Televisão

Como é o programa que brinca com a morte — e que Bruno Nogueira vai trazer para a SIC

Já foi transmitido na Bélgica e na Austrália e é um programa intenso, recheado de lágrimas e gargalhadas, sobre os limites do humor.
A versão australiana teve quatro episódios

“Antes de se preparar para mais uma cirurgia, a Lauren decidiu aprender a falar espanhol, para que quando acordasse, pudesse enganar os pais e eles ficassem a achar que algo de estranho tinha acontecido ao seu cérebro”, conta o comediante australiano Harley Breen perante uma plateia de dezenas de pessoas a explodirem em gargalhadas.

“Curioso, porque durante a operação, o cirurgião danificou-lhe as cordas vocais e ela não conseguia falar. Ela pensou que ia sair da cirurgia a dizer ‘hola, como estas?’, e veio a dizer ‘brraaaah’. ‘Oh meu Deus, ela ficou atrasada’, pensaram os pais.” Mais gargalhadas.

O tema é delicado, mas mesmo assim é alvo de uma série de piadas. Na plateia, o humor é recebido com sorrisos, gargalhadas e palmas. Precisamente na fila da frente estava Lauren, de 28 anos, que combate uma fibrose quística há mais de uma década e que é considerada uma doente terminal. Ao seu lado estavam três outros doentes terminais, ainda novos, alguns pais de crianças pequenas, mas todos eles com cancros em estado avançado. Todos, sem exceção, têm os dias contados e foram precisamente escolhidos por esse motivo.

Foram eles as cobaias e os primeiros quatro convidados de “Taboo”, um programa de humor que estreou em 2019 na televisão australiana — adaptado de um original belga com o mesmo nome — e que procurou abeirar-se das habituais linhas vermelhas impostas aos humoristas. Podemos rir-nos dos doentes terminais? Dos pobres? Dos que sofrem de deficiências mentais? Em todos os casos (e episódios), a resposta é sim.

Foi este o formato escolhido pela SIC e por Bruno Nogueira para vencerem a guerra das audiências televisivas. Sabia-se que o ator e humorista estava a trabalhar num novo programa, mas só esta terça-feira, 26 de janeiro, é que foram revelados mais detalhes.

Tal como o original, irá chamar-se “Tabu” e seguirá a fórmula vencedora que valeu vários prémios às versões belga e australiana. A cada episódio será debatido um tema. O belga, por exemplo, apostou em oito capítulos que se focaram nas deficiências físicas, nas doenças terminais, nas pessoas racializadas, na surdez, na pobreza, na obesidade, nas doenças mentais e na comunidade LGBT.

Cada episódio colocará Bruno Nogueira a passar uma semana na companhia de convidados, que irão revelar como é a sua vida, como é que cada uma das características as afeta. Será através dessa interação que o humorista depois criará uma pequena rotina de stand-up, que vai sendo mostrada e intercalada com as imagens das conversas entre apresentador e convidados.

“Taboe”, o programa original belga, foi para o ar no início de 2018 e foi um sucesso de audiências. Apresentado por um dos maiores comediantes do país, Philippe Geubels, o primeiro episódio foi visto por 1,5 milhões de pessoas, com um share de 54 por cento.

O reconhecimento nacional valeu-lhe um prémio para melhor programa do ano e, em 2019, foi também nomeado para os Emmy Internacionais. Foi igualmente adaptado pela televisão australiana, numa versão que foi para o ar em 2019 e que teve direito a apenas quatro episódios.

Nesta versão, a maioria do episódio foca-se precisamente na interação entre comediante e convidados, à medida que Breen vai tentando esmiuçar os detalhes e desafios que cada convidado enfrenta no dia a dia. Abrilhantado com a ocasional tirada bem-humorada, as conversas tocam quase sempre num nervo e mergulham inevitavelmente num clima pesado.

Curiosamente, o constrangimento é regularmente quebrado não pelo humorista, mas pelos próprios convidados, que não hesitam em gozar com a própria morte. “Goza bem as drogas pré-operatórias”, brinca Lauren, depois de descobrirem que Nicole, de 32 anos, mãe de uma criança e com um cancro incurável, teria que abandonar o programa para ser alvo de uma cirurgia urgente. “Bem, lá se vai mais uma.”

É nas conversas um a um que os detalhes mais dramáticos são revelados — e nos quais se discutem os temas mais sensíveis, como o legado que cada um quer deixar para trás, o que acontecerá aos seus filhos depois de partirem. Michael, por exemplo, é pai de duas filhas, uma com 9 e outra com 11 anos. É, também ele, um doente terminal.

A história torna-se mais dramática: a mãe das filhas morreu com um problema cardíaco. Mas nem por isso Michael deixa de quebrar o gelo com uma confissão: antes de morrer, quer que a sua nova parceira faça um molde de gesso do seu pénis. “Não para o usar ela própria”, conta mais tarde o apresentador no palco, perante a plateia. “O que o Michael quer é que, se ela encontrar outro homem depois de ele morrer, que use o molde de gesso nele.”

É uma montanha-russa de emoções que arranca inevitavelmente emoções fortes dos telespectadores, sejam lágrimas ou gargalhadas. Inevitavelmente, haverá quem se ofenda. A maior preocupação, revelou Breen no programa, residia na reação dos pais dos convidados.

É um trabalho arriscado, tocar em temas tão sensíveis numa era em que qualquer passo em falso pode dar origem a uma avalanche de críticas. É também o momento mais excitante para tentar roçar a tal “linha vermelha” que muitos querem traçar, mas que os humoristas preferem ignorar.

“O fator mais importante é perceber o que vai fazer rir os convidados”, explica o apresentador e humorista australiano ao “The Sydney Morning Herald”. “As piadas específicas sobre cada indivíduo — preciso mesmo que eles se riam dessa piada. Isto é tudo feito para eles e é isso que faz o conceito funcionar: conseguir que eles se riam de si próprios.”

Num dos momentos mais dramáticos do programa, os três restantes convidados e o apresentador fazem uma viagem de balão. Já depois de aterrar, Lauren, que foi alvo de um transplante pulmonar com 19 anos e cujos órgãos funcionam apenas a 30 por cento de capacidade, cambaleia. No frame seguinte, está no chão, inconsciente, depois de uma convulsão.

Enquanto esperam por uma ambulância, Breen aproveita para aligeirar o ambiente. “Portanto convidei três maravilhosas pessoas para darem um passeio”, diz, antes de ser interrompido por Michael, que continua a segurar a mão da inconsciente Lauren. “Já só somos duas, não é?”

No momento que exemplifica a combinação mórbida e hilariante de “Tabu”, Breen aproveita a deixa, aproxima-se do plano da câmara com Lauren inconsciente no chão, e anuncia: “Mantenham-se ligados para saber quem é que vai ganhar.”

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