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Como a vida do criador de “Squid Game” influenciou a história do maior sucesso da Netflix

Algumas personagens são inspiradas nos seus amigos de infância, outra nos manuais escolares. Até Donald Trump foi uma fonte de inspiração.
Foram dez anos a ouvir "não".

Ninguém estava à espera que “Squid Game” se tornasse num dos maiores fenómenos mundiais a sair da Netflix. São raras as vezes em que produções fora dos Estados Unidos da América e Reino Unido alcançam tamanho sucesso. Porém, nos últimos anos temos vindo a verificar cada vez mais destes casos, como “La Casa de Papel” ou “Lupin”. Além disso, a cultura pop sul-coreana atrai cada vez mais atenção do público internacional, seja pela música, como é o caso do K-pop, ou pelas produções de cinema e televisão.

Caso nunca tenha ouvido falar de “Squid Game”, a série acompanha um grupo de jogadores desesperados e com dívidas altíssimas. Numa junção de “Os Jogos da Fome” e o género de battle royale (recentemente popularizado pelo videojogo “Fortnite”), estes jogadores — mais precisamente, 456 — juntam-se em jogos letais. Apenas um sobreviverá, levando para casa um prémio de 45,6 mil milhões de Won (o equivalente a perto de 32,9 milhões de euros).

Ao início não sabiam o que aí viria, pensando ser um simples jogo que não acabaria por resultar na sua morte. Foi após a primeira ronda que os jogadores perceberam o que aquilo implicava. Foi-lhes dada a oportunidade de desistirem, mas numa crítica da série ao capitalismo, a maior parte deles acaba por voltar, esperando assim pagar as dívidas pendentes que têm.

A criação de “Squid Game” não esteve isenta de obstáculos, que se prolongaram durante mais de dez anos. Hwang Dong-hyuk, o criador do projeto, inspirou-se ainda na própria vida para a criação daquele que está a caminho de ser o projeto mais visto de sempre na Netflix (nas primeiras quatro semanas desde a respetiva estreia).

Uma década de recusas

Vivia com a sua mãe e avó quando começou a escrever o guião de “Squid Game”, em 2008. A inspiração para a série veio das suas visitas a lojas de banda desenhada: “Nessa altura, frequentava muito as lojas de banda desenhada. Li muitas, comecei a pensar em criar algo como uma história de banda desenhada passada na Coreia”, diz Hwang Dong-hyuk à Netflix. As ideias fluíam e um ano depois, em 2009, tinha um guião pronto a ser apresentado. Nos seus primórdios, o criador via “Squid Game” como um filme e não como uma série. 

Ainda em 2008, enquanto escrevia o guião, Hwang Dong-hyuk viu-se obrigado a vender o computador portátil por 584 euros para conseguir pagar algumas das suas dívidas.

Após a sua conclusão, as coisas não ficaram mais fáceis. Foram dez anos seguidos a ouvir “não” de vários estúdios sul-coreanos. Para eles, a história era pouco realista e muito grotesca. “Na altura, o conceito era demasiado estranho e violento. Houve pessoas que o acharam demasiado complexo e pouco comercial. Não consegui investimento suficiente, e as audições não foram fáceis”, revela.

Foi com a pandemia que a história acabou por se aproximar dos tempos que se viviam. Quando a Covid-19 começou a afetar a economia mundial, acentuou ainda mais a disparidade entre ricos e pobres, conta o criador. “O mundo mudou”. E adianta: “Todos estes pontos tornaram a história mais realista quando comparada com há dez anos”.

O criador e atores nas filmagens.

“Depois de cerca de 12 anos, o mundo transformou-se num lugar onde estas histórias de sobrevivência, violentas e únicas são bem aceites. As pessoas comentam sobre como a série é relevante para a vida real. Infelizmente, o mundo foi nessa direção. Os jogos da série em que os participantes enlouquecem alinham-se aos desejos das pessoas em ganhar o jackpot, com a criptomoeda, imóveis e ações. Muitas pessoas tiveram empatia com a história”, diz Hwang Dong-hyuk ao “The Korea Times”.

Foi em 2019 que “Squid Game” foi finalmente aceite por um estúdio: a Netflix. “Não houve quaisquer restrições, e foi-me dada a liberdade criativa para trabalhar como bem entendesse”, revela.

Sendo a Netflix um estúdio internacional, foram feitas algumas alterações para este mesmo público. A gigante do streaming deu ênfase aos aspetos visuais, às roupas chamativas dos jogadores e aos cenários coloridos e que se assemelham a parques para crianças. Algumas regras dos jogos tradicionais coreanos também foram simplificadas.

Estas pequenas alterações tiveram resultados. 95 por cento das audiências de “Squid Game” vêm de fora da Coreia do Sul. A série já foi dobrada em 13 línguas, e legendada em 31.

A inspiração para as personagens veio da sua vida

Hwang Dong-hyuk, de 50 anos, nunca participou num jogo que levou à morte de centenas de pessoas. Isso não o impediu, contudo, de tirar várias inspirações da sua vida para criar as personagens (e uma macabra boneca gigante).

