Televisão

Bárbara Branco: “As cenas íntimas assustavam-me muito”

A NiT falou com a atriz. Participa na nova versão de “O Crime do Padre Amaro”, protagoniza a nova novela da SIC e está no teatro.
Foto de Pedro Pina/RTP.

Bárbara Branco acaba de celebrar 23 anos — fê-los a 28 de outubro. Apesar de ser bastante jovem, a atriz portuguesa já conta com um currículo impressionante e está neste momento em topo de forma. Por exemplo, está no teatro com “Do Deslumbramento”, uma peça encenada por Miguel Seabra construída a pensar em si.

O espetáculo está em cena no Teatro Meridional, em Lisboa, desde 26 de outubro. Pode assistir à peça até 3 de dezembro na capital portuguesa. Depois, vai ser apresentada em Castelo Branco (7 de janeiro), Covilhã (18 de janeiro), Évora (28 e 29 de janeiro), Póvoa de Varzim (4 de fevereiro), Ourém (11 de fevereiro) ou Pombal (4 de março). Saiba mais informações no site da companhia.

Este ano, Bárbara Branco esteve a gravar com o namorado, o ator José Condessa, a nova adaptação de “O Crime do Padre Amaro”, obra icónica de Eça de Queirós. Trata-se de uma série da RTP que deverá estrear na televisão em 2023. Além disso, a atriz participa na nova série da Opto, “Santiago”, e será a protagonista da nova novela da SIC.

A NiT falou com Bárbara Branco sobre vários destes projetos que a têm consolidado como uma das atrizes do momento. Leia a entrevista.

O que é que a atraiu quando esta peça lhe foi apresentada?
Esta peça do Miguel Seabra é muito autobiográfica. Há cerca de dois anos foi ver-me ao “Bruscamente do Verão Passado”, e pelo que ele relata, e foi assim que me fez o convite, sentiu uma coisa que não é muito comum. Já sentiu algumas vezes na vida, como é óbvio, mas foi uma sensação de deslumbramento no teatro. Quando o corpo parece que transborda de emoção e de plenitude. Quando vemos algo que realmente mexe connosco. Foi todo entusiasmado falar com a Marta Carreiras, que foi também uma das pioneiras desta peça, que incentivou o Miguel a pôr isto em cena. E recebo uma mensagem do Miguel a perguntar se me pode ligar com um convite. Achei fenomenal porque sou uma grande admiradora do trabalho do Miguel há muito tempo e, portanto, queria muito trabalhar com ele — fosse em cena ou com o Miguel a encenar. Portanto estava muito expectante em relação ao convite, “o que será?” O Miguel liga-me a dizer-me que é precisamente uma peça de um homem que vai ao teatro e que se deixa deslumbrar com uma atriz, com uma peça, com uma personagem. Para mim foi um bocadinho estranho. Porque, no fundo, é uma peça também sobre mim, sobre a minha história.

É muito meta.
Mas aceitei logo, porque tinha muita curiosidade em trabalhar com o Miguel e este era o pretexto certo. Ele é a pessoa envolvida, e eu a atriz envolvida na história. Achei muito curioso, aceitei logo, ele disse-me que seria escrito pela Ana Lázaro. Passado algum tempo, o Miguel convida-me para integrar uma das conversas que teve com a Ana e foi assim que se iniciou este processo. Foi uma coisa muito natural, um convite muito caloroso. Aceitei com prontidão e fiquei muito feliz. E mais feliz fiquei ainda quando soube que era o Nuno Nunes que ia integrar o elenco e formar este triângulo perfeito.

Qual foi o grande desafio? Suponho que tenha sido encontrar a sua personagem tendo em conta o conceito da peça.
Mais do que encontrar a personagem, foi encontrar os diferentes lugares que ocupo. Porque a Bárbara que aparece na peça não é a Bárbara atriz e pessoa que sou. Ou seja, mesmo a Bárbara da peça é uma personagem. E interpreto também a Catherine Holly e invocamos muitas vezes a personagem do “Bruscamente no Verão Passado” e portanto acho que é em cada momento tentar pensar em que lugar estou. Quem sou neste momento? Sou a Catherine? A Bárbara da peça? É um comentário da Bárbara enquanto atriz sobre o que está a assistir? Foi encontrar os meus diferentes locais neste universo. 

