Televisão

“Bem Bom”: quais são as diferenças entre o filme e a série sobre as Doce?

A versão televisiva, que era o projeto original, estreia este sábado, dia 2, na RTP1. A história passa a ter sete horas.
A série tem 7 episódios.

Nos últimos anos, tem-se intensificado em Portugal a tendência de os filmes terem uma versão televisiva alargada — muito por culpa da RTP, que tem apoiado longas-metragens e estreado, como contrapartida, as versões televisivas destas histórias. O mesmo acontece com a produção biográfica sobre as Doce. Depois do filme “Bem Bom”, que estreou em julho nos cinemas, agora vem aí “Doce”, a série de sete episódios, cada um com cerca de uma hora, que ultrapassa em grande medida o filme que tinha a duração de uma hora e 51 minutos. A série estreia este sábado, 2 de outubro, na RTP1, a partir das 21 horas. Os capítulos vão ser transmitidos semanalmente.

Ambos foram escritos e gravados em simultâneo pela mesma equipa. A realizadora Patrícia Sequeira é a autora da ideia original, que depois convidou as argumentistas Cucha Carvalheiro e Filipa Martins para escreverem os dois guiões. Contudo, a primeira ideia para este projeto, segundo explica Filipa Martins à NiT, foi mesmo ser uma série de televisão. O objetivo era contar a história desde a fundação da banda até ao final da formação original.

“Mas a Patrícia percebeu que tínhamos ali material ficcional e real — porque tudo é baseado em factos reais — para conseguir partir para o grande ecrã e também contar uma história para cinema”, explica a guionista. “Eu costumo dizer que o filme tem um arco apolíneo — de superação de idiossincrasias pessoais dentro do grupo, de um confronto com a sociedade, o meio em que elas surgem, e depois terminamos num ponto alto do grupo em que vencem o Festival da Canção e conseguem representar Portugal no exterior. A série tem mais ramificações e um arco narrativo maior. Nós vamos ver mais sobre as suas vidas numa abordagem a 360 graus. Uma das grandes preocupações de fazermos esta série foi de trabalharmos o lado obscuro da fama, aquilo que nós não vemos e que existe por trás do palco e longe dos holofotes.”

Filipa Martins explica que, na série “Doce”, os espectadores vão conseguir descobrir mais sobre as vidas e contextos pessoais de cada uma das cantoras — sendo que todas elas tinham características bastantes diferentes.

“A Fátima Padinha vinha de uma classe média, o pai estava ligado à banca, tinham uma situação financeira confortável. Era uma família tradicional e o confronto dela na sua vida pessoal foi também esse: impor-se como uma estrela nacional com aquele tipo de músicas, de roupas e danças numa família que era a família típica portuguesa acabada de sair de 40 anos de ditadura. Era uma família católica e ela teve de enfrentar essa pressão pessoal.”

Já Lena Coelho vinha de um contexto artístico, uma vez que o seu pai estava ligado ao teatro. “Ela tinha toda essa herança, que a projetava de outra forma neste meio, mas ao mesmo tempo também estava muito ciente de tudo aquilo que o mundo do espetáculo pede, nomeadamente à mulher. Uma das grandes decisões que ela vai ter de tomar é se quer continuar nas Doce ou optar por constituir uma família. Que é uma coisa que, provavelmente, no caso de um homem, nos anos 80, não se colocaria. Elas tiveram muita dificuldade em conseguir conciliar relações amorosas sólidas e duradouras com o seu dia a dia de grandes estrelas nacionais da música.”

Filipa Martins explica que Teresa era provavelmente a mais solitária do quarteto. “E via-se essa incapacidade, provocada pela fama também, de criar relações duradouras e verdadeiras. Com a Teresa vamos conseguir abordar temas sociais muito, muito complexos. Nomeadamente a questão da interrupção voluntária da gravidez, que na altura, como sabemos, era proibida. E obrigava milhares de mulheres a recorrerem a serviços de parteiras pouco credenciadas e a condenarem gravidezes futuras ou mesmo morrerem em salas. Mas todo o status quo e hipocrisia da sociedade empurrava essas mulheres para essas situações.” Outro dos temas abordados em “Doce” vai ser a questão da homossexualidade e da SIDA. 

“A Laura provavelmente é aquela cuja vida pessoal nós já abordámos mais no filme. É toda a temática das fake news e dos boatos. A Laura perdeu os pais muito cedo e foi educada num convento. É extraordinário pensar que é sobre ela que recai o boato do Reinaldo”, explica Filipa Martins sobre uma parte da história que já esteve em destaque no filme.

