Quando Joaquim Silva pegou nas malas e seguiu para o aeroporto, o plano estava traçado. Ia gozar umas merecidas férias e regressar, semanas depois, à rotina como cortador de carnes numa grande superfície. Porém, aquele “até já” foi o prenúncio de um adeus definitivo. Dias antes, durante um almoço banal com a filha, um anúncio para encontrar os concorrentes da edição seguinte do “MasterChef Portugal”, na RTP1, despertou-lhe um desejo adormecido.
Decidiu candidatar-se por impulso, e foi no destino de férias que preencheu o formulário digital que selou o seu destino. Joaquim não sabia, mas ao embarcar naquele voo, estava já a descolar de uma vida inteira de estabilidade para aterrar num território onde a única garantia era o seu talento.
“Pensei: olha, nem é tarde, nem é cedo. Vai ser agora”, recorda Joaquim, com a energia de quem ainda sente o pico de adrenalina desse instante. Aquilo não era apenas uma inscrição; era um bilhete para outra viagem, uma que estava a planear, em segredo e entre tachos, há quase duas décadas.
A história do portuense de 49 anos com a cozinha não se baseia numa tradição familiar passada de geração em geração, nem num curso de hotelaria. Nasceu da solidão e de um erro de principiante que hoje recorda entre gargalhadas. Aos 28 anos, a viver em Inglaterra, Joaquim viu-se numa situação doméstica de emergência. A sua mulher na altura teve de regressar a Portugal para uma cirurgia urgente e Joaquim ficou “ao comando” da casa e do irmão mais novo, então com 16 anos.
“O miúdo vira-se para mim e pergunta: ‘O que é que vamos comer?’. E eu respondi: ‘Pois, é uma boa pergunta, não faço a mínima ideia’”. A solução foi um telefonema para a mulher em recuperação: “Dá-me aí umas dicas para fazer uma coisa simples, uma massa, ou assim”. O resultado foi o que Joaquim descreve como um “paredão de massa que quase chegava ao teto”. “Estivemos uns quatro dias a comer massa”, confessa, divertido. O erro técnico, contudo, serviu como combustível. Joaquim não se conformou com a mediocridade do desenrasque. Começou a ver vídeos, a estudar técnicas no YouTube e a perceber que a cozinha era o seu “lugar feliz”.
Se é certo que muitos concorrentes de reality shows sublinham que a participação requer algum grau de sacrifício, Joaquim Silva personificou-o. Quando foi chamado para as provas do “MasterChef”, enfrentou um dilema que separa os sonhadores sem convicção dos que têm o destino traçado. Quando foi selecionado, trabalhava como cortador de carnes verdes numa grande superfície e a empresa recusou-lhe uma licença sem vencimento para participar no programa. A solução de Joaquim foi um ato de rebeldia serena.
“Pensei: ou ficas onde estás, ou segues com o teu sonho. Nem olhei para trás. Muito honestamente, não pensei duas vezes: desempreguei-me.” Esta decisão revela a perseverança de Joaquim, que “não concorreu ao ‘MasterChef’ para ser mais um”; entrou no programa com a convicção absoluta de quem já tinha pago o preço da entrada antes mesmo de vestir o avental.
Quando decidiu candidatar-se, “não o fez para testar as águas, mas para mergulhar fundo”. O primeiro desafio implicava preparar um prato frio, uma prova onde a maioria optaria pela segurança. Joaquim arriscou num ceviche peruano de robalo com leche de tigre.
“Disseram-me que era uma coisa que não costumava dar bom resultado no ‘MasterChef’. Não é um prato fácil, mas foi isso que decidi fazer”, recorda. A aposta no equilíbrio entre a acidez e a frescura do peixe abriu-lhe as portas para a fase seguinte: a prova de cozinha.
Ali, o desafio subiu de tom. Com apenas 35 minutos no relógio, Joaquim decidiu apresentar uma fusão técnica complexa: risotto de cogumelos com saltimbocca. Inspirado na chef Paola Carosella [jurada do “MasterChef Brasil”], preparou “uns escalopes de vitela finíssimos com sálvia e presunto fumado, passados por farinha e fritos rapidamente em manteiga e azeite”.
