Encontrar uma verdadeira “pérola do cinema” na programação televisiva exige uma mistura de paciência, curiosidade e vontade de experimentar algo diferente sem sair do sofá. Num mar de conteúdos repetitivos, estes filmes surgem frequentemente em canais de nicho, que privilegiam o cinema de autor, obras independentes ou clássicos restaurados que fogem ao circuito comercial óbvio.
O prazer de tropeçar em filmes como “Ingrid vai para o Oeste” num sábado à noite reside na surpresa: a televisão linear, ao contrário do algoritmo previsível do streaming, ainda mantém a capacidade de nos apresentar histórias que não sabíamos que queríamos ver.
O ato de fazer zapping transforma-se numa autêntica caça ao tesouro cinematográfico e, entre as relíquias que pode encontrar este fim de semana, estão duas comédias que resgatam a mística de ver um filme “em direto”.
Embora separados por quase um século de contexto histórico e estéticas visuais opostas, “Irmão, Onde Estás” (2000) e “Ingrid vai para o Oeste” (2017) partilham uma estrutura narrativa fundamental: a odisseia de um protagonista em busca de uma identidade fabricada, num mundo onde a perceção vale mais do que a realidade.
Ambas as comédias utilizam a sátira para explorar a obsessão humana pela imagem e pela validação social, seja através da música bluegrass na era da Grande Depressão ou dos filtros do Instagram na Los Angeles contemporânea.
No clássico dos irmãos Coen, Everett Ulysses McGill (George Clooney) é um homem movido pela vaidade e pela retórica. A sua obsessão com o creme de cabelo “Dapper Dan” não é apenas um detalhe cómico; é o seu último reduto de dignidade e a sua tentativa de manter uma imagem de civilidade e superioridade num mundo poeirento e caótico.
Everett foge da prisão em busca da liberdade, mas também para recuperar uma vida doméstica que idealizou, tal como Ulisses na “Odisseia”. Contudo, o “tesouro” que procura é apenas uma ficção que utiliza para manipular os companheiros de fuga, Delmar e Pete.
Em paralelo, temos a protagonista de “Ingrid vai para o Oeste”. Ingrid Thorburn (Aubrey Plaza) é a versão moderna, digital e patológica de Everett. Se o personagem dos Coen procura o “Dapper Dan” para se sentir completo, Ingrid procura o estilo de vida de Taylor Sloane (Elizabeth Olsen). A sua odisseia é geográfica — uma mudança para o Oeste — mas, acima de tudo, é uma jornada de mimetismo.
Ingrid não quer apenas ser amiga de Taylor; quer ser a própria Taylor. Consome os mesmos produtos, visita os mesmos locais e adota a mesma estética boho chic para construir uma identidade que só existe através da lente de um smartphone.
Ambos os filmes lidam com a ascensão acidental ao estrelato. Em “Irmão”, o trio torna-se um fenómeno musical, sem nunca terem visto o seu público. Quando formam os Soggy Bottom Boys descobrem que a sua fama é uma ferramenta política que pode ser usada tanto para a redenção como para a exploração. Em “Ingrid”, a fama é o objetivo final, mas revela-se uma armadilha de solidão.
A ironia é que tanto Everett como Ingrid são mentirosos compulsivos que acabam por encontrar uma forma de verdade através das suas mentiras: Everett descobre a importância da lealdade aos seus amigos, enquanto Ingrid, no seu momento mais sombrio, encontra a validação que tanto procurava, ironicamente, através de um post sobre o seu próprio colapso.
Esteticamente, ambos os filmes utilizam a cor para reforçar estas ilusões. Os Coen retratam o Mississípi com um tom sépia digital, criando uma nostalgia artificial por uma era que nunca foi assim tão dourada.
Matt Spicer, em “Ingrid”, utiliza uma paleta saturada e brilhante que replica os filtros das redes sociais, transformando Los Angeles num mega cenário de um catálogo de vendas. Em última análise, as duas obras funcionam como espelhos de épocas distintas, mas focadas na fragilidade humana. Seja através de um rádio antigo ou de um ecrã tátil, há quem nunca deixe de perseguir o mito da vida perfeita.
Carregue na galeria para descobrir outros filmes para ver este fim de semana na TV, que incluem suspense psicológico em português, uma epopeia do Império Romano e Ethan Hawke como assassino em série.

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