E suponho que criar a tal versão personagem da Bárbara também tenha sido muito diferente em relação à maior parte dos trabalhos que um ator faz ao longo do seu percurso.
Sim, nesta peça temos uma especificidade com a qual gostei muito de trabalhar, porque enquanto atriz é uma das coisas que me alimenta e é nesta zona que gosto de trabalhar: a verdade do momento. Somos três atores que estamos em cena a contar uma história. E viver essa verdade do momento foi outro dos desafios que tive de encontrar. Além disso que estás a dizer — a Bárbara que está escrita não é a Bárbara da realidade. É uma Bárbara escrita pela Ana Lázaro. Portanto, de que forma é que me adapto a essa outra Bárbara do texto? É muito confusa, acho que esta peça é muito difícil de definir e de explicar por palavras. Na estreia tivemos uma perceção muito clara na forma como esta peça mexe com as pessoas de forma diferente. Não estamos a falar do concreto, estamos a falar de ideias, de sentimentos. 

O que é que sentiram?
Senti que, das duas uma, ou as pessoas de facto gostam e se conectam com esta peça; ou não se ligam e perdem o fio à meada. Porque a própria construção do texto é muito confusa, muito repetitiva. Estamos a falar de memórias, da perspetiva do Miguel, é quase como se abríssemos a mente dele e a mente humana é uma coisa confusa. Muitas vezes não é lógica. Então é muito fácil perdermo-nos na construção da peça. Acho que a reação das pessoas é um bocadinho díspar. Ou se ligam e realmente mergulham connosco, ou não se conseguem conectar tão bem.

Quando a Bárbara leu a peça, conseguiu envolver-se imediatamente?
Quando li um primeiro trecho, foi na tal reunião que tive com o Miguel e a Ana Lázaro. O que acho mais fascinante na escrita da Ana, além de ser muito poética e sensível, foi a forma quase clínica como ela pegou nos textos do “Bruscamente no Verão Passado” e fez paralelismos com a vida do Miguel, com a história do Miguel, com a nossa existência enquanto atores, a existência dos atores no teatro. Fez aquilo de tal forma que está um texto belo e poético. Lá está, é uma escrita muito confusa precisamente por estarmos a mergulhar na memória e mente de alguém. Mas a Ana fez um trabalho brutal.

Também queria aproveitar para falar de outros projetos da Bárbara, em televisão. Suponho que o equilíbrio entre o palco do teatro e o ecrã também seja algo que procure.
Claro que sim, se não também não aceitaria os diferentes meios onde tenho oportunidade de trabalhar. Mas para mim enquanto atriz também é muito rico porque o meu método de trabalho é obrigatoriamente diferente. Enquanto atriz tenho que mudar o meu método tendo em conta o sítio onde estou a trabalhar. O método para fazer novela é um, para teatro é outro, para cinema é ainda outro. É muito rico ter estas experiências todas porque me obriga a ter estaleca no meio profissional.

E tem alguma vertente favorita? Ou é no meio, no equilíbrio, que está a virtude?
É no equilíbrio que está a virtude, concordamos. No entanto, uma das coisas que nunca quero deixar de fazer é teatro. Sinto que é a minha base, onde me renovo enquanto atriz, onde tenho oportunidade de reciclar as personagens, de voltar a uma neutralidade e de ser uma tela em branco. É no teatro que tenho mais oportunidade para concretizar isso. Mas se puder continuar a fazer um bocadinho de tudo, fá-lo-ei. 

Sobre “O Crime do Padre Amaro”, quando surgiu a oportunidade de protagonizar esta série, a nova adaptação do livro de Eça de Queirós, qual foi a sua impressão? Já conhecia a história do livro, ou através dos filmes que tinham sido feitos?
Não tinha visto o filme nem lido o livro. Tinha uma ideia do que se passava na obra. O Zé já estava escolhido para ser o Amaro. Por isso, quando recebi o convite para fazer de Amélia assustou-me um bocadinho. Principalmente por causa da exposição que a obra exige… As cenas mais íntimas eram algo que me assustava muito e que ainda hoje me assustam e acho que nunca me vão deixar de assustar. Foi logo o primeiro embate que tive. Estou disposta a? Identifico-me com isto? Até que ponto quero contar esta história, interpretar esta personagem e fazer este tipo de cenas? É algo que pesa. E depois pensei na questão de fazer isto com o Zé. Por seu meu namorado, obviamente que é outra coisa que pesa na decisão. Mas chegámos à conclusão, em conjunto e em conversa com a nossa agente, de que era uma muito boa oportunidade para ambos de trabalhar com o Leonel Vieira. Também de contar uma história de época, porque as outras adaptações não são do tempo da obra. Eu e o Zé nunca fizemos uma série juntos, e de repente era outro meio em que íamos trabalhar juntos, também com outro cuidado a filmar. Foi um “sim” convicto e com a confiança de que o Leonel Vieira iria tratar muito bem esta obra — e de facto tratou. O processo foi extraordinário. Trabalhar em época foi um processo muito giro, não só a nível de figurinos como todo o trabalho de pesquisa. A equipa de arte fez um trabalho extraordinário. O próprio Leonel cuidou muito bem de nós, teve todo o cuidado e sensibilidade para trabalhar todas as cenas que fizemos juntos.