A sua segunda escolha foi recebida como a primeira, com um misto de desconfiança e assombro pela ousadia. “Se é para entrar com um pratinho de nada, não vale a pena. Decidi que se fosse, era para entrar em grande!”, afirma, com orgulho. Hoje, olha para trás com espanto: “Fico admirado e penso: caramba, como é que eu fiz aquilo em 35 minutos?”. Foi este prato, técnico e cheio de camadas, que carimbou o passaporte para o “MasterChef”.
Dentro da cozinha mais famosa do País, Joaquim têm-se destacado pela precisão técnica, reflexo óbvio dos anos a manejar as facas e os cutelos, mas também por uma sensibilidade emocional que desarmou os jurados. Cada prato que prepara é uma conversa com quem já não está, com o pai desaparecido há cerca de um ano.
“Prometi-lhe que ia cozinhar no ‘MasterChef’, por isso, a minha participação é uma espécie de homenagem.” Mas não foi a única missão que trouxe consigo: Joaquim também recriou a “farinha de pau de bacalhau” que a mãe lhe fazia na infância. “Um prato humilde”, que lhe prometeu que iria tentar reproduzir sob as luzes da ribalta.
Seja qual for a receita, a abordagem de Joaquim não muda. “A minha preocupação é sempre a mesma: todos os ingredientes que ponho no prato têm de ter sabor”, afirma. Esta filosofia de “respeito pelo produto” é o que o liga aos seus ídolos na cozinha, especialmente a um dos jurados, Rui Paula. Joaquim admira a forma como o chef do Douro prova a comida, — “o palato dele é completamente diferente”, garante — e tenta replicar essa busca pela essência.

A experiência de Joaquim com as carnes é, sem dúvida, a sua maior vantagem competitiva. Um corte menos nobre ou mais difícil de trabalhar não o inquietam, pelo contrário. “Para mim, ter de preparar carne no ‘MasterChef’ é como meter um miúdo dentro de uma piscina de bolas. É muito divertido, porque sei exatamente o que fazer, se é uma carne boa para assar, cozer ou estufar”, explica.
Outro desafio que muitos consideraram intimidante foi a prova com o chef Henrique Sá Pessoa. O prato exigido, arroz de tamboril e lagareiro, era uma armadilha de pontos de cozedura e equilíbrio de sabores. Enquanto o pânico se instalava na cozinha, Joaquim manteve a calma.
“Para muitos foi a prova mais difícil, mas, para mim, foi a mais confortável”, confessa Joaquim. Foi o momento em que provou a si mesmo e aos jurados a sua capacidade técnica. “Sinto-me orgulhoso de mim mesmo. Sei que fiz uma boa prestação.”
Contudo, a sua preferência são os pratos italianos. Nascido na Venezuela, Joaquim guarda no ADN o gosto pela carne mechada [carne de vaca desfiada, cozinhada lentamente num molho denso de tomate, com cebola, pimentos e especiarias] e pelas arepas [uma espécie de pães redondos e achatados, feitos com farinha de milho pré-cozida, semelhantes a panquecas], mas é a tradição culinária de Itália que o fascina.
Enquanto o público acompanha o seu percurso no ecrã, e com a tranquilidade de quem saltou sobre o abismo do desemprego, Joaquim mantém os pés na terra. Com os olhos na meta, continua a sonhar.
“A minha vida é composta por sonhos, mas sonho com aquilo que sou capaz de conseguir. Não vou sonhar com um Ferrari porque não o vou ter, nem é isso que quero”, salienta. No futuro, quer investir em formação especializada e aprender a dominar a arte das massas frescas e dos risottos. E acalenta o desejo de abrir um espaço em nome próprio, onde a transparência seja total.
“O meu sonho é que o cliente entre no meu restaurante e veja o que está a ser feito na cozinha. Que diga: ‘epá, vou comer aquilo que estão ali a fazer, aquilo é fresco’.” É esta honestidade brutal, a mesma que o levou a despedir-se do emprego seguro, que quer servir aos futuros clientes.
“Sei o que quero, mas não tenho pressa de chegar lá. Quando chegar lá, quero chegar bem”, sublinha. Como uma boa carbonara, explica Joaquim, “a vida não precisa de natas ou artifícios desnecessários”. “Só precisa de técnica, bons ingredientes e o tempo certo de cozedura”, remata.
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