Televisão

Crianças de três anos a fazerem recados na rua — o programa mais louco da Netflix

Há quase 30 anos que "Old Enough" é um fenómeno no Japão. Agora, prepara-se para assustar todos os pais galinha deste lado do mundo.
Será que tinha coragem?

Hajimete No Otsukai é o nome de um livro ilustrado que chegou às bancas japonesas em 1976. Nas suas páginas, conta a história de Miki e do seu “Primeiro Recado”. Miki é uma criança entre os quatro ou cinco anos que recebe uma tarefa da mãe: sair de casa r ir à loja comprar leite. Tão simples quanto isso.

Vinte anos depois, em 1991, alguém na televisão japonesa teve uma ideia: e se a história de Miki fosse real e transformada num programa televisivo com crianças reais? A ideia que nunca saíria da sala de reuniões nos países ocidentais, acabou por ser produzida e foi para o ar como parte de um segmento de um programa informativo.

O sucesso foi tão grande que, mesmo depois do fim do programa, o segmento ganhou vida própria e teve direito à sua própria slot televisiva. Outros vinte anos se passaram e o programa continua a ir para o ar — e, agora, desde abril, está disponível na Netflix.

Um dado curioso: a longevidade do programa leva, por exemplo, a que muitas das crianças que agora participam possam ver os seus próprios pais nos episódios antigos. É também uma premissa que tem, ao longo dos anos, chocado pais de outros países.

À Netflix chegou apenas uma temporada com 20 episódios e que foi para o ar em 2013. O que acontece é muito simples: em cada um dos episódios, cuja duração varia entre os 10 e os 20 minutos, um pai ou uma mãe entrega uma tarefa ao filho, normalmente crianças entre os três e os seis anos.

Sozinhos, apenas acompanhados de um cameraman, percorrem quilómetros, por vezes a pé, noutros casos nos transportes públicos, para completarem os recados entregues pelos pais. Pelo meio, claro, há dezenas de peripécias. Mas o que escandaliza é mesmo a independência dada a crianças que, em Portugal, nunca em momento algum seriam autorizadas a sair à rua sozinhas.

Sob o título inglês, “Old Enough”, o reality show De acordo com o “The Guardian”, “Old Enough” — no seu título traduzido para inglês — é um verdadeiro fenómeno no Japão. ao ponto de captar perto de 20 por cento da audiência a cada programa.

Não se pense que tudo é feito sem qualquer cuidado com potenciais perigos para as crianças. Todas as rotas são inspecionadas pelos pais e pela produção, de forma a certificarem-se de que não existem locais mais perigosos ou até “indivíduos suspeitos”.

Os cameramen que acompanham a criança procuram manter-se sempre escondidos. Antes do arranque, a equipa de produção alerta os vizinhos e locais, para que não se surpreendam ao ver uma criança tão pequena sozinha na rua.

Não é qualquer criança que é escolhida para participar, até porque têm que participar num cuidadoso processo de seleção. Ainda assim, nem sempre corre tudo bem. Por cada criança destemida, há uma que acaba por se perder e voltar para casa em lágrimas. É, no fundo, um programa pouco aconselháveis a pais e mães galinha.

“No Japão, pedir a uma criança para fazer um recado sempre foi uma prática bem aceite. E tudo começou quando pensámos: e se gravássemos uma criança a fazer um desses recados? Talvez encontremos nessas imagens algo digno de passar na televisão”, revela o diretor-executivo de “Old Enough”, Junji Ouchi, à Netflix. Rapidamente perceberam que sim, mas era necessário filmar dezenas de crianças até conseguirem encontrar o material certo. “Só uma entre seis a dez gravações é que acaba por ser transmitida.”

“Sentimos que isto é mais um documentário do que um concurso televisivo. Procuramos famílias que nos permitam gravar essas histórias”, explica. “São elas que decidem que recado vão entregar à criança. E nós também partilhamos os recados que não são bem-sucedidos, os falhanços, também damos conselhos para que as crianças se sintam motivadas para completarem a tarefa.”

Atentas como são, as crianças tendem a descobrir os membros da produção entre os estranhos, sobretudo os que as filmam. “Por vezes perguntam-nos ‘o que estás a fazer?’. Nós devolvemos a questão e perguntamos o que é que eles estão a fazer. Respondem orgulhosamente que estão a fazer um recado e vão à sua vida”, explica.

De acordo com os produtores, o objetivo passa por tentar ajudar as crianças o menos possível. “O que queremos é que elas tenham um dia cheio de boas memórias para o futuro”, notam. “Por vezes temos que fazer o papel de mauzão e encorajar as crianças a serem mais independentes (…) Quando um adulto ajuda uma criança por simpatia, será que o está a fazer simplesmente porque não a vê como uma pessoa igual a si? A força de uma criança vem da sua vontade de fazer algo pelos outros, vem da sua autoestima. Tentamos certificar-nos que elas não sentem que estão a ser tratadas como bebés.”

Um fenómeno muito japonês

O que torna os pais japoneses tão diferentes dos ocidentais, ao ponto de terem a confiança (e a coragem) de entregar tamanha responsabilidade a crianças que ainda não aprenderam sequer a falar em condições? A resposta pode estar nos hábitos, mas também nas ruas e cidades japonesas.

“No Japão, muitas crianças vão a pé sozinhas para as escolas do seu bairro. É muito típico”, explica Hironori Kato, professor de transportes e planeamento da Universidade de Tóquio, em entrevista à “Slate”. “As ruas e as estradas são desenhadas com isso em mente, estão preparadas para que as crianças as possam percorrer de forma segura.”

Pedir a uma criança de dois anos e meio que vá comprar um pacote de leite sozinha é, naturalmente, um exagero. Algo exótico, mesmo na sociedade japonesa — e também por isso garante tamanha audiência, semana após semana —, mas que assenta na filosofia japonesa de independência.

Outro fenómeno que permite que isto aconteça assenta, como explica Kato, na forma como os japoneses pensam e desenham as suas cidades, sempre com os peões no topo das prioridades. Os carros são obrigados a circular a baixas velocidades. Outra curiosidade: os passeios, ao contrário dos nossos, não são tão elevados e “raramente se veem carros estacionados junto aos passeios”.

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