Até agora tinham sido feitos filmes sobre esta história, mas com uma série é possível aprofundar mais a narrativa. Sentem que é uma versão até mais fiel do livro, tendo em conta não só a questão da época mas também porque conseguiram explorar mais a obra?
Depois da leitura da obra, e não cheguei a ver o filme português mas vi o mexicano, e tendo em conta que o filme português se passava na atualidade, acho que a nossa é muito fiel à obra porque assumimos a época. A forma de o Leonel realizar é mais clássica por ser época, mas a ação é muito rápida. Isso trouxe outros desafios à rodagem. A história desenvolve-se de forma muito rápida, com muito ritmo, que é uma coisa a que não estamos propriamente habituados a ver, principalmente em época, que costuma ser tudo muito calmo, contado com bastante tempo. Isso trouxe outros desafios a nível de trabalho prático, tivemos de gravar mais cenas por episódio e isso cria outro tipo de pressão na logística da rodagem. Eu e o Zé já vimos o primeiro episódio e está muito cativante. Só temos a ganhar com o facto de a série estar ágil e rápida. Não há tempos mortos, não há tempo para o espectador se encostar e ficar numa zona confortável, há sempre coisas a acontecer — e isso enriquece a obra.

Estava a falar do facto de não ter visto o filme português de “O Crime do Padre Amaro”. Foi intencional, para não haver qualquer tipo de colagem?
Trabalhar em Portugal hoje em dia é trabalhar muito em cima do acontecimento, então tudo o que faço com as minhas personagens tem de ser ágil, prático e muitas das vezes temos que condensar, no tempo que temos para preparar, os materiais que mais jeito nos dão para aquilo que estamos a construir. E o que achámos foi que o filme de 2005 era já tão afastado da realidade que estávamos a construir… Por isso, pessoalmente, não me iria servir na fase em que estávamos e com o pouco tempo que tínhamos para preparar isto. O que fiz foi obviamente ler a obra e acho que foi o melhor que fiz. De repente abriu-se um universo brutal, porque às vezes o cinema também condiciona, com as interpretações dos atores. Lendo a obra tens uma tela em branco. Existe uma descrição das personagens, mas o resto do filme fazes sozinho. Tanto eu como o Zé optámos por ler a obra.

Tendo em conta que obviamente é cúmplice e íntima do José, sente que também foi útil trabalharem juntos para prepararem as personagens? Apesar de haver o lado mais sensível da exposição.
Sim, ou seja, é um bocadinho agridoce. Somos muito bons a trabalhar juntos, já o fizemos várias vezes em teatro e novela. Formamos uma boa equipa, mas aqui tínhamos cenas sensíveis de exposição física. E por muita química e à vontade que tenhamos um com o outro, de repente com uma equipa à frente tudo muda. Estamos a ser vistos, há câmaras apontadas para nós, e mesmo que não estivesse a fazer com o Zé, havia um constrangimento, porque no limite estou nua em cena. O fator Zé complicou, no sentido em que, quem vê de fora muitas vezes não consegue desassociar o facto de sermos a Bárbara e o Zé. São duas personagens que estão ali, a forma como a Amélia e o Amaro dão um beijo na boca é diferente da forma como a Bárbara e o Zé dão um beijo na boca [risos], portanto tens duas personagens a fazer aquela cena íntima. Acho que às vezes existe muito essa confusão. São as nossas caras que ali estão e somos namorados, então há essa desvalorização do nosso trabalho: “ah, para vocês foi fácil porque são namorados”. Não é fácil. Antes pelo contrário. É uma exposição muito grande. 

