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Crítica: vamos falar do final chocante de “Por Trás dos seus Olhos”?

A minissérie de seis episódios tem sido uma das mais vistas na Netflix desde que estreou.
David e Louise são dois dos protagonistas.
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Estreou há uma semana e meia na Netflix e ainda não abandonou os primeiros lugares das tendências nacionais da plataforma de streaming. “Por Trás dos seus Olhos” tem seis episódios e é uma adaptação do livro com o mesmo título escrito por Sarah Pinborough, publicado em 2017.

Esta produção tem os vários elementos — os bons e os menos bons — típicos de uma série contemporânea da Netflix. É um thriller psicológico altamente estilizado e bem realizado, com personagens que escondem segredos obscuros e o grande mecanismo narrativo para dar respostas é o flashback.

A protagonista desta história é Louise, uma jovem mãe solteira em Londres que quase não tem tempo para si mas que num dia, por acaso, conhece um adorável estranho num bar. Depois de uma noite bem-disposta a conversar, ela e ele despedem-se com um beijo. “Não, não posso fazer isto”, interrompe de repente aquele homem escocês, que se vai embora.

No dia seguinte, ela percebe o que aconteceu. Louise chega ao trabalho, uma clínica psiquiátrica onde é secretária, para perceber que aquele homem — que se chama David e é casado — é o seu novo chefe. 

Os dois tentam seguir em frente de forma profissional, ignorando aquilo que aconteceu naquela noite à porta do bar. E ninguém tem de saber de nada. Mas claro que isso não vai acontecer. E Louise começa a perceber que há um lado meio perturbador no temperamento do seu chefe, que bebe demasiado e parece ter problemas com a mulher, Adele.

Certo dia, por acaso, Louise depara-se com Adele, que a convida para um café. As duas começam a conversar, Adele é solitária e não tem quaisquer amigos ali, e aos poucos formam uma ligação. Isto enquanto Louise e David também se aproximam, o que faz com que  se forme um bizarro triângulo amoroso.

A história leva o seu tempo para desenvolver as diversas dinâmicas neste triângulo confuso. Louise cede ao desejo que tem por David mas sente-se mal porque também está a gostar de ser amiga de Adele; David vê em Louise o escape que precisa na sua vida para fugir ao pesadelo que parece ser conviver com Adele; e Adele parece ser totalmente fiel e devota a David, mesmo quando este a parece tratar pessimamente.

Ao longo dos primeiros quatro episódios os espectadores ficam cada vez mais intrigados. Porque é que David trata Adele desta forma? Porque é que Adele tem de tomar tantos comprimidos? Porque é que Adele se comporta de forma tão peculiar? De que forma é que isto vai sobrar para Louise?

O pequeno Adam é uma ótima personagem secundária.

Ao mesmo tempo, vamos acompanhando os flashbacks de Adele, da altura em que tinha cabelos compridos e uma expressão sorridente, apesar de estar internada numa instituição psiquiátrica. Lá, conheceu um amigo, um toxicodependente de heroína chamado Rob, que é fascinado por ela (embora não percebamos bem se isso também é verdade em termos amorosos). E Rob vai ocupando um papel cada vez maior na narrativa.

O problema — e só continue a ler este artigo se já tiver mesmo chegado ao final da série — é que enquanto estamos a tentar resolver um puzzle com as pistas que nos foram dadas, tentando encontrar respostas que deem sentido àquela confusão, a série atira-nos de repente para um puzzle completamente diferente, e claro que as peças não encaixam.

Ou seja, enquanto os espectadores estão durante a maior parte da série à procura da lógica no mundo real — tudo isso é um desperdício de tempo que não vale rigorosamente nada. Porque a lógica a que obedece a narrativa de “Por Trás dos seus Olhos” torna-se completamente diferente quando entra o fator sobrenatural.

Já antevíamos que poderia haver algo que apontasse nesse sentido tendo em conta a insistência da série em tornar relevantes os pesadelos sonâmbulos de Louise. Mas nunca imaginaríamos que fosse tão longe.

