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A bizarra relação que pode explicar a estranha morte de Brittany Murphy

Uma relação obsessiva, duas mortes e o efeito castigador de Hollywood são analisados à lupa no novo documentário da “HBO”.
A atriz morreu com 32 anos

“Uma pessoa muito importante em Hollywood disse que eu não era suficientemente sensual. Que era fofinha, sim, mas que ninguém me quereria foder”, contou Brittany Murphy em 2000 sobre o seu papel em “Trixie” que a obrigou a uma alteração drástica de visual. Por essa altura, era uma das jovens atrizes do momento em Hollywood, desde que brilhara ao lado de Alicia Silverstone no seu primeiro grande êxito, “Clueless”, que foi um sucesso brutal de bilheteira em 1995.

Estava a viver o sonho que levara a sua mãe, solteira, a mudar-se com a filha única para o outro lado do país. Para trás ficou Nova Jérsia, rumo a Los Angeles onde Murphy, com um evidente talento para a interpretação e para a música, queria brilhar. Durante dez anos foi uma das it-girls dos 90 e 2000.

As adolescentes tinham posters seus nas paredes dos quartos. A miúda de ar aparentemente normal transformou-se numa beleza típica de Hollywood, a imprensa não a largava e foi protagonista de um dos namoros sensação da época com Ashton Kutcher. Subitamente, os papéis nos bons filmes começaram a escassear, o comportamento tornou-se errático e, sem que nada o fizesse prever, Brittany Murphy foi encontrada morta na sua casa em 2009. Tinha 32 anos.

Uma pneumonia foi revelada como causa da morte da atriz que apresentava sinais de anemia e intoxicação por drogas, nenhuma delas ilegais. O escândalo, alvo de tremenda especulação, deu origem a muitas e bizarras teorias que são agora esmiuçadas na nova série documental da “HBO” que estreia nos Estados Unidos esta quinta-feira,a 14 de outubro.

“What Happened, Brittany Murphy?” é dividida em dois episódios e viaja novamente aos caóticos anos 2000, tantas vezes revisitados por esta altura — sobretudo pelo chocante tratamento dado pela imprensa a famosas quase adolescentes como Murphy, Lindsay Lohan, Britney Spears ou Alicia Silverstone. Mas entre as muitas teorias sobre o que terá levado a atriz à morte, uma figura sinistra revela-se, o seu marido Simon Monjack.

Entre pequenos papéis em diversas séries, Murphy precisou apenas de quatro anos para arrombar a grande porta de Hollywood com a sua Tai em “Clueless”, uma jovem pouco cool que, ao chegar a uma nova escola, é adotada pelas miúdas populares e sofre uma total transformação. A vida real imitou a ficção.

A ascensão de Murphy coincidiu com uma revolução total no seu look. Os cabelos negros aloiraram-se. O seu peso reduzia drasticamente perante o registo regular nas passagens pelas red carpets. A imprensa estava obcecada com Murphy — e Murphy não queria perder o sonho que tanto tinha custado a conquistar. Se era necessário passar de fofinha a sensual como pediam os realizadores, ela estava disposta a fazê-lo.

É essa transformação que ocupa grande parte do documentário, apoiada em testemunhos de colegas, amigos e familiares da atriz. Durante quase uma década, os sucessos sucederam-se. Contracenou ao lado de Winona Ryder e Angelina Jolie em “Girl, Interrupted”, brilhou em “Trixie” e cimentou o seu nome com dois êxitos consecutivos: no drama “8 Mile” ao lado de Eminem” e na comédia romântica “Just Married” com o então namorado Ashton Kutcher.

Essa subida vertiginosa interrompeu-se com o fim da relação com o ator e dois súbitos noivados, terminados tão rapidamente quanto consumados. Foi nesse período turbulento que começaram a surgir os rumores do consumo de drogas que a atriz sempre negou publicamente. A perda de peso, essa era inegável.

“Uso o mesmo tamanho que usava em ‘Clueless’; a nossa cara tende a emagrecer à medida que cresces e te tornas mais velha. Este é o meu corpo. Tenho orgulho nele. Sou saudável”, revelou em 2005, durante a promoção do seu filme “Sin City”.

Amy Heckerling, realizadora de “Clueless”, comentou o assunto. “Talvez ela sentisse que não era aquela miúda magrinha, bonitinha. E depois nos filmes seguintes apareceu magra, loira e a namorar Eminem e o Ashton Kutcher.”

Aparentemente inócuo, seria depois da morte que a perda de peso seria novamente discutida em público, sobretudo quando a autópsia determinou que a magreza extrema teve um papel crucial no desfecho trágico. “Para desenvolver uma anemia desta natureza, ela não estaria a comer de todo”, explica um dos autores da autópsia no documentário.

Foi nesse período que surgiu na vida da atriz Simon Monjack, um argumentista britânico com um historial muito particular. Sete anos mais velho do que Murphy, ter-se-ão conhecido quando a atriz tinha apenas 17 anos.

Terão mantido contactos secretos e, talvez por isso, surpreenderam toda a gente quando se casaram numa cerimónia judaica em 2007. Nunca tinham sido vistos juntos em público.

Murphy e Monjack eram um casal peculiar

De Monjack conheciam-se apenas um par de trabalhos e um cadastro que incluía fraude e violação das leis de imigração norte-americanas. Assim que surgiu ao lado de Murphy, a imprensa vasculhou tudo o que podia vasculhar.

Mas mesmo depois do casamento, o casal raramente era visto em público. “De repente, um dia os números [de telefone] mudaram. Ninguém sabia onde a encontrar”, revelou ao documentário uma das amigas mais próximas da atriz. “Desapareceu. O Simon levou-a e pronto. Ele fazia questão de se certificar que ninguém podia falar com ela.”