“Quando, a determinada altura, ela diz que quer casar virgem, é absolutamente verdade. Ela tinha uma educação católica e também teve de lutar contra essa raiz católica que existia nela — e ela era uma mulher extremamente crente — ao mesmo tempo que era apelidada de prostituta na rua. E a série vai ser muito mais dura nesse sentido. A isto associa-se todo um lado de bastidores da fama que não foi visto no filme. Que é o cansaço extremo de dias e dias numa carrinha de digressão, a incapacidade de criar relações duradouras porque elas nunca estavam no mesmo sítio, estavam sempre em movimento. Um profundo sentimento de isolamento e solidão. E uma exaustão que vai levar ao fim do grupo original. Quartos de hotel em quartos de hotel, fãs e autógrafos, guerras dentro do grupo, porque quando estás em tournée é inevitável que haja discussões e a série termina quando elas chegam à conclusão que aquilo que têm e que conquistaram… não chegava para serem felizes.”

A argumentista acredita que os espectadores do filme vão ficar surpreendidos com a série, que tem uma abordagem diferente — e que até poderá agradar mais àqueles que criticaram “Bem Bom”. “Acho que vai agradar mais aos fãs das Doce, porque uma das críticas feitas ao filme é que tudo parecia que acontecia muito depressa, mas é inevitável quando temos duas horas para contar meia década. Acho que a série vai ao encontro desses pedidos, vamos perceber no primeiro episódio, de uma forma mais profunda, como é que o grupo foi formado e que tipo de problemas é que elas tiveram de conseguir ultrapassar, mas os restantes episódios acho que vão ser extremamente surpreendentes.”

E acrescenta: “O interessante é que, a partir do mesmo material, foram criados dois produtos completamente distintos. Em que a intenção é diferente. Sendo um filme que eu acho que tem de tudo — humor, drama, um lado musical — é um melting pot de emoções. Mas acho que é um filme que nos dá conforto. Saímos do cinema bem-dispostos e isso foi uma pretensão inicial: terminar o filme num lugar feliz. A série é uma carnificina de emoções. Acho que as pessoas têm de estar preparadas para isso. Acho que vamos levar muitos murros no estômago. Os diálogos com humor vão lá estar, as personagens também, e as personalidades delas vão lá estar à mesma. Mas a história das Doce não foi só feita de lantejoulas e brilhos. Na verdade foi uma história de grande custo pessoal para todas. E essa história está lá toda contada, com direito a lágrimas, gritos e tudo”.

Além disso, salienta, muitos temas fraturantes que ainda são relevantes na atualidade são abordados ao longo dos sete episódios. “Percebi que isto era ouro narrativo. Que esta história, bem contada, podia fazer-nos refletir sobre a condição da mulher, o preconceito, a interrupção voluntária da gravidez, o papel do corpo, o empoderamento feminino mas também da homossexualidade, o machismo na sociedade, etc., está tudo ali. Elas enfrentaram um preconceito e eu enfrentei um preconceito quando comecei a dizer a pessoas da área que também eram escritores que estava a escrever sobre as Doce. E as pessoas todas olhavam-me de lado, a pensar: mas o que é que te aconteceu? E a verdade é que eu não acredito que haja temas menores ou maiores na ficção. Acho que a forma como os abordamos e como contamos a história valoriza-os ou não. E esta história tinha absolutamente de ser contada.”

Filipa Martins explica também porque é que decidiram terminar a história com o fim da formação original das Doce, e porque escolheram não incluir os últimos tempos do grupo, quando Lena Coelho foi substituída por Ágata. 

“Tudo o que vem depois daquele grupo, e não estou a falar do ponto de vista de produto musical — estou a falar do que nos interessava contar do ponto de vista ficcional — já é arroz de ontem. Ou seja, o que é que nós estamos aqui a contar? Estamos a contar a formação de um grupo de mulheres completamente diferentes, que tiveram de ultrapassar uma série de conflitos internos e externos para se tornarem um sucesso e que por um conjunto de situações, intrínsecas ao próprio grupo e àquilo que a fama representou nas suas vidas pessoais, tiveram que decidir se continuavam ou se teriam de abdicar da fama e dos palcos para serem completamente preenchidas do ponto de vista pessoal. E isto é um dilema enorme para uma mulher. Porque é que uma mulher tem de desistir da sua carreira para poder ser mãe? Para poder ter uma família? Portanto, tudo o que pudéssemos contar a mais não ia acrescentar nada. Nós começámos e acabámos com aquelas personagens. Quem vir a série vai perceber que há ali uma pretensão de atualidade e à boleia das Doce nós conseguimos tocar em muitos temas universais. É a história de uma banda, óbvio que é, mas não é só. E acho que qualquer mulher se deve sentir de alguma maneira representada ali. Tendo ou não lá o seu nome.

Leia também a entrevista da NiT com a realizadora Patrícia Sequeira sobre o filme. E carregue na galeria para conhecer outras séries que estreiam em outubro.

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