Mas também haverá vantagens.
Facilita o processo de chegar até à cena. Porque já nos conhecemos melhor do que ninguém. No contacto físico há uma desinibição que com outros atores não teria, e o que quiser experimentar enquanto Amélia tenho muito mais à vontade. E quando estávamos a filmar e a ensaiar fomos muito com sentido de humor. Eu e o Zé somos muito palhaços a trabalhar um com o outro e rimo-nos muito, às vezes parecemos duas crianças. Fomos um bocadinho por aí, por essa brincadeira e sentido de humor, que às vezes desconcerta a equipa, de repente estão eles mais tensos do que nós [risos]. Foram cenas muito divertidas de filmar, tivemos muito respeito por parte da equipa, o Leonel deu-nos carta branca e muitas vezes éramos nós que sugeríamos. Foi bom descobrir esta zona de trabalho e muitas vezes matar alguns fantasmas, porque assustava-me mesmo muito esse tipo de cenas. Sentir que tínhamos uma equipa mesmo interessada em contar esta história deixou-me tranquila e confortável. O balanço é muito positivo.

E agora suponho que estejam expectantes para que a estreia aconteça.
Estou muito nervosa [risos]. Já vi o primeiro episódio mas nenhuma dessas cenas mais íntimas. No início até disse ao Zé: “Não me importo de não ver nada, mas gostava de ver as cenas íntimas para ver como é que ficaram, o resultado final”. Estou muito curiosa para ver o resto, acho que só estreia para o ano.

Também para o ano está confirmada como protagonista da próxima novela da SIC. O que já pode adiantar sobre o papel que vai fazer?
Para já estou muito ansiosa… Já tive uma conversa com a direção de atores, com o produtor, já comecei a entrar no universo desta novela. Ainda não tinha lido nada e já estava muito curiosa, porque a descrição que me deram foi extraordinária, é uma miúda muito ativa, muito forte, muito valente. Não é de ficar sentada de braços cruzados a chorar. É uma miúda pró-ativa. E isso, enquanto protagonista de novela, é muito aliciante. Porque muitas das vezes sinto que as personagens de novela, principalmente protagonistas, são muito sofredoras. Passam muitos episódios a chorar [risos] e a lamentarem-se. Aqui foge dessa personagem convencional. E isso só me dá mais pica, sabendo que vou estar muito mais cansada por causa disso. Vai ser uma personagem muito ativa e isso implica ir a muitos décores, estar sempre muito pró-ativa porque não é uma personagem passiva… Tenho a certeza absoluta de que me vai dar muito trabalho, mas estou muito contente e expectante, até porque temos um elenco brutal, com atores com quem já queria trabalhar há algum tempo. Vai ser uma boa novela. Estou com fé nisso e com essa motivação, é com essa energia que estou a ir.

Quando começam as gravações?
Em meados de novembro. O processo de preparação vai ser muito rápido, muito ágil, mas é o que é, novelas é sempre atribulado e estou pronta, motivada e com muita energia para isso. Já só quero é começar. 

Estava a comentar o facto de ser uma protagonista muito ativa, mas qualquer papel de protagonista é um trabalho árduo pela quantidade de horas de gravações, são sempre papéis muito exigentes. Porém, como estava a dizer, sente então que está na fase certa para embarcar num papel grande destes.
Na última novela que fiz, no “Bem me Quer”, fui antagonista — ou seja, profissionalmente já foi um grande passo. E o passo seguinte, naturalmente, seria fazer a protagonista de uma novela. Sei lá, estou com 22 anos, faço amanhã 23 [celebrou-os na sexta-feira, 28 de outubro], e se há fase e altura da vida em que tenho disponibilidade e energia para abraçar uma primeira protagonista é agora. Ainda por cima estava com teatro e achei que era uma boa forma de completar os próximos meses que vou ter de trabalho. Acho que apareceu na altura certa.

Como estava a relembrar, é ainda bastante jovem, mas tem feito muitas coisas, produções importantes e diversas. Suponho que se sinta bastante realizada enquanto atriz.
Acima de tudo, a sorte dá muito trabalho, mas sinto que tenho tido muita sorte, principalmente nas pessoas que tive à minha volta e que ao longo do tempo me foram dando a mão. Infelizmente é muito difícil para os jovens, e sobretudo no meio artístico com que tenho mais contacto, começar carreiras e uma vida profissional. Nesta ótica também me sinto muito privilegiada por ter tido boas oportunidades. Obviamente que também sei que é mérito próprio saber agarrá-las, mas este país está mesmo difícil para os jovens e eu ter tido essas oportunidades todas também é sorte. É um privilégio. Tenho noção da responsabilidade que tenho, mas também tenho noção de que são oportunidades que tenho de agarrar com força.

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