Televisão

Crítica: esta foi a pior temporada, mas vamos ter saudades de “After Life”

A comédia dramática de Ricky Gervais chegou ao fim com os últimos seis episódios. Pode encontrá-los na Netflix.
Ricky Gervais é o criador da série.

“After Life” chegou ao fim. A terceira e última temporada da comédia dramática criada, realizada, escrita, produzida e protagonizada por Ricky Gervais estreou a 14 de janeiro. Tem seis episódios que, não sendo os melhores, continuam a ser muito mais entusiasmantes do que a grande maioria das séries que encontramos hoje na Netflix.

Voltámos ao pequeno mundo da pacata (e fictícia) cidade de Tambury, no Reino Unido. Tony, o protagonista, continua a viver num estado permanente de luto, após a morte da mulher. Ainda que com um nível de miséria inferior ao que nos habituou no passado, graças aos acontecimentos do final da segunda temporada.

Entre abril de 2020 e janeiro de 2022, muito pouco mudou em “After Life”. Quase como se fosse “Groundhog Day”, aquelas personagens vivem embrenhadas nas suas rotinas repetitivas e existências pacíficas. Mesmo que todas estejam a lidar com os seus problemas.

Tony continua a adormecer depois de beber quantidades astronómicas de vinho e a ver vídeos de Lisa, a pessoa calorosa e divertida que era a sua mulher. Durante o dia, talvez seja agora alguém com menos raiva e angústia à flor da pele. É a evolução natural daquilo que esperávamos de Tony como personagem. 

O que tinha ficado subentendido e que afinal não era bem assim é que Emma, a funcionária do lar de quem Tony se aproximou, nunca passou de uma “amiga platónica”. Já sabíamos que nunca iria substituir Lisa. Mas pensámos que pudesse encaminhar a narrativa de “After Life” para outro rumo. Na verdade, e tal como tudo em Tambury, nada se alterou profundamente.

Não há nada de surpreendente na terceira temporada de “After Life”, é preciso assumir isso. Ricky Gervais voltou a jogar com as mesmas peças que apresentou no tabuleiro em 2019. E as duas primeiras temporadas foram, inclusive, superiores a esta. Por exemplo, não percebemos o protagonismo dado a Brian e James, cujas narrativas nunca se cruzam verdadeiramente com a de Tony. E onde raio está Roxy, a protagonista que é mencionada várias vezes mas que nunca regressa para dar a sua perspetiva?

Contudo, a artificialidade de Tambury é um lugar de especial conforto para todos os fãs. O reencontro com estas personagens peculiares — e distantes daquelas que encontramos na maioria das séries — foi ótimo. As diversas piadas de Gervais, o constrangimento entre personagens, os diálogos sentimentais que são ensinamentos de vida, a ótima banda sonora, enfim, são tudo elementos que tornam “After Life” numa série maravilhosa.

O final é, diríamos, inevitável. Aos poucos, Tony vai mudando de perspetiva e volta a conseguir apreciar a vida. Por mais frágil e fugaz que seja, também é linda e vale a pena ser vivida — a mera existência não chega, é um desperdício. E este homem consegue redimir-se.

“After Life” é uma série bonita, divertida, com momentos de chorar a rir e outros tão emocionantes em que vai ser desafiante não verter lágrimas. É sobre as coisas importantes da vida: uma história simples e corriqueira que serve como veículo para transmitir grandes mensagens. Vamos ter saudades, mesmo que não fizesse sentido prolongar a narrativa.

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