Televisão

Como César Mourão se transformou em “Esperança”, a idosa mais popular do momento

Um especialista argentino, que tinha tornando Javier Bardem em Pablo Escobar, criou a protagonista da nova série da SIC.
Todos os dias demorava três horas a ficar assim.

Foi líder de audiências quando estreou a 19 de dezembro na SIC. Agora, para ver os restantes episódios tem de ir até à Opto, a plataforma de streaming lançada recentemente pela estação de televisão de Paço de Arcos.

Falamos de “Esperança”, série realizada e escrita por Pedro Varela que tem César Mourão como figura central. O ator, comediante e apresentador interpreta a protagonista da história, que dá o título ao projeto.

É uma idosa que vive num bairro histórico de Lisboa, cada vez mais distante da família e também dos amigos — que ou morrem ou vendem as velhas casas para se tornarem alojamentos locais.

“Esperança” é uma comédia dramática, ou um drama com muitos momentos cómicos, e o primeiro episódio foi um especial de Natal. É popular, como tantas outras personagens do género que fez ao longo dos anos, mas de qualidade superior, com uma grande atenção ao detalhe e uma maior profundidade. E é em simultâneo uma homenagem e uma sátira às mulheres idosas e aos seus costumes.

O que mais tem impressionado o público é a caracterização de César Mourão — todos os dias antes das gravações demorava três horas até estar pronto para começar a representar. O responsável pelas próteses usadas pelo protagonista é Fito Dellibarda, especialista argentino, radicado em Espanha, que trabalhou com Javier Bardem em “Amar Pablo, Odiar Escobar”. Leia a entrevista da NiT com César Mourão.

Sei que a origem de “Esperança” é a peça de teatro que fez com Frederico Pombares há alguns anos. Mas quando e como é que perceberam que esta personagem merecia um projeto maior e que este seria o formato certo?
Desde a altura do monólogo que fiz no Trindade, quando eu e o Frederico Pombares escrevemos a peça, que gostávamos de a passar para televisão ou cinema. Mas sabíamos da empreitada que seria, porque é uma transformação complicada. Em teatro é muito mais simples porque é muito mais ao longe, com a plateia, mas em televisão vamos ao pormenor e seria muito mais complicado. Portanto, foi quase um ato de coragem. Fui-me mentalizando que tinha de fazer e demorou estes anos até me mentalizar.

Em relação ao texto, muito do que existia no teatro também está presente na série?
É muito diferente, mas tem alguma coisa do texto, sim. Retirámos alguns excertos, muito poucos, e no fundo a essência da peça passa um bocadinho para aqui, mas este é um conceito muito mais alargado e dá vida a mais personagens. Conseguimos ver a família da Esperança. Ela no teatro está hospitalizada durante a peça toda e aqui não, é uma senhora com muito mais vida. Mas essa transformação foi realmente o que mais nos dificultou e é por isso que demorou tanto tempo até chegarmos a esta fase.

A série tem 12 episódios.

Podemos dizer que a personagem é a mesma, no teatro e na televisão, ou também ela mudou?
Não é a mesma. É baseada no mesmo princípio — que na verdade é uma soma de várias senhoras daquela idade que eu fui colecionando ao longo da vida, e coisas que me ficam na memória. E deram origem à Esperança. Não é exatamente igual ao teatro, no fundo é a mesma base mas com outros pormenores. É uma personagem na qual quase toda a gente se vai rever, ou porque tem uma tia, uma mãe, uma ama, uma cuidadora.

Como estava a dizer, ao longo dos anos tem interpretado várias mulheres desta idade. De que é que gosta mais neste tipo de personagens?
Isto foi meio sem querer. Eu já tinha feito algumas personagens desta idade, por brincadeira, e em 2007 no programa do Herman José, o “Hora H”, interpretei uma velha deste género e o Herman por brincadeira dizia “é melhor do que a própria velha, a melhor velha é a do Mourão, tudo o que houver de velhas faz o Mourão”. E de repente eu sabia que aquela personagem era forte. Não sei bem porquê, identifico-me com muita coisa da personagem, mas ao mesmo tempo ela está muito distante do que eu sou, obviamente. Mas ando há tantos anos a lidar com pessoas de mais idade, e normalmente essas pessoas estão sempre tão esquecidas e tão ostracizadas, e muitas vezes são elas que têm a sabedoria e às vezes com gestos simples são elas que têm a solução para tudo. Há uma música do Miguel Araújo, que fez a banda sonora toda para a série, que é “As Velhas que Cosem as Meias dos Netos”. Ou seja, tudo pode acontecer, os netos vão salvar o mundo ou são cientistas, mas têm sempre que ter as meias em boas condições, não podem estar descosidas [risos]. E eu acho piada a esse lado de as senhoras terem solução para tudo. Basicamente peguei nisso e fiz a peça de teatro e agora a série.

