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Carolina Amaral: a atriz portuguesa que foi a grande revelação de “Glória”

A NiT entrevistou a profissional que está neste momento na Bélgica a apresentar um espetáculo.
Interpreta Carolina na série.

A primeira série portuguesa da Netflix, “Glória”, estreou a 5 de novembro na plataforma de streaming. Entre o elenco estão nomes como Miguel Nunes, Afonso Pimentel, Joana Ribeiro ou Victoria Guerra. Mas uma das atrizes que mais se destacou na produção dirigida por Tiago Guedes foi a menos conhecida Carolina Amaral.

Por coincidência, a atriz de 27 anos interpreta outra Carolina. É uma rapariga da Glória do Ribatejo, oriunda de uma família humilde, que trabalha na RARET — o centro de transmissões americano que está no centro da narrativa. É uma personagem relevante para explicar o contexto histórico da época, mas também tem uma importância grande no enredo.

Neste momento, Carolina Amaral está em digressão internacional com o espetáculo “Trouble”, do cineasta Gus Van Sant. A tour, que neste momento se encontra na Bélgica, vai prolongar-se até ao final de 2022 por diversas cidades europeias. No próximo ano, a atriz vai estar em destaque no filme “Mal Viver”, de João Canijo (e na versão televisiva “Linha de Água”).

Depois, tem na calha a participação numa produção portuguesa e num espetáculo francês. Apesar de já ter participado nalgumas séries e filmes, nunca tinha trabalhado durante vários meses na ficção audiovisual. Leia a entrevista da NiT com Carolina Amaral.

Como é que tem sido a receção das pessoas desde a estreia de “Glória”?
Tem sido muito positiva, porque houve realmente uma aproximação do público. Sobretudo através das redes sociais. Em geral tem sido um feedback mesmo surpreendente. É quase tudo positivo. Para mim é muito agradável, acalenta. 

De que forma é que conseguiu o papel? Foi através de um casting, de um convite, como aconteceu?
Existiram três fases de audição. Houve uma primeira abordagem do Tiago Guedes a vários atores para as diferentes personagens, para fazermos uma espécie de improvisação que pudéssemos gravar. E depois houve duas fases presenciais, com outros atores. 

Quais foram as cenas que interpretaram nas audições?
Na primeira fase houve uma cena de encontro com a personagem João Vidal, no refeitório da RARET. Depois houve cenas com o Fernando, antes e depois da guerra. Na segunda fase foram só cenas com o João Vidal, incluindo aquela na praia. É uma cena em que estamos a caminhar quando ele me “salva” de apanhar boleia do Ramiro [risos]. E nós vamo-nos aproximando de uma forma muito inocente, quando ainda não nos conhecemos muito bem. 

No início, não percebemos bem qual será o papel da Carolina na história. Se será muito relevante ou se vai ser mais acessória para dar contexto sobre aquela época — porque ela também tem muito esse lado. Mas ao longo dos episódios vai ganhando uma relevância cada vez maior. Como foi para si, mesmo antes das gravações, compreender que personagem era esta?
Quando li o guião, fiquei muito surpresa. Não conseguia parar de ler, porque estava mesmo entusiasmada e envolvida com as diferentes personagens, a trama, e o contexto histórico. Apesar de conhecer a época, este lado muito específico da situação na RARET deixou-me muito espantada e curiosa. O Tiago já me tinha dito que ela não é uma personagem típica de rapariga do campo, de origem humilde, sonhadora e inocente. No caso da Carolina, apesar de ser sonhadora e ambiciosa, tem um lado que não é nada inocente. É muito terra a terra. Apesar de ser uma rapariga que se lança e que segue um pouco as intuições, mesmo o facto de ir com o João ao mar, de lhe dar espaço para entrar na vida dela, ela não é propriamente só deixar-se encantar. Tem muita noção das coisas e escolhe: não se deixa ir só. Porque ela quer viver de outra forma, sente esse impulso. Isso esteve sempre implícito e era mesmo interessante, porque a personagem não é só uma coisa. O público pode achar no início que é uma rapariga do campo, mas depois as diferentes camadas vão-se revelando e isso faz-nos pensar porque é que assumimos que uma pessoa é só aquilo. A personagem do João também demonstra isso, essas diferentes camadas de identidade. E isso atraiu-me muito. 

