Televisão

“Crimes Submersos”: a nova série sobre o homicídio de um português em Espanha

É uma produção luso-espanhola que estreia esta sexta-feira na RTP. A NiT falou com os atores Marco D’Almeida e Soraia Chaves.
Marco D'Almeida é um dos protagonistas.

É uma nova série com ADN português a merecer destaque: “Crimes Submersos” estreia na RTP1 esta sexta-feira, 21 de janeiro, pelas 21h30. Trata-se de uma co-produção com a estação pública espanhola TVE, a primeira que fazem na sua história. O primeiro episódio já foi transmitido por Espanha, onde gerou bons resultados de audiências. No total são oito capítulos.

Este é um policial, com contornos de suspense e drama, que tem como pano de fundo a seca na Península Ibérica — apesar de forma indireta, o tema das alterações climáticas paira sobre “Crimes Submersos”.

A premissa é a seguinte: nos últimos anos, os níveis das albufeiras baixaram para mínimos históricos. Várias povoações que tinham sido inundadas há décadas, para dar lugar a barragens, voltaram a emergir das águas. Em Campomediano, nas ruínas de uma das casas, são encontrados os esqueletos de dois homens.

A inspetora da polícia espanhola Daniela Yanes (Elena Rivera) fica com o caso — e não há dúvidas de que se trata de um crime. Há uma suspeita que as mortes estejam relacionadas com os protestos ambientais realizados para evitar a construção da barragem há mais de 20 anos. 

Do outro lado da fronteira, uma mulher perdeu um filho há 20 anos. “Quando um jovem Hélder Gomes entrou para a polícia, houve uma mãe que tinha um filho desaparecido. Passam-se 20 anos e qualquer corpo que apareça no Algarve ou em Trás-os-Montes, esta mãe pede-lhe para ele ir saber se porventura — dentro da angústia de uma mãe — é o seu filho. A história começa com estes dois corpos em Espanha, e ela volta a pedir a este polícia que vá investigar para saber se por acaso é o filho dela”, explica à NiT o ator português protagonista, Marco D’Almeida.

A partir daí, o detetive Hélder Gomes forma uma parceria com Daniela Yanes e os dois começam a investigar o caso. “A questão depois torna-se: quem é que o fez? E porque é que o fez? E a seca está sempre como pano de fundo. As várias cenas de flashback têm chuva. Em tudo o que é atual não há chuva e é tudo muito seco. A direção de fotografia também é toda feita nesse sentido.”

Marco D’Almeida realça o arco narrativo da relação entre a sua personagem e a detetive espanhola. “Somos dois colegas de profissão desconhecidos, polícias que não podem mostrar emoções, e uma das coisas mais bonitas é esta relação de amizade profunda e confiança.”

Em “Crimes Submersos”, os polícias “não estão só a cumprir a função da investigação”. São personagens mais densas, cujas vidas pessoais são exploradas. “Estão na iminência de um divórcio, a minha mulher está farta que eu seja polícia, a personagem da Daniela também tem problemas para resolver. E somos muito desconfiados em relação a tudo o que está à nossa volta.”

Hélder Gomes sente que tem uma “dívida moral” em relação à mulher cujo filho desapareceu. “Durante estes 20 anos, a minha filha mais velha tem um acidente e ela ajuda com as operações. Ela é uma mulher rica, com poder, e ajuda. Ele, como pai, não percebe só o lado da mãe que perdeu um filho, mas também tem uma dívida para com esta pessoa que o ajudou a nível pessoal. Ele é um homem bastante íntegro e cumpre a sua palavra. Se ele deu a sua palavra de que vai até ao fim e vai descobrir é porque vai descobrir. Por muito que isso lhe custe — até a vida familiar dele.”

Marco D’Almeida também gostou do facto de a sua personagem não ser, como descreve, um “bonzinho pãozinho sem sal”. É um detetive bom, do lado certo da justiça, mas não é uma pessoa perfeita. “Gosto de lhe dar alguns traços para que possa não parecer tão bom assim [risos]. Que tenha algumas sombras na sua personalidade. Ele, por exemplo, tenta arranjar esquemas para andar entre os pingos da chuva para conseguir chegar à verdade. Não é alguém muito certinho, que vai pela cartilha, que segue tudo… E às vezes até questionas algumas atitudes dele. Mas achei muito mais interessante assim. E nesta história há muita mentira, há muitos jogos e ele às tantas começa a fartar-se e a mostrar um lado de ‘sou polícia, não brinquem comigo’. Entro primeiro como porreiro, mas se é preciso dar um par de estalos dou um par de estalos, vou até ao fim. Essa dualidade é muito interessante de trabalhar.”

