Chama-se “Monstro: A História de Lizzie Borden”, estreou a 17 de setembro na Netflix e surge atualmente no primeiro lugar das séries mais vistas da plataforma. A quarta temporada da antologia de Ryan Murphy (depois de Jeffrey Dahmer, dos irmãos Menendez e de Ed Gein) aborda a história de uma jovem é acusada de matar o pai e a madrasta à machadada, em 1892.
No entanto, por cá, o que chamou imediatamente a atenção não foram os pormenores macabros do caso, mas sim as referências a Portugal. No segundo e terceiro episódios (de um total de oito), os portugueses são mencionados duas vezes, ambas em acusações xenófobas. Uma personagem culpa-os por uma vaga de gripe; outra despede Tiago, um pintor português, depois de lhe desaparecerem uns brincos. Nenhuma apresenta provas.
No segundo episódio, “Bichaninha Forte”, Abby Borden, mãe de Lizzie, anuncia à família que precisa de contratar outro pintor. Despediu Tiago, um português que trabalhava na casa, porque acredita que ele lhe roubou os brincos. Quando lhe perguntam o que faria com as jóias, responde que as venderia para comprar ópio. A suspeita vem acompanhada de uma forma depreciativa de se referir ao trabalhador.
A segunda menção chega em “Machadada!”, o episódio seguinte. Bertha Manchester fala de uma vaga de gripe, conta que a sua criada está doente e afirma: “Foram os portugueses que a trouxeram para cá.” É uma fala da personagem, que atribui a doença a uma comunidade inteira sem qualquer fundamento apresentado na história.
Porque havia portugueses em Fall River?
A série recua a 1892, em Fall River, uma cidade industrial do estado norte-americano do Massachusetts. Na segunda metade do século XIX, as suas fábricas têxteis atraíram trabalhadores imigrantes, entre eles portugueses. A comunidade tinha, por isso, presença na cidade onde a família Borden vivia. Relatos de época sobre os portugueses nas fábricas de Fall River descrevem também a divisão social e étnica que marcava o trabalho naquele período.
É nesse cenário que decorre a história de Lizzie. Ella Beatty interpreta a jovem, que vive com o pai, Andrew (Charlie Hunnam), e a madrasta, Abby (Rebecca Hall). A chegada de uma nova empregada, Maggie (Vicky Krieps), aproxima as duas mulheres e agrava os conflitos dentro de casa. Lizzie é descrita como estando “presa numa família cruel da era vitoriana”, revela a sinopse.
A produção inspira-se nos homicídios do casal Andrew e Abby Borden, mortos em agosto de 1892. Lizzie, filha de Andrew e enteada de Abby, foi julgada pelos crimes e absolvida em 1898. Contudo, ninguém mais foi condenado pelas duas mortes. A série imagina uma resposta para o mistério e altera outros acontecimentos, como a história de Bertha Manchester, uma vizinha da família Borden que visita a casa de Abby com regularidade.
Bertha existiu, mas foi assassinada depois dos Borden, pouco antes do julgamento de Lizzie. Um imigrante português, José Correa de Mello, foi condenado por esse crime. A ligação portuguesa ao caso, portanto, vai além das duas falas dos primeiros episódios, embora a cronologia apresentada no ecrã seja ficção.
Leia também o artigo da NiT sobre o crime que inspirou a série e as principais diferenças entre a história real e a versão da Netflix.
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