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Chuck Norris sobreviveu a tudo. Aos 84 anos continua a treinar como uma máquina

Ultrapassou a guerra, traumas familiares e a doença da mulher. Continua em forma e prepara-se para lançar um novo filme.
Quase 40 separam estas duas fotos.

“As lágrimas de Chuck Norris curam o cancro, é pena que nunca tenha chorado.” A frase circula na Internet há décadas, colada à figura de durão do ator já octogenário. É verdade: o eterno Texas Ranger acaba de fazer 84 anos e, cumprindo todas as expectativas, continua a treinar.

Embora muitas frases e memes que circulam nas redes sociais há mais de uma década afirmem o contrário, o próprio assegura que não é, nem nunca foi, uma pessoa agressiva. Bem pelo contrário. “Quando era mais novo era extremamente tímido e introvertido — e não era nada atlético”, assegurou em entrevista à “The Christian Broadcasting Network”. E, sim, também chora, algo que os fãs puderam confirmar nos dois episódios de “Walker, Texas Ranger” onde Haley Joel Osment interpreta um miúdo que acaba por morrer de SIDA.

A fama de durão reflete a vida pessoal trágica de Norris, filho de um veterano da Segunda Guerra Mundial e de uma cristã devota, fé que o ator também abraçou. O irmão mais novo morreu no Vietname, conflito no qual também participou. Chuck alistou-se na Força Aérea em 1958, logo após o ensino secundário, para tentar escapar às suas circunstâncias. A família vivia numa zona rural e muito pobre no estado de Oklahoma, nos EUA, e não tinha grandes perspetivas de futuro.

O pai, Ray Norris, foi convocado para a Segunda Guerra Mundial pouco tempo depois do nascimento de Wieland, irmão mais novo do futuro ator. Na autobiografia “Against All Odds: My Story”, de 2004, Norris relata que o progenitor chegou a ser declarado “desaparecido em combate”, algo que o afetou profundamente e desestabilizou a família.

Quando regressou do conflito, os problemas de Ray com o álcool agravaram-se: tornou-se cada vez mais agressivo com Wilma Scarberry (a mulher) e com os filhos e atropelou fatalmente uma mulher. Estava alcoolizado e acabou por ser condenado pelo acidente mortal, tendo cumprido pena num campo de trabalhos forçados.

De volta ao seio familiar, perdeu-se novamente na bebida e agrediu a mulher e mãe de Norris. A agressão levou o filho a intervir e a ameaçá-lo com um martelo. “Felizmente, estava demasiado bêbado para m levar a minha ameaça a sério”, escreveu na autobiografia. Após o episódio, Ray abandonou Wilma e os três filhos (Norris, Wieland e Aaron, que havia nascido entretanto), que acabaram por se mudar para a Califórnia.

Descobriu as artes marciais na base aérea de Osan, na Coreia do Sul, onde ficou colocado. Começou por treinar judo e, mais tarde, descobriu um estúdio onde era ensinado Tang Soo So, uma arte marcial coreana semelhante ao karaté. Daí em diante, nunca mais deixou de praticar artes marciais e dominou várias, como o taekwondo e o jiu-jitsu.

Quando deixou a Força Aérea, na década de 1960, tornou-se instrutor de karaté e abriu uma rede de escolas na região de Los Angeles, onde deu aulas a vários alunos famosos como o ator Steve McQueen e o filho Chad; Bob Barker (apresentador de televisão); Priscilla Presley (mulher de Elvis) e o casal de cantores Donny e Marie Osmond. A aproximação a Hollywood aconteceu graças às artes marciais.

Aliás, foi no circuito competitivo — Norris sagrou-se campeão profissional de karaté em 1968, título que manteve por seis anos consecutivos — que conheceu Bruce Lee, com quem treinou e de quem se tornou amigo. A morte precoce do ator foi apenas um dos momentos que o marcaram, contou na autobiografia onde refere também a perda trágica do irmão, de Steve McQueen, Dan Blocker, Michael Landon, Robert Urich e Lee Atwater.

Atwater foi vítima de cancro no cérebro. O antigo diretor de campanha do antigo presidente dos EUA, George H. Bush, tinha apenas 40 anos e Norris ficou especialmente afetado. “Beijei-o na testa e deixei rapidamente o quarto [do hospital onde Atwater estava internado], lutando desesperadamente para segurar o choro. Quando cheguei ao carro explodi em lágrimas. Sentei-me ao volante e fartei-me de chorar”, escreveu.

A impressionante sequência de vários minutos de luta contra Lee no clássico “A Fúria do Dragão”, de 1972, ficou na memória de todos e abriu-lhe portas no mundo do cinema. Apesar de ter começado como “mau da fita”, rapidamente passou para o outro lado da barricada. Afinal, em plena época dourada dos filmes de ação, reinavam os personagens unidimensionais e o mundo estava claramente dividido entre o mal e o bem.

Nos anos seguintes, protagonizou vários sucessos de bilheteira como “Desaparecido em Combate” (que teve direito a duas sequelas) ou “Força Delta” (que também teve continuação). No princípio da década de 90, afastou-se do grande ecrã e pegou no chapéu de cowboy. Passou a aplicar os golpes de artes marciais — sem descalçar as botas texanas, claro — na televisão. 