Há senhoras específicas que tenham servido de inspiração para estas personagens que tem feito, e para a Esperança também?
As minhas duas avós são sem dúvida… A maior percentagem da Esperança vem das minhas avós. E depois há tantas outras senhoras ali das Avenidas Novas, onde morei muitos anos. Lembro-me de ir tomar café ao Carcassonne ou à Biarritz e de ver muitas destas senhoras em conversas umas com as outras e foi-me ficando. É uma soma delas todas, uma coletânea.

Obviamente, um dos elementos mais importantes nesta série é a caracterização da personagem. Sei que trabalharam com o Fito Dellibarda, um especialista argentino que vive e trabalha em Espanha. Porque é que quiseram trabalhar com ele? Houve alguma razão concreta?
Normalmente a pessoa com quem trabalho é o Sérgio Alfredo. Mas isto é uma técnica mais específica, tem a ver com próteses de silicone — uma coisa que em Portugal ainda não é feita — e quando fomos ver quem é que poderia estar aqui perto descobrimos o Fito, porque ele tinha feito o Javier Bardem enquanto Escobar e nós adorámos o trabalho dele e fizemos o convite. Achámos, obviamente, que ele não poderia ou não iria aceitar. E aceitou de imediato, até porque queria vir para Portugal, queria estar uns tempos em Lisboa. A pandemia também ajudou porque em Madrid estava assustadoramente pior. Então ele juntou o útil ao agradável e veio para Lisboa. Para nós foi um prazer gigantesco, embora tenha sido muito desgastante. Estamos a falar de três horas diárias de caracterização, mais uma hora para descaracterizar. São quatro horas por dia, o que também pesa no orçamento, claro. Foi um mês e duas semanas de gravações.

A partir do trabalho com ele, como é que chegaram à caracterização específica para a Esperança?
No início o Fito foi investigar quem eu era, foi ver fotos minhas. Depois fizemos um trabalho aqui em Portugal de levantamento do meu rosto em três dimensões e enviámos para Espanha. E em Espanha ele trabalhou as próteses da forma como ele achava que o meu rosto iria parecer-se mais com uma senhora idosa. E foram todas feitas lá, à medida. Depois foi chegar cá e executar, tivemos um dia de provas e tivemos a sorte de estar tudo muito certinho em termos de medições. Afinámos os óculos, definimos como ia ser o cabelo, porque não é nenhuma peruca, aquele é mesmo o meu cabelo, que tive de descolorar e pintar, etc. Deu um trabalhão. Mas era muito mais real. 

Esperança é uma idosa que vive sozinha com um gato.

Usar as próteses para parecer uma senhora idosa, que é muito diferente daquilo que fez no passado com papéis deste tipo, ajuda a entrar no espírito da personagem?
Sim, sem dúvida. Talvez não seja isso que seja realmente o entrar na personagem, mas ajuda muitíssimo. Porque aquilo pesava um quilo. Dá um peso e uma sensação que ajuda logo à personagem. E depois também está muito em mim. Eu já fiz muitas vezes aquela personagem, com que me identifico e tenho alguma facilidade em executar. Mas obviamente que a caracterização ajuda imenso.

Esta série estreou na televisão, na SIC, mas é um produto da plataforma de streaming Opto, onde se podem ver os restantes episódios. Sendo assim, poderá ter diferentes tipos de público. Vocês pensaram para quem estavam a fazer esta série ou isso não é importante?
Não, absolutamente nada. Fizemos uma série da forma como queríamos fazer. Felizmente a direção da SIC confia muito no meu trabalho, não pôs um entrave, não deu opinião, apenas confiou. Obviamente que foi estando a par, mas confiou. E não temos um público-alvo específico. É uma série muito transversal, muito terna — que não acontece há muitos anos na televisão, termos essa sensação de família e ternura em toda a série. Mas depois há muita comédia e um arco dramático muito forte. Não queríamos que fosse só comédia, queríamos que tivesse esse arco dramático sempre presente e conseguimos. 

Uma plataforma como esta permite mais liberdade aos criativos, face à televisão?
Sem dúvida. Na minha opinião é uma proposta muito bem pensada da parte da SIC, é uma pedrada no charco. É realmente uma outra oportunidade de nós podermos fazer conteúdos que muitas vezes na televisão não é possível. E muitas séries virão, tenho a certeza, com qualidade internacional. Porque na televisão muitas vezes os orçamentos não permitem e o público-alvo também não permite, e é um negócio como outro qualquer, mas nesta plataforma acho que vai ser possível arriscarmos mais e fazer melhor.

Qual foi o maior desafio em fazer “Esperança”?
Foi mesmo a caracterização. Porque foi um desgaste extremo — eu estava cansado ao fim da caracterização e ainda não tinha feito absolutamente nada, ainda faltava tudo. São três horas sentado, sem me poder mexer. Logo muito, muito cedo, com acetona e álcool e tudo e mais alguma coisa na cara. Portanto, creio que foi esse o desafio: tínhamos até a dúvida se a pele iria aguentar, com tantas horas. Por exemplo, o Javier Bardem fazia cinco dias de rodagem e dois de pausa. Nós tínhamos um dia de pausa em cada seis. Então estávamos sempre em cima do fio da navalha, mas conseguimos e resultou.

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