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Como os atores de “The Crown” se inspiraram para interpretar o príncipe Philip

Leram correspondência privada e adotaram pequenos gestos, mas todos revelaram um fascínio pelo homem mais divertido da família real.
Não foi nada fácil

Num jantar de data desconhecida, um “homem famoso do cinema” deu por si num jantar organizado pela Rainha de Inglaterra. Acabou sentado ao lado do príncipe Philip, que decidiu meter conversa. “O que é que faz? Está envolvido naquela coisa de Crown…?”

A resposta foi negativa, recorda Matt Smith — o ator britânico que assumiu o papel do Duque de Duque de Edimburgo nas duasprimeiras temporadas de “The Crown” — que recontou a história ao “The Guardian”.

Ainda assim, o convidado mistério não resistiu à curiosidade e, antes do final do jantar, lançou uma pergunta a Philip: “Estava a pensar nisto, até porque tenho alguns amigos que sim, estiveram envolvidos em ‘The Crown’. Viu algum episódio?” A resposta foi curta, grossa e no habitual inglês requintado de classe alta britânica. “Não seja ridículo.”

Philip morreu a 9 de abril, aos 99 anos. Uma das figuras mais intrigantes e divertidas da Casa Real, tornou-se rapidamente numa das personagens mais complexas da série que, desde 2016, procura contar o percurso da monarca britânica. Philip é, claro, figura de destaque apesar de se mostrar sempre num plano secundário.

Propenso a gafes e comentários que quebram o habitual protocolo e decoro real, tornou-se num desafio para os atores que o interpretaram e ainda o irão interpretar nas temporadas que estão ainda por transmitir. Matt Smith foi o primeiro. Tobias Menzies seguiu-lhe os passos e Jonathan Pryce é o homem que se segue.

Durante quatro anos, Smith e Menzies roubaram os maneirismos, os tiques, mas mais difícil, tentaram absorver a personalidade que Philip nunca revelava. Procuraram replicar a tensão do macho alfa preso na sombra da rainha ou mesmo a complexa relação com Diana.

O gesto discreto que Matt Smith roubou ao Duque

“Acho que ele é um tipo cool”, revelava Smith em 2017, questionado sobre a personalidade controversa do monarca que interpretara na primeira temporada. “Ele fez o que quis, quando o quis, como o quis, com quem quis. Não pediu permissão a ninguém — e a sua esposa é a Rainha. É por isso que eu o adoro.” 

Coube-lhe agarrar no papel de Philip ainda na sua juventude, recém-casado com Isabel II e frustrado pela prisão do papel de figura secundária na Casa Real. Na pesquisa para o papel, Smith confessa ter encontrado algumas contradições, sobretudo na imagem que era passada de Philip — marcado também pelo eterno mistério das possíveis relações extraconjugais.

“Como sociedade, elogiamos — e com razão — Isabel II a um exemplo de uma mulher poderosa, brilhante e com estilo. Mas de certa forma, temos aqui um exemplo de um homem brilhante e rebelde. Porque é que a nós, como homens, não nos é permitido celebrar também isso, seja de forma ficcional ou não? Senti que encontrei muito para elogiar e celebrar no Philip.”

Matt Smith na primeira temporada de “The Crown”

Para lá da admiração, Smith confessa ter recorrido a alguns truques para tornar mais real a sua interpretação, nomeadamente a forma como Philip está quase sempre de mãos juntas atrás das costas. Outro dos truques baseou-se na forma de falar do Duque de Edimburgo, recolhida depois de muitas horas a ver vídeos de arquivo e a ler livros para dar contexto às personagens.

“Usava sempre um pequeno truque físico e outro vocal, coisas que repetia, repetia, repetia”, revelou num programa da britânica Radio 4. “Ele caminha sempre com as mãos atrás das costas e comecei a fazer o mesmo. E depois fazia algo que, até hoje, continua a fazer a Claire Foy rir-se. Dizia-sempre ‘Oh, não, sim’, ‘Oh, não, absolutamente, tudo bem”. Ou então dizia ‘olímpico’, porque ele diz a palavra de uma forma perfeita.”

As cartas secretas que inspiraram Tobias Menzies

Da segunda para a terceira temporada da série, o salto cronológico obrigou à escolha de um novo elenco. Seria uma tarefa dura, até porque a complicada vida do Duque de Edimburgo seria esmiuçada. A dura tarefa de assumir o papel de Philip coube a Tobias Menzies.

