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“Our Boys” é a minissérie inspirada em factos verídicos que já devia estar a ver

Um homicídio violento agita Israel e descobrir o culpado pode fazer explodir o país. É um drama meticuloso, realista e absorvente.
É uma jóia escondida na HBO Portugal

Na madrugada de 2 julho de 2014, um jovem de 16 anos foi agarrado, colocado dentro de um carro e raptado. O corpo haveria de ser encontrado poucas horas depois, violentamente espancado e carbonizado. O crime, que aconteceu nos arredores de Jerusalém, vitimou um jovem árabe, Mohammed Abu Khdeir. Os árabes apontaram o dedo aos judeus. Os judeus afastaram as culpas. O incidente haveria de acender o rastilho de uma nova guerra.

Este poderia muito bem ser o cenário idealizado por (mais) um argumentista inspirado pela complexa e perigosa relação entre israelitas e palestinianos. Mas tudo isto aconteceu. O crime que chocou a comunidade árabe deu origem a retaliações. Israel respondeu com uma nova invasão de Gaza que, como sempre acontece, voltou a fazer milhares de vítimas mortais.

É este o cenário de que parte “Our Boys”, minissérie da “HBO” lançada em 2019 e que tem passado de forma discreta pela plataforma portuguesa onde está disponível. Escrita por três israelitas, dois judeus e um árabe, arranca com o retrato de um país abalado pelo rapto de três jovens — Naftali Frenkel, Gilad Shaer e Eyal Yifrah — às mãos de terroristas palestinianos.

A morte dos três adolescentes criou uma onda de solidariedade e também de raiva, a mesma raiva que viria a provocar a morte de Mohammed Khdeir. É neste barril de pólvora que a série arranca e que desde logo responde à pergunta que os espectadores irão fazer. “Mais do mesmo?” Pelo contrário. São poucas as produções exploram tão bem o conflito interno dos dois povos como a da “HBO”, que navega com perícia as sensibilidades e os preconceitos de ambos os lados de forma quase neutral.

É um drama policial de ritmo lento, o mesmo ritmo que lhe permite focar-se nos pequenos pormenores que tantas vezes são fulcrais para contar uma boa história. Mergulha nas teias delicadas dos diferentes grupos religiosos, nas diferentes formas de pensar, de agir, de viver a vida — e nem sempre é fácil separá-los.

Hussein Kdheir (Johnny Arbid) à esquerda, é uma das boas surpresas do elenco

Durante 10 episódios, o fio principal é a investigação da divisão judaica da agência de segurança israelita Shin Bet — odiada pelas franjas mais conservadores, que os acusam de traição por perseguirem judeus, mesmo os que cometem crimes horrendos — e do homem responsável por descobrir quem, afinal, matou Mohammed Khdeir. Teriam sido árabes, depois do surgimento de rumores de que o jovem era gay? Seriam afinal israelitas num ato de vingança pela morte dos três jovens, semanas antes?

É também um drama contado a dois tempos. Simon, o investigador, serve de espelho às diferentes camadas da comunidade judaica, dos mais extremistas aos mais liberais. De um lado, os que procuram estabelecer um sentido de justiça, por vezes por imperativo moral, ocasionalmente para evitar o escalar de um conflito internacional. Do outro, os que debatiam justificações para um ato de vingança cruel sobre um jovem árabe.

Do lado árabe, acontece o mesmo. O luto palpável dos pais choca com a desconfiança do sistema israelita — à medida que procuram, na polícia e nos tribunais, a forma de vingar a morte do filho — e o aproveitamento da franja mais radical em instrumentalizar o crime, transformando Mohammed num mártir.

Simon (Shlomi Elkabetz) é o agente que está no centro do caso

“Our Boys” é desconcertante, na medida em que não espelha uma realidade de heróis e vilões, soldados e terroristas. É uma história de pessoas comuns empurradas para o centro de um conflito eterno. E é também desarmante na forma como retrata algumas das suas personagens mais vulneráveis: o que pode levar um inocente a cometer um ato hediondo em nome de um suposto bem maior.

Sem nomes fortes no elenco, a co-produção israelita está recheada de bons atores. Uns retratam na perfeição as personagens reais que devem imitar; outros encarnam em si um aglomerado de figuras, como é o caso do investigador Simon, que simboliza todos os polícias e agentes que desvendaram o crime; ou Dvora, a psicóloga que encarna todos os profissionais encarregues da ingrata tarefa de avaliar os criminosos, mesmo colocando em causa a sua posição na comunidade judaica.

Avishai (Adam Gabay) é uma das personagens principais

Naturalmente, a estreia de “Our Boys” provocou reações que levaram o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu a pedir um boicote à empresa co-produtora da série. Isto porque, nas suas palavras, a produção “mancha a reputação de Israel”.

“Há um profundo e enorme abismo moral que nos separa dos nossos inimigos. Eles glorificam a morte enquanto nós glorificamos a vida. Glorificam a crueldade, enquanto nós glorificamos a compaixão”, disse Netanyahu em 2014, no funeral dos três jovens judeus. A verdade é que a minissérie é, também aqui, equilibrada na crítica: muitas imagens reais são usadas, inclusive alguns dos protestos que clamavam pela “morte aos árabes”.

De toda a filmografia sobre o conflito, “Our Boys” é provavelmente aquela que melhor retrata o outro lado do conflito, as fricções, o dia a dia de duas comunidades que vivem separadas, lado a lado. É uma história perturbadoramente real, impecavelmente contada e interpretada — e das poucas que parece conseguir provocar uma empatia por todos os lados, seja qual for a opinião pré-concebida que tenhamos do conflito. É imperdível.

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