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Televisão

Como o distúrbio alimentar da Princesa Diana se tornou central em “The Crown”

Durante uma década, lutou contra a bulimia. Foi uma luta escondida mas que agora tem destaque na série.
"The Crown" continua a fazer correr tinta.

Estávamos em 1995 quando Diana, princesa de Gales, falou pela primeira vez ao microfone sobre o problema. O assunto não era desconhecido — não é fácil guardar um segredo desta dimensão durante tantos anos passados na mira da imprensa cor-de-rosa. Ainda assim, entre saber-se e ver uma figura pública a falar abertamente sobre os problemas pessoais, costuma ir uma longa distância.

Foi em 1992 que uma primeira biografia, “Diana: Her True Story”, de Andrew Morton, revelava a luta de Diana contra a bulimia. Foi o mesmo ano em que se separou do príncipe Carlos e marcou um tempo em que a ilusão do conto de fadas chegara ao fim.

Diana era a princesa adorada do público, a menina que um país adotou e viu crescer em frente às câmaras. Mas Diana era também uma rapariga a perder-se no mundo que a rodeava. Carlos, o seu príncipe, envolvia-se com Camilla Parker Bowles e Diana dava por si sozinha, em palácios gigantescos como o de Buckingham.

Durante quase uma década, a princesa encontrava consolo a comer de forma descontrolada, obrigando-se depois a vomitar, num processo físico, violento e auto-infligido. 1995, o tal ano em que falou pela primeira vez sobre o tema, foi também o ano em que Emma Corrin nasceu, ela que viria a assumir o papel de Diana na quarta temporada de “The Crown”.

Um outro lado de Lady Di.

A sumptuosa série da Netflix regressou a 15 de novembro para uma nova temporada, onde Diana será central e a vamos ver ainda miúda, num casamento de sonho, e a crescer nos anos seguintes daquele ambiente tantas vezes adverso.

É no terceiro episódio que a vamos ver a lutar contra o tal distúrbio alimentar. Ao contrário do que acontecera com “Por Treze Razões”, série que abordava o suicídio, desta vez a Netflix não hesitou, agiu com cautela e abriu com um aviso aos espectadores. “As cenas que aí vêm serão sensíveis para alguns espectadores.”

A referência à bulimia não é feita apenas de forma vaga, com subterfúgios. A exigência, o esforço físico, o momento difícil são passados para o ecrã. E são-no porque a atriz que dá corpo a Diana assim o quis. Era importante mostrar a ansiedade, era importante mostrar o impacto. “Se vamos mostrar algo assim, não podemos simplesmente aludir ao problema, é preciso mostrá-lo de facto”, explicou a atriz numa entrevista à “Entertainment Weekly”.

Emma explica que o problema surgia já referido nas primeiras versões do guião. Mas o que vemos no ecrã é algo que resultou do trabalho da própria atriz e de Polly Bennett, a profissional que a ajudou a trabalhar a personagem e que já tinha feito trabalho semelhante com Rami Malek, no papel de Freddie Mercury, em “Bohemian Rhapsody”.

“Muita da nossa pesquisa acabou por se centrar na bulimia”, explica. Analisaram a própria Diana mas também artigos, descobriram fóruns e estudaram casos de outras pessoas que sofriam do mesmo problema. Quando terminaram tinham um documento Word gigantesco que acabou por ganhar destaque na série.

Diana, que morreria num acidente de automóvel em Paris, em França, em 1997, aos 36 anos, chamou-lhe “a doença secreta”. Os problemas terão começado uma semana após o noivado com Carlos e acompanharam-na durante uma década. Uma simples expressão, “um pouco gorducha”, terá contribuído para que se enredasse num distúrbio alimentar tão severo. Foram anos em que o público esteve longe de saber o que se passava. Diana continuava a surgir em público, atraindo multidões, colhendo elogios mesmo com pequenas quebras de protocolo. Era adorada. O que de certa maneira aumentava também a pressão que colocava sobre si própria.

Num discurso em 1993, ainda antes de falar abertamente sobre o seu próprio caso, Diana alertava para os problemas dos distúrbios alimentares. Não falou na primeira pessoa, mas sabendo o que sabemos agora, é inevitável imaginar o quão de dentro vinham aquelas palavras, com a princesa do povo a explicar como a pressão e os desejos irreais de perfeição se tornavam algo tão perigoso para a saúde de alguém.

“The Crown” é trabalhada em detalhe. É ficção mas sobre uma tela histórica. E tem deste lado a vantagem do tempo, de poder olhar de fora e escolher por onde ir. A bulimia pode até ter passado de forma secreta durante aqueles finais dos anos 80 e inícios dos anos 90. Mas olhando agora, havia ali uma outra dimensão de Diana que merecia surgir em primeiro plano. Mesmo que isso pudesse ser o tal desafio para muitos espectadores.

Para a atriz, Diana estava “muito à frente do seu tempo” também nesta matéria. À “The Hollywood Reporter”, Emma Corrin realça que hoje em dia saudamos quando uma figura pública é capaz de quebrar a sua concha e de assumir, perante o mundo, que tem problemas.

“Se pensarmos nisso, mesmo hoje em dia quando uma figura pública diz algo sobre uma experiência sua isso faz manchetes. Os jornalistas ficam num frenesim, a tentar descobrir o que aconteceu. E toda a gente celebra o facto de haver pessoas a partilhar as suas experiências, é algo de bom que acontece hoje em dia. Diana fazia isso já nos anos 90, o que é incrível. Queria fazer-lhe justiça.”

Os dez episódios da quarta temporada de “The Crown” já estão todos disponíveis na Netflix. Emma Corrin é protagonista e despede-se do maior papel da sua carreira até agora no final desta temporada. A atriz australiana Elizabeth Debicki assumirá o papel de Diana já mais adulta, nas futuras quinta e sexta temporadas, que serão também as últimas de “The Crown”.

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