Foi ele o ator que sobreviveu à exposição da infância traumática de Philip, da expulsão da família da Grécia, ao internamento da mãe esquizofrénica, até ao trágico acidente de avião que vitimou a irmã. É, provavelmente, o passado mais trágico de todos os membros da família real.

“É uma pessoa muito complexa”, revelava Menzies no final de 2020, em entrevista à “Vanity Fair”. “Apesar de não revelar muito nas entrevistas, atmosfericamente é possível captar muita coisa. Parece-me emocionalmente quente. Há sempre um elemento de frustração e irritabilidade, de emoções reprimidas. Tenho a certeza que ele iria negar tudo isto.”

Também Menzies sublinha o peso que teria em Philip o facto de estar quase sempre na sombra da rainha. E sobretudo da forma como esse peso influenciou, ao longo dos anos, a sua personalidade.

“Ver este macho alfa, alguém que claramente gosta de estar ocupado e de ter influencia, ficar preso nesta função cerimonial (…) Senti que esse era o ponto de partida, alguém com muita emoção dentro de si, mas que passa muito do tempo a tentar reprimi-la. Essa tensão básica foi a pedra de toque [para o papel].”

Apesar da seriedade, há também em Philip um lado mais leve, talvez o mais divertido de todos. “Por outro lado, ele tem piada. Muito disso sai com alguma irritabilidade, mas também com alguns comentários e piadas — algumas não são geniais, algumas até impróprias. Mas sinto que são tudo expressões de um desejo de espicaçar a estrutura das coisas, agitar as águas.”

Tobias Menzies por pouco não ficou com o papel. Tinha 45 anos por altura do casting. Os responsáveis procuravam alguém na casa dos 50. Um par de cenas com Olivia Colman — que interpretou a rainha na terceira e quarta temporada — foram suficientes para convencer a produção.

A relação de Diana e Philip é um dos destaques da última temporada

Para lá dos 90 minutos de caracterização que eram necessários de cada vez que se preparava para gravar, o papel foi também um desafio técnico. “Procuras sempre chegar a um ponto aproximado dele, quer a nível de som e de movimentos. Mas é algo muito subtil — não queres que a coisa se torne numa caricatura. É difícil deixares-te absorver no drama se estás demasiado focado na imitação”, revelou ao “ScreenDaily”

O estudo da personagem foi levado a sério, com recurdo a muitas gravaçõe de som de Philip, mas também muitos vídeos de arquivo. Percebeu que havia uma notória diferença nas formalidades do duque entre as décadas de 50 e 60 e a partir dos anos 90.

Apesar do árduo trabalho de pesquisa, Menzies estava ciente de que iria interpretar uma versão de Philip idealizada pelo criador da série Peter Morgan. “Agarrei-me aos vídeos, mas o Philip que mostramos na série é o Philip do Peter. Estou seguro de que as diferenças entre essa versão do Peter e a pessoa real poderiam dar origem a uma tese de doutoramento.”

Muita da caracterização da personagem já havia sido feita pelo trabalho de Matt Smith nas duas temporadas anteriores, um trabalho que Menzies agradeceu — e que não quis estragar. Mas algo diferente surgiu na história: a princesa Diana, que estabelece uma visível e importante ligação com o Duque de Edimburgo.

Menzies reconhece que um dos desafios foi a falta de registos públicos sobre a relação dos membros da família real, apesar de ter tido acesso a documentos valiosíssimos na construção dessa relação: um par de cópias de cartas da correspondência entre Diana e Philip.

“Fiquei impressionado com o tipo de atmosfera equilibrada, calma e carinhosa das cartas.
Claramente que o Philip se esforçava arduamente para, longe dos olhares públicos, manter e cuidar essa relação. E se essas cartas demonstram qualquer coisa, é que ele parecia ser um grande apoiante da Diana.”

Por fim, o outro traço da personalidade de Philip que mais deixou marcas em Menzies foi a sua capacidade de “resistência a tretas”. “Deve ser uma vida estranha, porque sempre que ele entra numa sala, ela está cheia de gente nervosa e com medo de falar, provavelmente pouco dizem. E é ele quem constantemente tem que fazer as despesas da casa, por isso percebo perfeitamente que, ao tentar fazer arrancar conversas, de tempos em tempos, ele diga o que não deve.”

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