

O comboio que a apanhou em 2015 nunca mais abrandou e segue a alta velocidade. A formação como atriz acontece em tempo real: um desafio ainda mais perigoso e excitante. “Sou uma pessoa muito intensa, nunca consegui viver no meio das coisas. Estou a crescer literalmente nos sets, com a ajuda destas personagens, a aprender muitíssimo.”

Uma mulher com mundo

O bilhete de identidade diz que nasceu em Miami, nos Estados Unidos da América. O percurso conta outra história. Aprendeu a falar na Argentina, onde viveu desde muito pequena. Filha de um pai banqueiro de origem escocesa e argentina, mudou-se com seis anos para Londres. Não falava uma palavra de inglês.

“Foi muito difícil deixar a Argentina quando era miúda. Só falei espanhol durante os primeiros seis anos de vida. E durante dois anos recusei aprender inglês, quando já morava em Londres, na esperança de que a minha família me mandasse de volta para casa”, recorda.

Chegou a regressar a Buenos Aires, viveu a adolescência entre países e aprendeu ballet. Da experiência, retira pontos positivos, sobretudo aqueles que a ajudam hoje na carreira como atriz.

“Foi duro mas ao mesmo tempo, acho que o facto de me sentir tão deslocada preparou-me para a vida que levo agora. Sinto que não pertenço a lado nenhum, o que por sua vez faz com que pertença a todo o lado”, nota.

No papel de Gina Gray na quinta temporada de “Peaky Blinders”

Apesar da carreira ter surgido um pouco por acaso, ser atriz foi algo com que sempre sonhou. “Não me recordo do momento em que me apercebi de que era isto que queria. Mas sempre o quis. Tenho demasiados sentimentos, preciso de expressá-los de alguma forma, seja na dança ou noutra coisa qualquer.” E assim foi.

Trabalhar com os grandes

Há atores com o dobro de tempo de carreira de Taylor-Joy cujo currículo não chega aos calcanhares da atriz de 24 anos. Depois da experiência com Robert Eggers, foi dirigida pelo filho de Ridley Scott em “Morgan” e escancarou as portas de Hollywood com um “sim” do mestre da fantasia e terror, M. Night Shyamalan.

“Assim que entrei na mesma sala em que ele estava, sentimos uma ligação. Senti que o conhecia muito melhor do que conhecia na realidade. E senti que sabia o que ele pretendia da performance. Quando fiz a audição, havia três papéis: as raparigas número um, dois e três. Quando ele me pediu para escolher, escolhi a terceira e por acaso era o papel da Casey”, recorda a atriz, que acabou por criar uma amizade forte com o realizador.

Foi co-protagonista de “Split” ao lado de James McAvoy

Taylor-Joy parece ter esse dom. Depois do sucesso de “Split” (2016), onde contracenou com James McAvoy, foi-lhe garantida a presença no terceiro filme da saga de Shyamalan, “Glass”. “De repente acordei e estava na mesa ao lado de Bruce Willis, Sarah Paulson, James McAvoy e Samuel L. Jackson. Disse para mim, ‘Meu Deus, o que é que eu estou a fazer nesta mesa?'”, conta.

Eggers também parece não se fartar dos talentos da atriz. Estão novamente juntos a gravar “The Northman”, um filme sobre vikings no século X — onde vai contracenar com Willem Dafoe, Nicole Kidman, Alexander Skarsgard e Björk — e Taylor-Joy é já presença garantida no remake que o realizador pretende fazer de “Nosferatu”.

Do cinema para a televisão, não contente com a lista infindável de talentos de que se rodeou, tornou-se numa das caras novas da quinta temporada de uma das séries mais entusiasmantes dos últimos anos. Em 2019, saltou para o mundo sombrio de “Peaky Blinders” no papel da namorada americana de Michael Gray. E um ano depois, o seu grande papel de protagonista numa minissérie da Netflix.

Acabada de estrear a 23 de outubro, em “The Queen’s Gambit”, ela é Beth Harmon, uma jovem orfã com um talento prodigioso para o xadrez. Em sete episódios, Taylor-Joy retrata o crescimento da personagem, à medida que vai subindo nos rankings e se vai debatendo com o abuso de álcool e de drogas.

Dias antes da estreia da minissérie na Netflix, recebeu outra notícia fantástica — e mais um nome para colocar no currículo. Foi a escolhida para assumir o papel de Furiosa na prequela de “Mad Max: Fury Road”, realizado e escrito por George Miller. Ele, que não quis recorrer a efeitos visuais para tornar Charlize Theron mais jovem — foi ela quem representou brilhantemente a personagem no filme premiado —, preferiu escolher uma nova atriz.

Sobre a herança pesada, Taylor-Joy explica que se apaixonou pela personagem graças ao trabalho de Theron. “Ela fez um trabalho incrível. Nem consigo pensar em tentar colocar-me no lugar dela. Vai ter que ser algo de muito diferente, porque é impossível fazer igual”, comentou.

Embora seja relutante em admiti-lo, o currículo fala por si. Anya Taylor-Joy é uma das atrizes com a carreira mais explosiva do momento, mesmo que tenha algumas dúvidas sobre o seu talento natural para a coisa.

“Quanto mais o faço, mais penso: ‘Ah, tenho um conjunto muito específico de aptidões que seriam completamente inúteis noutro sítio qualquer. Se não fosse uma artista, não sei onde é que poderia utilizar esta memória de curto prazo, ou a capacidade de fazer intrincadas e longas sequências de xadrez. Não sei onde é que saber fazer isso me levaria ou sequer me ajudaria neste mundo. Por isso, sim, sinto-me grata por ter a oportunidade de fazer o que faço.”

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