Outra das atrizes nacionais que participam na série é Soraia Chaves. A atriz interpreta Tina, uma portuguesa que vive em Espanha há muitos anos. “Ela é amante de um dos protagonistas, o Martín. O Martín é casado com a empresária que é dona da localização onde se encontram os corpos”, explica à NiT.

“A ligação da minha personagem à história tem a ver com esta relação extraconjugal. Ela acaba por ser uma ilha na vida deste homem, no meio do drama familiar e das questões todas que se passam na trama. Ela é essa zona de conforto, de riso e não compromisso. E há uma amizade forte entre os dois. Agora, as características dela… É uma mulher independente, divertida, leve, muito madura e moderna. Vai ajudar também a personagem do Marco D’Almeida, o detetive, a resolver a história”, acrescenta.

O elenco luso-espanhol inclui ainda Guilherme Filipe, Margarida Marinho, Miryam Gallego, Rodolfo Sancho, Miguel Ángel Muñoz, Paula Lobo Antunes, Rita Loureiro, Diogo Martins, Luís Ganito, João Craveiro, João Baptista e Fernando Rodrigues, entre outros. A realização é de Joaquín Llamas, que também assina o argumento, com Miguel Sáez.

A produção pertenceu sobretudo à TVE — portanto, todos os atores portugueses tiveram de fazer um casting virtual e gravar uma self-tape para que fossem avaliados. A série é falada em português e castelhano.

“O que me atraiu também foi a fluidez de os dois idiomas poderem casar numa ficção”, diz Marco D’Almeida, que assume ter sido esse o maior desafio do projeto. “Falo fluentemente castelhano, mas uma coisa é falar e a outra é pegar num texto e tirar-lhes as nuances todas que ele tem. Se calhar tive de trabalhar o dobro ou o triplo do que trabalho normalmente, que já é bastante. Foi um obstáculo, mas espero tê-lo ultrapassado.”

Soraia Chaves interpreta Tina.

Soraia Chaves, que viveu dois anos em Madrid, a capital espanhola, também fala a língua de forma fluente. Porém, apesar de ter “esse conforto, não deixou de ser um desafio”, admite. Ambos elogiam e valorizam esta co-produção. “Pareceu-me bastante entusiasmante esta ideia de haver uma junção entre a estação pública portuguesa e a espanhola. Tanto os portugueses como os espanhóis têm feito investimentos muito fortes na ficção, sobretudo em séries. Está mais do que provado que os espanhóis têm imenso talento e que conseguem construir produtos de grande qualidade. E também está provado que os portugueses conseguem — pareceu-me uma ligação que só podia ser benéfica. É interessante ver os dois países da Península Ibérica não de costas voltadas mas de mãos dadas na ficção.”

Marco D’Almeida acrescenta: “Só enriquece culturalmente criar coisas assim. Não são aquelas co-produções de ‘vamos ter que pôr aqui um ator alemão ou inglês para justificar o dinheiro’, mas depois aquilo não joga na história. Aqui cabe tudo muito bem, é orgânico e flui. Quando vês o produto percebes que é coerente, faz sentido. Espero que seja o primeiro de muitos, há muita história entre Portugal e Espanha para contar. Sou sempre a favor das pontes e não dos muros”.

Os dois atores também comentam que a língua é cada vez menos uma barreira no mercado atual do audiovisual, em que a ascensão das plataformas de streaming provocou alterações estruturais e globais.

“O mundo ficou mais aberto. Na ficção isso percebe-se. Acho que estamos cada vez mais ligados, as fronteiras estão cada vez mais dissolvidas e a ficção sempre foi uma ferramenta de comunicação e uma forma de conhecimento e descoberta. Acho que o público em todo o mundo já está com uma abertura maior para novas culturas. Isso é a globalização realmente a acontecer. O sucesso das séries espanholas na Netflix, o sucesso do cinema e das séries coreanas… Há uns anos era impensável para muita gente — não no meu caso, que sou uma cinéfila e vejo filmes de todo o mundo, mas falo do grande público — ver uma série inteira falada em coreano [risos]. Da mesma forma que acho que outros países podem ver e ouvir o português. Estamos a atravessar um período com perspetivas boas”, diz Soraia Chaves. 

Marco D’Almeida diz ainda que a tendência será para se apostar cada vez mais em séries, “não desmerecendo a novela”. “Aquilo que acho que será o futuro da ficção não são 200 ou 300 capítulos. Não digo que as novelas desapareçam completamente, mas acho que as pessoas irão buscar mais este género de histórias curtas.” Em relação a “Crimes Submersos”, o ator diz que poderá muito bem haver uma segunda temporada se as audiências forem boas. Pode assistir aos episódios em antestreia na RTP Play, sempre à sexta-feira, a partir do meio-dia.

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