Para si qual foi o maior desafio em fazer esta personagem?
Cada vez que surge um novo projeto, o que me fascina é o desbravamento, a descoberta. É sempre um universo surpreendente, que nos provoca respostas diferentes, e é isso que me fascina e me faz procurar criadores diferentes. Neste caso tinha muita vontade de trabalhar com o Tiago, porque o admiro imenso. Mesmo antes de saber que era para a Netflix, soube que era com o Tiago e nem pensei duas vezes. Para mim estar à altura ou corresponder à visão dele e de toda uma equipa muito talentosa e trabalhadora, acho que foi um dos maiores desafios.

A história da RARET é muito pouco conhecida. De que é que gostou mais em relação à narrativa e contexto histórico?
A grande disparidade de vivências, conhecimento, a abertura ao mundo… É um contexto geopolítico muito específico. No meio do nada, num país que vive sob uma ditadura, em que todos os jovens ou estão a fugir ou a ser obrigados a ir para a guerra, com uma polícia política brutal, num ambiente de grande secretismo, porque ninguém podia confiar em ninguém. A mulher sobre explorada — todos sem liberdade, mas a mulher ainda mais. Está ali implantado aquilo que parece quase uma nave espacial, um lugar de conexão para o resto do mundo, neste caso as maiores forças políticas — a ex-União Soviética e os Estados Unidos da América, o mundo do comunismo e do capitalismo, que têm visões completamente antagónicas mas também muito panfletárias. Trazem estas pessoas de diferentes lugares do mundo para esse sítio no meio do nada, ao lado de pessoas que não fazem a mínima ideia do que se está ali a passar. E esse encontro entre a completa inocência e os dois mundos politizados, naquele deserto, é extraordinário, é uma combinação explosiva. E ser em Portugal, e nós estarmos todos ignorantes sobre este facto…  Se não fosse real, diria que seria uma ficção muito bem criada. 

Quando descobriu que seria uma produção da Netflix, qual foi a sua reação?
Curiosamente, não estava a encaixar muito bem. Primeiro nem sabia que era para os 190 países da Netflix — pensei que seria um conteúdo específico para a plataforma em Portugal. Quando me apercebi da dimensão, fiquei por um lado muito feliz, e por outro não parecia bem real… Será mesmo que vai acontecer? Era tão surreal, como era a primeira vez. Não encaixas totalmente. E nas gravações não estás a pensar nisso. Mas claro que isso já se sentia na forma como trabalhámos, no tempo, no dinheiro, na qualidade. Mas esta coisa da assinatura Netflix só percebes realmente quando estreia, vai para todo o lado e é super bem promovido… 

Também receberam feedback de espectadores estrangeiros?
Recebi algumas mensagens de pessoas de outras nacionalidades, sim, a parabenizar-nos. Claro que também não tenho assim uma persona social muito ativa. Mesmo nas redes sociais, como nunca fiz muita televisão, estou numa linha mais underground, faço menos parte do establishment… 

Suponho que o facto de trabalhar sobretudo em teatro também seja sobretudo por gosto.
Sim, o percurso vai-se fazendo… Estudei teatro no Porto, fiz um semestre em Lisboa, depois fui um ano para Paris. Regressei e comecei a trabalhar em produções no Porto com o Nuno Cardoso, muitas vezes no Teatro Nacional de São João. A seguir fui para Lisboa, estive a trabalhar com o Marco Martins e a Beatriz Batarda. Um convite chama outro convite, e tenho muito interesse em trabalhar em teatro. É o lugar de onde parto e que me alimenta ferozmente — onde o meu imaginário é levado ao limite. Porque há um tempo e um espaço no presente que permite a ebulição. No entanto, também tive participações em cinema e televisão. O cinema sempre me atraiu, adoro-o. E há séries que são mais próximas do cinema do que da televisão que às vezes conhecemos cá em Portugal, porque lá fora é diferente. A telenovela se calhar é um registo menos artístico…

Se calhar não lhe diz tanto.
Sim, claro que depende dos projetos e das equipas, mas em geral tenho feito o meu percurso pelo teatro e nestes encontros que vou tendo, muito espantosos, em cinema e séries. 