“Walker, o Ranger do Texas” estreou em 1993 no canal norte-americano CBS e prolongou-se até 2001. Por cá, foi exibida na RTP1 e, em 2021, passou a integrar a grelha da RTP Memória. Contas feitas, esteve no ar durante nove temporadas e teve uns impressionantes 196 episódios. A história relatava a investigação de vários casos de crime na cidade de Dallas e noutros locais do estado do Texas.

No auge do sucesso televisivo, resolveu fazer uma breve pausa na carreira. A sua segunda mulher, Gena O’Kelley, estava grávida com os gémeos Dakota e Danilee, e decidiu dedicar-se à família. Por um lado, Gena vivia uma gravidez complicada, por outro, Norris não queria repetir erros do passado. Durante o primeiro casamento com Dianne Holechek (antiga colega de escola com quem teve dois filhos, Mike e Eric) teve um relacionamento extraconjugal do qual nasceu Dina DeCioli, que só conheceu quando esta o procurou, já adulta.

Católico devoto, Norris nunca se libertou da culpa de ter tido uma relação fora do casamento com Holechek (que durou 30 anos) nem de ter sido um pai ausente, embora não soubesse da existência da filha. 

Em 2004 voltou ao cinema, na comédia “Dodgeball: A True Underdog Story”, com Vince Vaughn e Ben Stiller e publicou a sua autobiografia. Seguiram-se vários outros livros (no total já assinou nove), incluindo o “The Official Chuck Norris Fact Book: 101 of Chuck’s Favorite Facts and Stories” (2009) que inclui algumas das máximas que o tornaram uma espécie de lenda da Internet.

O ator — que está a trabalhar num novo filme — não surge numa produção de ação desde 2012, quando participou em “Os Mercenários 2 ao lado de outras estrelas de ação dos anos 80 e 90 como Sylvester Stallone, Dolph Lundgren, Jet Li, Bruce Willis, Jean-Claude Van Damme e Arnold Schwarzenegger.

Pelo meio, em 2017, foi obrigado a fazer outro interregno para apoiar a mulher. “Nos últimos anos, o meu foco tem sido a saúde de Gena. E agora estamos empenhados em dar a conhecer os perigos dos agentes de contraste usados para fazer ressonâncias magnéticas”, declarou, na altura, ao “The Washington Post”.

Gena desenvolveu uma condição originada pelo gadolínio, um metal presente no contraste utilizado para exames de ressonância magnética. Os problemas começaram após ter realizado um exame para investigar uma possível artrite reumatoide: passou a sentir dormência, tremores e dificuldade para formar frases. 

O casal acredita que os sintomas se devem a um possível envenenamento. Gena esteve internada inúmeras vezes e foi submetida a vários tratamentos para reparar o sistema nervoso central. Gastaram quase dois milhões de euros em médicos e terapias, revelaram em entrevista à “CBS”.

Estava a vê-la morrer à minha frente e ninguém fazia nada, ninguém a conseguia ajudar”, recordou Norris, acrescentando que existiam outras pessoas que haviam sido diagnosticadas com doenças relacionadas a exposição ao gadolínio. Pouco depois, avançaram com uma ação judicial contra as empresas que fabricavam o contraste, onde exigiam cerca de 9, 2 milhões de indemnização. O processo não chegou à barra dos tribunais: a queixa foi retirada voluntariamente e, tanto quanto se sabe, não foi acertado qualquer acordo entre as partes.
 
Agora, volvidos seis anos, a vida familiar e pessoal do octogenário parece estar a atravessar um momento mais tranquilo. O ator acabou de chegar aos 84. Ou melhor, os 84 é que chegaram até Norris. E trouxeram uma novidade: um dos durões mais famosos do cinema está de volta. Em bom rigor, Chuck (o diminutivo de Carlos Ray que ganhou na Força Aérea) nunca foi verdadeiramente embora. No entanto, dada a sua provecta idade, poder-se-ia pensar que os dias de treino ficaram para trás. Nem por isso: continua a praticar golpes como se fosse um trintão. 
 
No dia do aniversário, partilhou um vídeo no Instagram onde prova que continua em forma — e a lutar. “Sinto-me bem e continuo ativo”, escreveu na legenda da publicação, onde surge aos socos a um saco de boxe. “Hoje faço 84 anos, mas sinto que tenho 48”, afirma no final da sequência.
 
 
 
 
 
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E, em breve, vamos poder vê-lo novamente em ação no grande ecrã. Em dezembro de 2023 partilhou várias fotos das gravações de “Agente Recon”, onde interpreta um personagem chamado Capitão Alastair. Embora ainda não haja muita informação sobre a trama, o ator já revelou que o filme marca o seu regresso à ação ao lado de Derek Ting (um dos protagonistas que também assume o cargo de realizador) e Marc Singer. A produção deverá estrear em 2025.

“Aqui estão algumas fotos de uma das minhas cenas de luta coreografadas pelo meu filho, Dakota. Mal posso esperar para verem o resultado. Fiquem atentos”, acrescentou no Instagram. 

 Ao que parece, Norris irá continuar a manter (e a alimentar) o seu estatuto como protagonista de inúmeras compilações de alguns dos melhores memes e piadas da cultura pop das últimas décadas. 

Carregue na galeria para ver as primeiras imagens do ator durante as gravações de “Agente Recon”.  

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