Televisão

“Barcos com Amor” devia chamar-se “Barcos com pessoas que não sabem onde gastar o dinheiro”

O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o reality show da SIC Caras.
O forrobodó está garantido.

“Barcos com Amor”, que é transmitido na SIC Caras, é daqueles reality shows que se pode assistir sem sentimento de culpa. É trash tv mas ao mesmo tempo não é, já que toda a acção se passa numa embarcação de luxo em que só uma garrafa de champagne custa mais que toda a mobília da casa do Big Brother.

“Below Deck” (abaixo do convés) é o título original, que acaba por fazer mais jus ao propósito do programa: acompanhar o dia a dia de trabalho de uma tripulação a bordo de um iate de sonho. Claro que quando se junta um grupo de jovens adultos num espaço fechado durante algum tempo, normalmente acaba sempre por haver uns quantos que se envolvem.

Se os fecharmos em cubículos de dois por dois no porão de um barco, aí então é garantido que vai haver forrobodó. Por isso Barcos com Amor acaba por não ser um nome totalmente descabido, embora se fosse eu, tinha antes optado por chamar ao programa “Barcos com pessoas que não sabem onde gastar o seu dinheiro, por isso alugaram um Iate para ir com os amigos e/ou amantes para um destino paradisíaco, enquanto comem e bebem como se não houvesse amanhã e ainda aproveitam para lavar algum dinheiro”.

Para aqueles que, como eu, o mais perto que estiveram de viajar num iate é terem feito a travessia no Ferry que liga Setúbal a Tróia, este programa acaba por ser como um daqueles documentários da BBC Vida Selvagem, porque nos dá a conhecer como os podres de ricos vivem nos seu habitat natural. Antes de iniciar o fretamento, o capitão reúne com o Chef e com a camareira chefe para dar a conhecer os próximos clientes e a sua lista de requisitos que podem ir desde restrições ou solicitações alimentares, até temáticas de animação a bordo. O fundo do mar é o limite e normalmente os clientes são bastante picuinhas, pelo que o serviço tem de ser ao nível de um hotel de cinco estrelas flutuante.

A responsabilidade máxima é do Capitão – ou da Capitã, no caso da versão Mediterrâneo do programa – que comandam a sua equipa com a elegância do Capitão Iglo, sendo que os douradinhos neste caso são substituídos por cocktails de vodka e vieiras em cama de puré trufado. Já os clientes têm exatamente a mesma atitude excitada tal como as crianças dos anúncios da Iglo, principalmente os que não estão a pagar e que estão ali à pala do seu amigo rico. São eles que invariavelmente dizem a frase “Oh my god” de todas as vezes que chega um prato à mesa das refeições – mesmo que seja uma tigela de fruta – e que acham que vão conseguir convencer uma das tripulantes a ir com eles para o jacuzzi. Sim porque não há nada mais atraente que um barrigudo de sunga com tantos pelos no peito que parece que foi para o jacuzzi de pullover.

Se é certo que não pode haver envolvimentos entre membros da tripulação e clientes, o mesmo não se aplica aos colegas entre si. E é aqui que Barcos com Amor é um reality show igualzinho aos demais. Há romance, drama, ciúmes, gossip e algum atracar de popa. No fundo todos os ingredientes a que já estamos habituados e que fazem destes formatos, sucesso de audiências em todo o mundo. Em quase todas as temporadas o Chef envolve-se com a camareira chefe, que por sua vez é odiada por uma das camareiras, que por sua vez gosta de um dos marinheiros, que por sua vez já se envolveu numa temporada anterior com a camareira chefe.

Quando termina o fretamento, toda a tripulação veste a sua farda de gala e perfila-se à saída, para se despedir dos clientes. Nesse momento, o capitão recebe das mãos do cliente principal um envelope com notas, que é a gorjeta pelos serviços prestados, e que normalmente ronda os 11.000 dólares, mas já atingiu 30.000 dólares num dos episódios. 30.000 dólares de gorjeta! Trinta mil. Eu uma vez fui coagido pela minha mulher a dar uma gorjeta de 10 euros num restaurante e fiquei a contorcer-me nas quatro horas seguintes. Ser pobre é lixado.

Deve ser ótimo poder deixar uma gorjeta destas que dá para comprar um Audi A3, e ainda sobram uns trocos para fazer a travessia no Ferry para Tróia. Não tem jacuzzi, é certo, mas eu também não fico bem de sunga.

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