Televisão

Archie Bunker, o racista mais hilariante da televisão faz 50 anos

Foi a razão do sucesso de “Uma Família às Direitas”, inspirou dezenas de personagens e lançou vários debates na sociedade americana.
Foi uma das sitcoms mais bem-sucedidas de sempre

Com a família reunida à mesa de jantar, o velho Bunker sabia que lhe estavam a tentar esconder alguma coisa. Finalmente percebeu que o convidado da filha que se sentara à sua mesa na noite de jantar era um “desertor”. “Não, Sr. Bunker, simplesmente fugi ao sorteio militar.”

As conversas continuam, as gargalhadas gravadas também, mas os olhos de Archie Bunker não mentem. Só descansa quando interrompe o jantar para confrontar o homem que ousava desafiar “a terra dos homens livres”.

A discussão entre um conservador e um jovem anti-guerra aqueceu a noite em milhões de lares americanos. O ano era 1976, o conflito no Vietname estava ainda demasiado recente nas memórias dos americanos, mas nem isso impediu os criadores de “Uma Família às Direitas” de trazer o tema polémico para as mesas de milhões de espectadores.

Exatamente 50 anos depois da estreia a 12 de janeiro de 1971, os temas e sobretudo a personagem principal são mais relevantes do que nunca. A sitcom que foi transmitida durante nove anos tornou-se num caso de sucesso, ainda que polémica e por vezes incompreendida.

Inspirada na série britânica “Till Death Do Us Part”, Normal Lear criou a sua própria versão do lar americano de classe média, encabeçado pelo pai de família conservador. Foi desse estereótipo — e das memórias do seu próprio pai — que Lear desenhou o icónico Archie Bunker, a personagem que viria a inspirar o igualmente célebre Eric Cartman de “South Park”.

Sentado na sua poltrona desgastada, era daquele seu trono que distribuía piropos pela mulher, a sempre distraída Edith, a filha Gloria e o seu marido Michael Stivic, carinhosamente apelidado de “idiota”.

“Uma Família às Direitas” não ganhou fama à custa de um par de piadas. O humor estava sempre presente, mas era entrelaçado com temas quentes da política e da sociedade norte-americana. Mas não só.

Ninguém escapava à língua afiada de Bunker

A série quebrou a tradição e marcou uma revolução televisiva, na qual a classe operária roubou o lugar de protagonista aos intelectuais e licenciados. Ainda assim, entre 1946 e 1990, só 11 por cento das sitcoms apostaram em trabalhadores de classe baixa para chefes de família.

Durante cinco anos, a série manteve-se no topo dos topos dos rankings televisivos. Estima-se que no ano anterior à emissão do último episódio, cerca de um quinto dos espectadores estivessem sintonizados na série. A culpa? Era certamente de um tipo adoravelmente intolerante chamado Archie.

Archie quem?

Conservador, católico, patriótico. Archie Bunker era a figura com que a maioria dos baby boomers se identificavam — e que muito explica o sucesso da sitcom. Mas Norman Lear optou por atacar de forma subtil os padrões e preconceitos estabelecidos. De tal forma subtil que Bunker criou um fenómeno raro: era adorado por progressistas que conseguiam ver a ironia escondida nas suas falas; e venerado por quem era incapaz de passar para lá da superfície.

Odiava hippies, olhava de soslaio para negros e judeus, feministas e homossexuais. A lista é longa. Retratado como um intolerante e resquício dos idos anos 50, era usado para servir de ponto de referência às mudanças radicais que surgiam na sociedade dos anos 60 e 70.

Trabalhador nas docas e taxista em part-time, Bunker vê-se num certo dia obrigado a fazer respiração boca a boca a uma cliente que se sente mal. Orgulhoso do feito, acabou por perceber que acabara de salvar a vida a um travesti. Afinal, a mulher era um homem e o trauma levou Bunker ao limite. A questão mais importante, bem para lá do humor fácil, foi colocada por Mike: teria Bunker feito o mesmo se soubesse a verdadeira identidade do cliente?

A personagem travesti, Beverly LaSalle, acabou por ser usada por Lear mais tarde. Seria assassinada num crime de ódio, um trauma que acabaria por motivar Edith a perder a fé em Deus.

Archie Bunker e Beverly LaSalle

Não era invulgar que a rigidez de Bunker acabasse por ceder. Nessa discussão na ceia de Natal, os ânimos exaltaram-se e, perante alguém que fugiu ao seu dever de lutar pelo exército do seu país, perdeu a paciência.

“Pensam que todas as pessoas deste país podem dizer se querem ou não ir para a guerra? Diriam todos que não”, explicou. A indignação servia apenas para preparar a estocada final, neste caso dada por outro amigo de Archie, que perdeu o filho na guerra.

“Percebo o que sentes, Arch. Mas o meu filho também odiava a guerra. Fez o que tinha a fazer e o David aqui fez o que achava que devia ter feito. E o David está aqui vivo para partilhar o jantar connosco. E se o Steve aqui estivesse, quereria sentar-se ao lado dele”, atirou.

O objetivo era este: desarmar as velhas figurar conservadoras e retrógradas. Archie Bunker era o racista útil — e acabava sempre por ceder às evidências. Evidências que nem sempre eram evidentes para todos.

Um ponto estava bem assente: apesar da personalidade intratável, Archie não era maldoso. Era, quando muito, ignorante, medroso, assustado com o que a revolução cultural significava. Isso não impediu que milhares de americanos olhassem para ele como um ícone — a personagem que, a certo episódio, se alistou por engano no Ku Klux Klan.

Tal como hoje, Bunker era visto como uma espécie de voz contra o politicamente correto. “O dilema de Archie é forma como deve lidar com um mundo que está a mudar perante os seus olhos. Ele não sabe o que fazer a não ser perder a paciência, vociferar, olhar para outros culpados para o seu próprio desconforto. Ele não é um homem malvado. É astuto, mas não consegue perceber que a raiz do seu problema é ele próprio”, explicou Carroll O’Connor, o ator que o interpretou e que morreu em 2001 aos 76 anos.

Desde a ascensão de Trump que a figura de Bunker renasceu através de citações, imagens e memes partilhados na Internet — símbolo usado pela nova franja radical conservadora que, também eles, não conseguiram ir para lá da ironia de Lear.

Questionado sobre o tema, Lear é objetivo. Haveria espaço no mundo moderno para uma personagem como Archie Bunker? “Enfrentámos essa questão num episódio. Num domingo, ele abre sai de casa e vê uma suástica pintada na porta. O objetivo do episódio era o de estabelecer que o Archie nunca embarcaria em algo que o tornasse numa figura odiosa, nem tão pouco se juntaria a um grupo de pessoas que propagam o ódio.”

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