Começou por se inspirar na própria “sociedade competitiva” onde está inserido. “Esta é uma história sobre falhados. É sobre aqueles que lutam contra os desafios do dia a dia e são deixados para trás, enquanto os vencedores passam de nível”, diz Dong-hyuk.

É, também, uma história bastante pessoal. As duas personagens principais — Seong Gi-hun e Cho Sang-woo — têm o mesmo nome que dois dos seus amigos de infância. Para ele, são “clones interiores”.

“Eles representam os dois lados de mim. Tal como o Gi-hun, fui criado por uma mãe solteira num ambiente com problemas financeiros em Ssangmun-dong”, explica. “Ao mesmo tempo, tal como o Sang-woo, frequentava a Universidade Nacional de Seoul e todo o meu bairro me aplaudia e tinham grandes expectativas de mim”, recorda-se.

Outra personagem inspirada na sua vida (e na história da Coreia do Sul) é aquela boneca gigante que vemos no primeiro jogo — e que se tornou numa das personagens mais famosas e marcantes da série.

A boneca assassina.

Em conversa com Jimmy Fallon no seu talk-show, Jung Ho-yeon, que interpreta a misteriosa e calada Sae-byeok, revela que a boneca que joga ao macaquinho do chinês na primeira ronda é, na verdade, uma boneca que aparecia normalmente nos manuais escolares sul-coreanos: “Quando andávamos na escola, havia personagens. Uma era um rapaz, e outra uma rapariga. O nome do rapaz era Chulsoo, e o nome da rapariga era Younghee. E ela é a tal”, explica.

A única coisa talvez mais marcante que esta boneca gigante é mesmo o título da série: “Squid Game”. Tal como percebemos durante os episódios, o squid game, que em português podemos traduzir para “jogo da lula” (embora não exista em Portugal), era um jogo em que as crianças sul-coreanas costumavam participar. “Era um dos jogos mais físicos e também era dos meus favoritos. Eu achei que este jogo infantil era o que retratava melhor a sociedade onde atualmente vivemos”, revela.

A personagem baseada em Donald Trump

Quando Donald Trump se tornou presidente dos EUA, Hwang Dong-hyuk achou que isso devia ser uma nova razão para o lançamento da série, ao lado de outras problemáticas. “Nos últimos dez anos, apareceram vários problemas: houve a explosão das criptomoedas, onde pessoas de todo mundo, especialmente jovens na Coreia, investiam todo o seu dinheiro em criptomoedas. Houve também o crescimento de gigantes do IT, como o Facebook, a Google, e na Coreia há a Naver, e eles estão só a reestruturar as nossas vidas. É inovador, mas estas gigantes da tecnologia também enriqueceram bastante”, confessa. “E depois o Donald Trump tornou-se no presidente dos Estados Unidos da América… Depois de tudo isto acontecer, eu achei que já era altura de a série chegar ao mundo”, remata.

Segundo o próprio criador, Donald Trump era parecido aos VIP da série, um grupo de homens altamente ricos que eram espectadores do jogo e que usavam máscaras de animais para se manterem anónimos enquanto viam. “Ele faz-me lembrar dos VIP em ‘Squid Game’. É como se ele estivesse a jogar a algo e não a comandar um país, causando horrores na vida das pessoas”, critica Hwang Dong-hyuk.

A possível segunda temporada

A experiência de gravar a primeira temporada não foi nada fácil, e levou a que o criador perdesse seis dentes durante aquele período de tempo. “Escrever, produzir e realizar uma série sozinho foi uma tarefa complicada”, conta à “CNN”.

Ao início, um segundo capítulo do projeto parecia pouco provável, mas com o sucesso de “Squid Game” e a fórmula normalmente usada pela Netflix, uma nova temporada torna-se quase inevitável — e o criador já tem coisas em mente.

Uma das personagens que o criador pretende aprofundar é o próprio líder do jogo. Acabamos por descobrir a sua identidade, mas não sabemos qual o motivo para ali estar.

“Ainda resta explorar a história do Frontman e sua relação com o irmão, o polícia. E as pessoas também estão curiosas sobre o rumo de Gi-hun após o final. Acho que tenho a obrigação de contar isso aos fãs”, diz Hwang Dong-hyuk à “IndieWire”.

Poderá ser melhor explorado na segunda temporada.

Acrescenta ainda que pretende explorar melhor aquele misterioso homem que vimos dar o cartão a Gi-hun no metro. “Se fizer, a segunda temporada seria em cima da tentativa de Gi-hun de encontrar as pessoas que fazem parte do jogo, como o homem com quem ele jogou no metro. Acho que ele tentaria encontrá-lo”, disse. “Há também a história do polícia, se ele está vivo ou não.”

Uma segunda temporada não está, então, oficialmente confirmada. Antes de regressar a esta história, o criador de “Squid Game” tem ainda outros projetos a serem criados para a Netflix, como “um filme e outras coisas”, revela Bela Bajaria, a responsável pelo conteúdo de séries estrangeiras da plataforma, à “Vulture”.

Se já viu “Squid Game”, pode carregar na galeria para descobrir novas séries (e temporadas) que estreiam em outubro.

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