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César Mourão explica porque quis realizar um documentário sobre a vida de Paulo Futre

“Futre - O Primeiro Português” é uma série documental que estreia esta quinta-feira. A história do craque tem 6 episódios.
César Mourão é o realizador do projeto.

Muito antes de Cristiano Ronaldo, e da geração de Luís Figo e Rui Costa, houve um jogador português que se destacou no futebol moderno — depois de Eusébio ter brilhado nos anos 60. O seu nome é Paulo Futre e muitos acreditam que nunca teve o reconhecimento merecido.

No ano de 1987, Futre foi campeão português pelo Porto e ganhou a Liga dos Campeões, a primeira da história do clube. A seguir, foi contratado pelo Atlético Madrid, naquela que foi a segunda transferência mais cara do mundo. O português era favorito à Bola de Ouro, mas o título acabou por ir para o holandês Ruud Gullit. 

Foi esta “injustiça” que motivou César Mourão — e a sua nova produtora 313 — a querer fazer um documentário que valorizasse e contasse a história do craque português. “Futre – O Primeiro Português” é uma série documental de seis episódios que estreia na Opto, a plataforma de streaming da SIC, esta quinta-feira, 10 de fevereiro. O primeiro capítulo já se encontra disponível — todas as semanas vai chegar um novo ao catálogo, com cerca de 45 minutos.

“A ideia que tinha de fazer um documentário sobre o Paulo Futre já tem algum tempo”, explica César Mourão à NiT. “Porque achava que havia uma injustiça em relação à carreira que o Futre teve, perante o génio futebolístico que ele era. Propus-lhe, ele adorou a ideia, e fizemos o documentário”, acrescenta o realizador do projeto.

Humorista, apresentador, ator, produtor, realizador e guionista — além de potencial futuro músico —  César Mourão cresceu a ver jogar Paulo Futre e a ouvir falar do seu talento. 

“Como grande sportinguista que sou, sempre tive muita vaidade nos jogadores formados no Sporting. E o Futre era uma das nossas bandeiras de há muitos anos. Sempre ouvi o meu avô dizer isso. Ficámos com uma grande mágoa quando o Futre trocou o Sporting pelo Porto e mais tarde vem também a representar o Benfica. Ficou uma mágoa nos adeptos do Sporting e essa era a ligação que eu tinha.”

Quando Paulo Futre se mudou para o Atlético Madrid, perdeu-se alguma ligação entre o futebolista e o público português. Na altura, os jogos da liga espanhola não eram transmitidos na televisão nacional. “Víamos só os resumos ao domingo. Mas lembro-me perfeitamente de assistir à Liga dos Campeões e de o ver jogar em Portugal.”

A tal “injustiça”, e alegada falta de reconhecimento, também foi motivada por este distanciamento fruto das circunstâncias. “Ele leva o Atlético de Madrid, sendo um clube mais pequeno, a conseguir feitos como a Taça do Rei. Nunca foram campeões, porque havia uma grande diferença em relação ao Real Madrid e ao Barcelona daquela altura. Mas o Atlético Madrid só contava porque tinha um jogador como o Paulo Futre. Depois, também terminou a carreira muito cedo, digamos assim — a carreira propriamente dita. Porque ainda voltou ao Atlético Madrid, esteve no Marselha, no AC Milão, mas já não foi com o mesmo fulgor devido a lesões. Penso que talvez exista… em Portugal conhece-se o Futre pelo Porsche amarelo e pelos chineses e não pelo que realmente representou — foi o primeiro jogador português a ter realmente sucesso no estrangeiro.” Daí o título da série documental.

César Mourão conta que uma das coisas que mais o surpreenderam ao dirigir o documentário foi a história sobre o serviço militar de Paulo Futre. “Ele vai para o Atlético Madrid e estava com incumprimento militar. E é quase proibido de estar em Espanha — tinha de voltar para Portugal. Foi realmente uma catástrofe para o Atlético Madrid. E tudo o que aconteceu até realmente conseguir não fazer o serviço militar é uma história de que não fazia ideia. Fiquei surpreendido com a garra que teve para continuar a carreira.”

