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“Bolívar”: a série histórica da Netflix que ajuda a perceber o que se passa na Venezuela

Acompanha o percurso daquele que é considerado um “herói, visionário, revolucionário e libertador” em vários países da América Latina, Simón Bolívar.

Este ano começou de forma atribulada para a Venezuela, onde os últimos acontecimentos políticos marcaram uma viragem brusca: Nicolás Maduro foi afastado da presidência, após uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos, na madrugada de 3 de janeiro. O chefe de Estado venezuelano e a mulher, Cilia Flores, foram capturados em Caracas e colocados sob custódia norte-americana, dando início a uma fase de grande incerteza interna e forte pressão externa. 

A intervenção foi justificada por Washington com o combate ao narcotráfico, fazendo parte de uma estratégia para “restaurar a democracia” e controlar o setor petrolífero venezuelano, — mas tem sido criticada por “carecer de base legal no contexto do direito internacional” e abrir “um precedente perigoso”. 

Na sequência da operação, o Supremo venezuelano considerou Maduro “ausente temporariamente” e a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina por 90 dias. Após o presidente Donald Trump anunciar publicamente que os EUA irão “assumir” a reconstrução do país, surge o receio de uma ocupação prolongada. Com o futuro da Venezuela envolvo em incerteza, a possibilidade de uma transição democrática liderada pelos próprios venezuelanos parece estar (muito) longe de se concretizar. 

Embora neste momento seja difícil prever se a história se repetirá, a tomada da independência por um líder forte e carismático é um dos mitos fundadores do país. O seu nome oficial, — República Bolivariana da Venezuela, adotado em dezembro de 1999, durante o primeiro mandato de Hugo Chávez —, reflete isso mesmo. 

A designação evoca a figura de Simón Bolívar, militar venezuelano, considerado em vários países da América Hispânica, um “herói, visionário, revolucionário e libertador”. No início do século XIX, liderou a Bolívia, a Colômbia, o Equador, o Panamá, o Peru e a Venezuela à independência e à libertação do jugo do Império Espanhol. 

Personalidade incontornável na história da América Latina, Bolívar é pouco conhecido por cá, embora a sua curta vida tenha dado uma novela — literalmente. Falamos da produção “Bolívar: una lucha admirable”, atualmente disponível na Netflix, em Portugal.

A série colombiana de 60 episódios, com cerca de 50 minutos cada um, acompanha várias fases da vida de Simón Bolívar, desde a infância privilegiada na Venezuela colonial até à liderança das guerras pela independência. A narrativa aborda temas como a escravatura, a burocracia imperial espanhola e os conflitos entre chapetones (colonos brancos vindos de Espanha) e criollos (descendentes de espanhóis já nascidos na América).

Contudo, embora seja baseada em factos, a série com cerca de 50 horas de duração, não é propriamente “um épico histórico”. A produção assume que cerca de 80 por cento da narrativa tem uma base histórica, sendo os restantes 20 por cento elementos ficcionais (concentrados em algumas personagens-síntese, criadas para facilitar a narrativa).

Produzida pela Caracol Televisión, da Colômbia, a telenovela, originalmente lançada em 2019, foi bem recebida, tanto pelo público como pela crítica: na plataforma IMDB está classificada com 7,3 pontos em 10. Muitos dos elogios destacam a qualidade de produção; das batalhas bem filmadas aos figurinos, da interpretação de Luis Gerónimo Abreu como Bolívar adulto, à narração baseada nos diários de Daniel O’Leary (membro das Legiões Britânicas que lutou ao lado do general venezuelano) na terceira fase.

Embora Simón Bolívar — idolatrado na Venezuela como herói nacional, sobretudo após a ascensão de Hugo Chávez ao poder, nos anos 90 — seja retratado de forma positiva ao longo de toda a série, a produção esteve envolvida numa polémica pré-estreia, quando Nicolás Maduro a descreveu como “uma minissérie da oligarquia colombiana”. Mais tarde, porém, admitiu ter visto todos os episódios e retratou-se, tendo até elogiado abertamente a obra. 

Com algumas simplificações pelo caminho, a série aborda as derrotas, alianças, exílios e conspirações ocorridas durante a “luta pela libertação” da Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela; e explora a complexidade da personalidade de Bolívar, da sua relação com Manuela Sáenz, equatoriana que abandonou o marido para se tornar sua amante e companheira de luta, que o salvou de uma tentativa de assassinato, e que com quem viveu oito anos, até à sua morte, em 1830, aos 47 anos, na sequência de uma tuberculose.

Além de “documento histórico”, que dá a conhecer os movimentos onde despontaram as bases ideológicas que determinariam o futuro da América Latina e ao cenário geopolítico que hoje conhecemos, esta série colombiana disponível na Netflix vale também pela sua grande envergadura.

A produção apostou forte na reconstituição fiel da época e em cenários naturais, incluindo gravações em mais de 300 localizações, na Colômbia, e em Toledo, Espanha. Criada por Juana Uribe, também responsável pelo argumento, a série baseada na vida do Libertador venezuelano conta com Luis Gerónimo Abreu (Bolívar adulto), José Ramón Barreto (Bolívar jovem), Maximiliano Gómez (Bolívar em miúdo), Irene Esser (María Teresa del Toro) e Shany Nadan (Manuela Sáenz) no elenco. Agora é só reservar umas 50 horas e fazer uma espécie de “curso rápido sobre a história da América Latina”, sem precisar sair do sofá.

Carregue na galeria para conhecer as melhores séries e temporadas que estreiam em janeiro nas plataformas de streaming e canais de televisão.

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