Naquela que tem vindo a ser considerada como a era dourada da televisão, a competição entre séries, criativos e plataformas de streaming é atroz. Todas as semanas estreiam novidades e torna-se inevitável que exista uma efemeridade — é difícil prendermo-nos realmente a algo quando todos os dias existem histórias novas para absorver.
Numa altura em que há tanta quantidade, para se destacarem, as séries têm realmente de apresentar algo original e disruptivo. E “Beef” — ou “Rixa”, em português — conseguiu superar essa barreira e afirmar-se facilmente como uma das melhores séries do ano. Tem 10 episódios e estreou na Netflix a 6 de abril.
Não é fácil resumir a narrativa de “Beef”, mas tudo começa com um pequeno incidente entre dois carros num parque de estacionamento. Ele, na sua pickup de trabalho, é Danny, um filho de imigrantes sul-coreanos que vive à conta de biscates — é um faz-tudo, embora prefira o termo “empreiteiro”. Tem uma relação algo difícil com o irmão com quem vive, Paul, e os pais tiveram de regressar à Ásia por razões financeiras. O grande objetivo de Danny é construir uma casa para os pais voltarem aos EUA.
Ela, no seu SUV branco, é Amy, a responsável por uma empresa de plantas que está prestes a fazer o negócio de uma vida. Casada com um ceramista que cresceu na elite artística, vive numa moradia sofisticada. Isso não significa que a sua vida seja fácil. Trabalha incansavelmente para alcançar o seu sonho, tem uma filha pequena e problemas emocionais relacionados com os pais. Embora sejam de classes e zonas diferentes da cidade de Los Angeles, ambos estão fartos — e a pequena gota de água que desencadeia toda a restante ação é o tal incidente num parque de estacionamento.
A partir desse momento, as vidas de ambos passam a estar entrelaçadas. Os dois vão provocar-se um ao outro, com pequenos atos de vingança, que só vão escalar à medida que os episódios vão passando. Os dois lados da história vão emaranhar-se cada vez mais, à medida que personagens próximas de Danny e de Amy também se cruzam — até ao grande culminar épico que representa um desastre mas, ao mesmo tempo, alguma absolvição.
Isto porque “Beef” é, acima de tudo, uma série sobre angústia. Sobre nunca estarmos completamente satisfeitos, sobre as pequenas (e as grandes) coisas que nos irritam, sobre não correspondermos às expetativas, sobre as falhas que nos atormentam, sobre a sensação de vazio que por vezes se apodera de nós, sobre as depressões silenciosas que se podem abater sobre qualquer pessoa, sobre o pior que vem ao de cima mas que inevitavelmente nos torna humanos.
“Beef” acaba por abordar tudo isto com uma história profundamente envolvente e divertida — onde tanto cabem planos de assaltos como bandas de igreja, jarras de qualidade dúbia e noites de cumplicidade. Por vezes é um drama familiar, noutras ocasiões é uma comédia negra, nalguns casos chega a ser uma história de ação e de crime. Os dois atores protagonistas, Steven Yeun e Ali Wong, estão irrepreensíveis nos seus papéis multifacetados — e também há que destacar o trabalho feito por nomes como Joseph Lee, Young Mazino e David Choe.
Com uma direção de fotografia de qualidade superior, uma banda sonora intrigante e um guião inspirado — que nunca deixa de ser acessível — “Beef” leva-nos numa viagem delirante, repleta de pequenas referências, que nunca perde a consistência e nos apresenta caminhos tão imprevisíveis quanto deliciosos. Do melhor que vimos na televisão nos últimos tempos.
Leia também o artigo da NiT sobre a história de Steven Yeun — de imigrante sul-coreano até estrela de Hollywood. E descubra quem é David Choe, o artista que virou ator e surpreendeu todos em “Beef”.
Carregue na galeria para conhecer outras novidades das plataformas de streaming e dos canais de televisão.