Monjack estava sempre ao lado de Murphy sempre que saíam de casa. “O Simon e a Brittany estavam basicamente trancados em casa. Faziam estranhíssimas sessões de fotos a meio da noite onde ele a vestia como uma boneca”, revela a jornalista da “People” Sara Hammel.

O caráter controlador de Monjack é revelado no documentário: o marido terá ficado com o controlo do seu email, das suas contas bancárias e de telemóveis; demitiu toda a equipa que geria a carreira da atriz e tomou ele próprio essas responsabilidades. Chegava a ser ele a maquilhar a atriz nos estúdios antes das gravações.

O britânico era também um mentiroso compulsivo. Além de se gabar recorrentemente de ter superado vários cancros terminais com terapias experimentais — que era obviamente mentira —, apregoava diversas relações íntimas com grandes nomes como Elle MacPherson ou Madonna.

As mentiras de Monjack chegaram ao cineasta Allison Burnett, que procurou avisar as pessoas mais próximas da atriz. Contactou o agente de Murhpy, que lhe disse que já havia tentado avisar a atriz, mas que tinha sido despedido depois de o fazer. Burnett contactou a imprensa que agarrou na história. Murphy e a mãe, Sharon — que vivia com o casal na sua casa em Hollywood —, preferiram acreditar em Monjack.

Cada vez mais isolada do mundo e dos bons papéis, começaram a surgir os conflitos profissionais. Deveria ser uma das protagonistas de “The Caller” quando, dois dias depois do início das filmagens, foi substituída. Os rumores apontam que a decisão dos produtores foi tomada depois de uma discussão e agressão protagonizada por Monjack. Seria a última vez que Murhpy passava por um set de gravações.

Antes do regresso, Murphy, Sharon e Monjack começaram a apresentar sintomas gripais. Já em Hollywood, a atriz terá sido automedicada. Na manhã de 20 de dezembro, Brittany foi encontrada desmaiada na sua casa de banho.

A perda de peso tornava-se cada vez mais evidente

Na chamada para o 112 divulgada meses mais tarde, ouve-se o desespero da mãe e também a voz de Monjack, alegadamente a tentarem fazer uma massagem cardíaca à atriz, que viria a morrer duas horas depois, já no hospital. A autópsia apontou para a pneumonia como a causa principal da morte, com fatores secundários a indicarem uma anemia e intoxicação de medicamentos antigripais que, segundo o relatório, “não devem ser menorizados os níveis elevados destes medicamentos, sobreutdo no seu estado enfraquecido”.

A morte levantou todo o tipo de especulações, de potencial homicídio a abuso de drogas. Mas a história tomou um rumo ainda mais bizarro quando três meses depois da morte de Muhpy, Monjack foi encontrado morto na mesma casa por Sharon. A causa da morte? Uma pneumonia aguda potenciada por uma anemia grave, exatamente a mesma causa que vitimou Murphy.

A coincidência não passou despercebida e imediatamente despontaram rumores de que a morte do casal poderia estar relacionada com um problema de bolores tóxicos presentes na casa em Hollywood Hills; uma teoria que foi rapidamente afastada pelos responsáveis, apesar da casa nunca ter sido alvo de uma inspeção.

Sharon, por seu lado, mudou de versão: depois de considerar como absurdas as teorias, no final de 2011 revelou publicamente acreditar que a morte de ambos teria sido causada por bolores tóxicos presentes na casa. Nunca nada foi provado.

Uma das médicas responsáveis pela autópsia revela no documentário que não encontrou qualquer evidência de bolor, mas que se Murphy tivesse ido a um hospital na semana antes da morte, teria certamente ficado internada. “Qualquer médico das urgências a teria ligado a uma máquina de transfusão o mais rapidamente possível”, explica.

Angelo Bertolotti, o pai da atriz que se havia mantido afastado durante toda a sua vida, interveio depois da morte, para alegar que Murphy poderia ter sido envenenada. Uma teoria também desmentida pelos médicos, que encontraram evidências de metais pesados, mas no cabelo e não no sangue, com possível origem em tintas e sprays para o cabelo.

Em evidência ficou também a estranha relação mantida por Sharon e Monjack depois da morte de Murphy. Ambos continuaram a viver juntos e chegaram a participar em sessões fotográficas. A intimidade levantou suspeitas principalmente depois de uma entrevista conjunta com Larry King, onde surgiam visivelmente desorientados. Questionado sobre o motivo pelo qual não pretendia avançar com uma autópsia a Murhpy, Monjack respondeu o seguinte: “Aquele corpo intocado, com curvas em todos os sítios perfeitos, com pele como seda… Como é que eu podia dizer ‘abram-na’ à frente da mãe dela?”

A curiosa sessão fotográfica de sogra e genro após a morte de Murphy

A grande descoberta seria feita por Sharon depois da morte de Monjack. A mãe da atriz tentou penhorar algumas das joias oferecidas pelo marido à filha, apenas para descobrir que eram todas falsificações. Feitas as contas, Monjack teria gasto, em apenas três anos, perto de três milhões de euros das contas de Murphy.

É sobre ele que recaem muitas das suspeitas, agora praticamente impossíveis de verificar. O que se sabe é que na casa de Hollywood Hills onde poucos entravam, ficaram vestígios de uma vida muito pouco saudável. Na cabeceira de Monjack, na noite da morte de Murphy, a polícia encontrou mais de 90 frascos de comprimidos de prescrição médica obrigatória, muitos passados em nomes falsos — e quase todos vazios.

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