O projeto demorou pouco mais de um ano a ser concretizado. Conta com inúmeros entrevistados de renome, entre os quais José Mourinho, Luís Figo, Pinto da Costa, Rui Costa, João Félix, Dani, Jorge Mendes ou Fernando Gomes. Os nomes internacionais Fernando Torres, Rio Ferdinand, Florentino Pérez ou Emilio Butragueño são outros que dão o seu testemunho sobre o futebolista. Além, claro, do próprio Paulo Futre.

“Não foi muito fácil. Obviamente que o nome Paulo Futre abre muitas portas. E temos a sorte de ter outros nomes em Portugal que nos ajudaram. Nomeadamente o Jorge Mendes, que nos deu alguns contactos. As agendas também são complicadas, porque estamos a falar de pessoas que ou foram grandes estrelas de futebol ou ainda são. Portanto, foi muito difícil reunir toda esta gente num documentário. Mas conseguimos. Foram muitas viagens, muitos contratempos, chegar a Inglaterra e a Itália ainda sem ninguém confirmado a 100 por cento. Faz parte. Diria que 95 por cento dos nomes que nos propusemos entrevistar, conseguimos.”

Quem ficou de fora foi precisamente Ruud Gullit. O primeiro episódio da série documental centra-se na tal Bola de Ouro que Futre não ganhou — a narrativa parte daí. César Mourão e companhia tentaram entrevistar o antigo futebolista holandês para dar a sua perspetiva, mas Gullit recusou. “Não quis participar, nem falar sobre isso. E referimos isso no documentário. Até nos dá mais razão.”

Depois, os restantes episódios contam a história de Paulo Futre de forma cronológica, desde a sua formação no Sporting até se tornar diretor desportivo. “Percebemos logo, pela vida do Paulo, que não seria fácil contar tudo num episódio só — mesmo que fosse de longa duração. Há ali muita coisa, muito material. Também temos a sorte de o Futre ter muitos registos da sua história. Temos muitas imagens daquela altura, do final dos anos 80.”

César Mourão conta ainda que, desde o início, Paulo Futre mostrou-se muito disponível — ainda que tivesse uma visão distinta para a série documental. “Foi surpreendido com parte da nossa visão. Por exemplo, o lado mais familiar dele, que pouca gente conhece. Não esperava explorar tanto isso, mas depois ficou muito satisfeito com o resultado. Fomos trabalhando em conjunto, às vezes foi mais fácil, outras vezes menos.” Afinal, é sempre um desafio quando se faz algo em conjunto com a pessoa que é o objeto do projeto.

Os futuros projetos de César Mourão

Quando, em setembro do ano passado, foi anunciado o lançamento da produtora 313 (de César Mourão e Diogo Brito), foram mencionados dois projetos. O primeiro é este documentário sobre Paulo Futre, o segundo é uma série de ficção thriller que só vai chegar no próximo ano. César Mourão adianta à NiT que a história se vai centrar num serial killer — e que a narrativa se irá dividir entre Portugal e Espanha, na atualidade. A produção vai ser gravada este ano e terá oito episódios. A mesma produtora está a trabalhar noutra série, para estrear daqui a dois anos. César Mourão vai ser produtor, autor da ideia original e guionista de ambos os projetos.

Além disso, está a preparar outra produção — esta sem o envolvimento da 313 — para a Opto. “Foi uma coincidência porque houve uma marca que quis fazer uma série, entretanto essa marca associou-se à Opto e à SIC. Queriam trabalhar comigo e aconteceu assim. É uma série de humor, passada no Porto, ainda não temos data de estreia. Também tem um conceito muito específico.”

Está a ser ainda equacionada a hipótese de haver uma segunda temporada de “Esperança”, a série da Opto em que César Mourão interpreta uma idosa de um típico bairro lisboeta. “Ainda não sabemos, porque envolve muita coisa. Envolve transformação, muita dedicação.”

O criativo admite que se vê, no futuro, a explorar o lado com menor exposição. “Gostava de fazer cada vez mais trabalhos atrás das câmaras. A realização sempre me fascinou, mas não tenho grandes planos para que isso aconteça desta maneira ou daquela. Vou aceitando desafios com que me identifique e que queira muito fazer.”

Isso não significa, necessariamente, que de seguida façam mais documentários como este sobre Paulo Futre. “Não tenho esse objetivo. Este documentário surgiu, mas mais não sabemos. Estamos completamente abertos a produzir outros documentários, seja de futebol ou não — é um formato que nos agrada— mas não temos esse objetivo específico.”

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