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Como “Gambito de Dama” acertou em cheio no mundo do xadrez

O genial Garry Kasparov deu uma valente ajuda à minissérie da Netflix.
Convence até os fãs de xadrez.

Há desportos que costumam dar boas histórias de ficção. É o caso do boxe, por exemplo, que já nos deu clássicos de “Rocky” a “O Touro Enraivecido”. E depois há outros, como o futebol, que têm sido menos generosos neste aspeto. O xadrez tem caído mais nesta última categoria. Mas isso parece ter mudado.

“Gambito de Dama”, a minissérie da Netflix que estreou há menos de um mês e que desde então tem estado no top da plataforma, é a prova de que este desporto milenar, em que os jogos se podem prolongar durante dias, é terreno fértil para histórias e tensão.

Parte do mérito está no cuidado com que, mesmo sendo uma história de ficção, se ligou à realidade, do domínio soviético no xadrez nos tempos da Guerra Fria. Outra parte do mérito está no elenco, em particular da talentosa Anna Taylor-Joy de que a NiT já falou longamente num recente artigo.

Ainda assim, tudo isto poderia ser insuficiente se na hora de pôr as peças no tabuleiro a coisa não funcionasse. Era preciso que o próprio jogo, ao longo dos sete episódios que compõem a minissérie, tivesse algo de real.

O genial Garry Kasparov.

Para que tudo corresse bem, os criadores Scott Frank e Allan Scott contaram com ajuda de quem percebe do assunto. Uma dessas ajudas chegou pela mão de Bruce Pandolfini, instrutor e antigo jogador de xadrez que já tinha sido consultor no livro homónimo que inspirou a série. Mas há uma razão para os jogos que vemos no ecrã serem ainda mais credíveis do que os do livro: Garry Kasparov.

Kasparov é o talento russo que, quando não se destaca como uma das vozes incómodas para Vladimir Putin, se dedica a fazer história no mundo do xadrez. Kasparov foi o jogador mais novo a tornar-se campeão mundial de xadrez em 1985, quando tinha 22 anos. Só em 2002 o compatriota Ponomariov, com 18 anos, bateu o recorde. Durante quase 20 anos, desde o primeiro título até se afastar da alta competição, em 2005, Kasparov foi o número um do ranking mundial.

Foi também ele o representante da humanidade num jogo clássico contra Deep Blue, um super-computador concebido para bater as melhores mentes de xadrez do mundo. Em 1996, o computador venceu um jogo, mas Kasparov ganhou a disputa, vencendo três e empatando outras duas partidas. No ano seguinte, nova disputa, com o software do Deep Blue atualizado, e mesmo assim houve equilíbrio, com o computador a desempatar a seu favor a disputa à sexta partida.

O momento foi histórico e valeu documentários mas o próprio Kasparov admite que pouca obras de ficção conseguem transmitir os maneirismos, os detalhes, as mudanças táticas e a tensão que se vive num torneio de xadrez de topo.

Kasparov aceitou aconselhar os criadores de “Gambito de Dama” e acabou por recriar jogos ao mesmo tempo que aconselhou sobre a forma como decorrem as coisas num grande torneio. O resultado é algo de que o próprio Kasparov se orgulha enquanto espectador. Numa recente entrevista à “Slate”, Kasparov realçou como chegou a descobrir jogos geniais pouco conhecidos para servirem de modelo para os movimentos das peças no tabuleiro da minissérie.

“Gambito de Dama” tornou-se já um dos sucessos do ano da Netflix. À “Slate”, Kasparov admite que faz tudo o que pode pela promoção do desporto. Recentemente, no seu Facebook, partilhava uma notícia que dava conta de mais uma jogada bem conseguida, agora fora do tabuleiro. Desde que a série foi lançada que dispararam em quase 300 por cento online as pesquisas sobre como jogar xadrez. Há novos fãs para esta arte do tabuleiro à conta da minissérie. Com sorte ainda aparece um novo super-talento, influenciado pela minissérie, cuja história daria outra boa história no ecrã.

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