Televisão

Criadora de “Friends” lamenta falta de diversidade do elenco e doa milhões de euros

Numa entrevista à "BBC", Marta Krauffman também se desculpou pelo facto de a mãe trans de Chandler ser sempre tratada no masculino.
Estreou em 1994.

Muita coisa mudou desde 1994, ano em que estreava aquela que viria a ser uma das séries mais aclamadas de sempre. Falamos de “Friends”, claro, que acompanhava a vida pessoal e profissional de Rachel (Jennifer Aniston), Monica (Courteney Cox), Chandler (Matthew Perry), Phoebe (Lisa Kudrow), Ross (David Schwimmer) e Joey (Matt LeBlanc), seis amigos de 20 a 30 e poucos anos que viviam em Manhattan.

Apesar do sucesso estrondoso do programa, e de uma legião de fãs fiel que tende a aumentar com o passar dos anos — mesmo tendo sido finalizado em 2004 —, nos últimos tempos, este tem sido alvo de críticas, não só pelas piadas consideradas transfóbicas e sexistas, mas também pela falta de diversidade do elenco, que raramente teve atores de cor ou de outras nacionalidades em papéis relevantes. Muitas pessoas questionaram como era possível que uma narrativa com Nova Iorque como cenário se desenrolasse num ambiente predominantemente branco.

Em entrevista ao “Los Angeles Times”, Marta Krauffman, uma das criadoras, confessou ter sido “complicado e frustrante” lidar com esses comentários negativos, que inicialmente considerou “injustos”, quando surgiram. A morte de George Floyd, contudo, deu-lhe uma nova perspetiva. Em 2020, Floyd morreu estrangulado pelo polícia Derek Chauvin, dando origem ao movimento #BlackLivesMatter.

“Foi depois do que aconteceu com o George Floyd que comecei a lutar com o facto de ter internalizado o racismo sistémico de formas que não tinha conhecimento”, disse Kauffman. “Esse foi, realmente, o momento em que comecei a examinar as formas em que tinha participado”.

E acrescentou: “Aprendi muito nos últimos 20 anos. Admitir e aceitar a culpa não é fácil. É doloroso vermo-nos ao espelho. Estou embaraçada por não saber mais há 25 anos”.

Numa tentativa de se desculpar por essa alegada falta de conhecimento, Krauffman revelou à mesma publicação ter feito uma doação de quatro milhões de dólares (cerca de 3.93 milhões de euros) para criar uma cadeira com o seu nome no Departamento de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade Brandeis.

Adiantou, ainda, que quando a contribuição se tornou pública, a reação foi bastante positiva. “Recebi uma enxurrada de e-mails, textos e mensagens nas redes sociais a darem apoio. Recebi muitos ‘já não era sem tempo’. Não num sentido maldoso, mas no de reconhecer que já se fazia esperar há muito”.

Mulher transgénero tratada no masculino

Em entrevista à BBC, que será transmitida a 11 de julho, a autora voltou a pedir desculpa publicamente, desta vez por tratar Helena Handbasket, a mãe trans de Chandler, no masculino. “Continuámos a referir-nos a ela como o pai de Chandler, embora o pai de Chandler fosse trans. Pronomes não eram algo que eu entendia. Então nós não nos referíamos aquela personagem como ‘ela’. Isso foi um erro”.

A personagem, interpretada por Kathleen Turner, era alvo constante de piadas, algumas feitas pelo próprio filho e a mãe deste, acerca da sua identidade de género e aparência.

Kauffman comentou também que, se estivesse a trabalhar em “Friends” agora, faria as coisas de forma diferente. Referiu, igualmente, que preza por um ambiente acolhedor no set dos programas em que está envolvida e lembrou um incidente recente. “Demiti um homem na hora por fazer uma piada sobre um cinegrafista trans. Isso simplesmente não pode acontecer”.

Em 2019, Kathleen Turner disse no programa “Watch What Happens Live With Andy Cohen” que não aceitaria fazer o papel novamente, caso lhe fosse oferecido, e que o deixaria para uma mulher trans. Acrescentou que elementos da série não envelheceram bem, ao notar a confusão sobre se a personagem era, efetivamente, uma mulher transgénero ou uma drag queen.

A personagem não foi explicitamente reconhecida como trans no programa, sendo referida como gay e apresentada a trabalhar, em Las Vegas, como uma artista de drag chamada Helena Handbasket, nota a BBC.

Kathleen Turner como Helena Handbasket.

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