Acabamos por descobrir que Adele projeta o seu astral — que é basicamente abandonar o seu corpo com a sua alma, ou espírito, para vaguear por aí. É assim que ela parece saber tudo — ela estava a observar enquanto estava fechada em casa. E também foi assim que ela não acordou no dia em que houve um incêndio na sua mansão — teve a sorte de ser salva por David, mas os seus pais morreram. 

Dão-nos algum tempo para absorver esta informação dramática, mas no final a série não está preocupada com isso e faz de tudo para nos chocar — mesmo que isso não faça muito sentido. Louise não quer que Adele morra e, depois de não conseguir abrir a porta de casa, abandona o seu corpo para perceber o que se passa lá dentro. É uma armadilha e Adele também sai do seu corpo — para chegar ao de Louise. As duas trocam de corpos (e é a primeira vez que descobrimos sequer que isso é possível) e a verdadeira Adele acaba por matar Louise, apoderando-se da sua identidade — tudo porque ela tem uma boa relação com David.

Só que este ainda não é o momento mais chocante. Mais tarde percebemos que aquela também não era a verdadeira Adele — é Rob, com quem Adele tinha feito experiências astrais do género, que habita aquele corpo. Tudo porque queria ficar com David para si e deixar para trás uma vida de miséria completa. Louise (que é Rob) casa-se com David e é um “novo começo”, tão desejado por Rob, entre os dois. No final até temos direito a um sorriso arrepiante de Louise, enquanto olha para o (pobre) filho que não é seu — que até nos faz relembrar de “Get Out”, mesmo que aqui a etnia não pareça ser relevante.

Estas duas revelações são as únicas reviravoltas realmente surpreendentes no enredo de “Por Trás dos seus Olhos” — e isso não significa que sejam boas. A série consegue o efeito de choque, claro, mas a que custo?

O facto de Rob (em versão Adele) ter estado a assistir a tudo aquilo que nós vimos nos primeiros episódios estraga-nos um pouco a série. A personagem de David está mal contextualizada — falta ali algo que nos leve a imaginar como é que passou de filho de uma família humilde que geria a mansão dos pais de Adele para homem sofisticado e poderoso, que detém todo o dinheiro da sua mulher. 

Louise e Adele falam pela primeira vez neste café.

A relação entre David e Louise também não é propriamente convincente em vários momentos — e nem vamos falar muito sobre a casa com varanda que Louise tem em Londres a trabalhar durante três dias por semana como secretária. Apesar disso, o contexto familiar de Louise está bem explorado e adequa-se à narrativa.

Também nunca chegamos a entender completamente como é que Adele e David chegaram à situação em que estão naquele momento — em que ela está quase proibida de sair de casa e está ultra medicada, e David se tornou um marido super controlador. A história da antiga “Louise”, Marianne do café de Brighton, também está a mais e parece que foi empurrada para dentro da série. E, noutro assunto, “Por Trás dos seus Olhos” também não explica propriamente a origem dos pesadelos de Louise em relação à morte da mãe, apesar de ser algo claramente relevante para a sua personagem.

Gostemos mais ou menos do final da série, o que podemos e devemos elogiar é o trabalho dos atores principais. Simona Brown é especialmente convincente como Louise, enquanto Eve Hewson faz um ótimo papel — que tem quase literalmente várias camadas — como Adele. A sua aura é profundamente sinistra e arrebatadora. Tom Bateman, como David, é o menos brilhante do trio.

Em suma, sentimos que “Por Trás dos seus Olhos” começou como uma série promissora que exigia uma conclusão satisfatória que não esteve à altura. A minissérie entretém mas não nos satisfaz completamente. Em termos narrativos, os flashbacks que repetem sucessivamente as mesmas ideias também não ajudam.

Leia também o artigo da NiT sobre o facto de Eve Hewson ter um pai muito conhecido. O seu nome é Paul Hewson, mas ele é mais conhecido como Bono Vox, o vocalista dos U2.

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