“Glória” acaba com um final em aberto. Suponho que vocês gostavam muito de poder continuar esta história… Foi algo que esteve sempre presente durante as gravações?
Sim. Mas claro que sabíamos que dependeria não só do resultado final, ou seja, da forma como se iria conjugar tudo aquilo que tinha sido filmado na pós-produção; mas também tem que ver com a receção. Por um lado, Portugal é realmente o nosso mercado. Se não tiver um reflexo em Portugal, será difícil que tenha noutros lugares. Da parte da Netflix, não sei se estão a aguardar para sentir o retorno e a receção. Acho que vai depender também dos números. Mas uma coisa de que fomos falando foi que havia essa possibilidade e que a Netflix estaria eventualmente interessada em prosseguir com esta história. Até porque o final é muito em suspense, as pessoas ficam intrigadas.

Deixa pontas soltas, perguntas que ainda não têm resposta. O que acha que a Carolina haveria de fazer numa segunda temporada?
Não sei o que vai sair da cabeça do Pedro Lopes [risos]. Neste final, ela está com o Fernando. Tem uma grande culpa que carrega, pela suposta traição, mesmo achando que ele estava morto. Quando o Fernando regressa, não pode abandoná-lo. É uma rapariga com princípios. Pode até ser dúbio, há uma fase em que parece que anda com outro, mas aquilo foi claro, ela não deu lugar aos sentimentos, não permitiu que aquilo avançasse. A partir do momento em que se casa, é fiel ao Fernando, só que entretanto, ele morrendo, ela acaba por se envolver com uma paixão que é mais forte do que ela. Mas que, apesar de tudo, ela conseguiu conter até então. E o facto de o Fernando vir aleijado… Quando ele lhe diz “se tu me deixas, eu mato-me”. Naquele momento ela está com ele. Mas nós não vimos o que está escrito naquele papel que ela recebe da parte do João. E isso pode ser muita coisa. Pode ser um “vamo-nos encontrar aqui”, “adeus”, “vou voltar”, “espera por mim”, pode ser muita coisa. Mas acho que ela, apesar de ter ficado naquele momento com o Fernando, não consegue ficar ali mais tempo na Glória. Tem uma necessidade de fuga muito grande. Ela diz ao João “só quero que me leves daqui”. Porque ela já não aguenta, está a asfixiar naquele lugar, sonha com outro mundo. E ver o mar para ela foi: o mar existe, o que sempre sonhei existe. Há outras coisas que hão-de existir. E depois de ver o mar ela sabe que há muito mais, não quer viver só por ali. Tem essa culpa que a prende ao Fernando, gostava dele, mas depois tornou-se uma relação um bocado estagnada. E ele gosta mais dela do que ela dele. Ela gosta como amigo. E se calhar é o que é esperado dela. Porque a família trabalha no campo, os pais dele já têm uma taberna. É uma pequena subida social. Os pais também a empurram para esse casamento porque não acreditam numa coisa melhor para ela. Eu, Carolina, desejaria à Carolina que furasse aquele lugar. Acho que não há uma grande solução conciliadora, por parte do Fernando, mas independentemente do João, que não sabemos o que é que lhe disse ou o que aconteceu naquele moinho, ela tem de sair dali ou arranjar uma maneira de não ficar presa àquela realidade. Ela é mais forte do que aquilo.

Leia também a crítica da NiT a “Glória”.

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