Televisão

“Crónica dos Bons Malandros”: os famosos ladrões estão de volta na nova série da RTP

A obra de Mário Zambujal que já é um clássico ganha outra vida na nova série da RTP.
Obra original é de Mário Zambujal.

Já lá vão 40 anos. O livro não precisou de grande pompa quando foi lançado. Era, simplesmente, uma ótima leitura — com humor, tensão e algo de tocante naquele grupo de sete gatunos, desajustados da vida, a planear “o maior assalto do século”.

Desde 1980 que a “Crónica dos Bons Malandros” nunca saiu dos escaparates, com sucessivas reedições. Mereceu até um filme com o mesmo nome, lançado em 1984 pela mão de Fernando Lopes, com um elenco que contava com nomes como João Perry, Maria do Céu Guerra e Nicolau Breyner, entre outros.

Estamos em 2020 e o formato de série é cada vez mais uma aposta. Há mais tempo para desenvolver a história e por todo o mundo temos cada vez mais talento do cinema a mostrar-se também no pequeno ecrã. Ainda para mais, com um livro com uma estrutura que permitia que cada um dos ladrões brilhasse no próprio capítulo, havia algo que poderia funcionar em televisão.

É esta quarta-feira, 2 de dezembro, que vamos finalmente ver a obra em modo série, numa adaptação a cargo de Jorge Paixão da Costa, que contou com o guião de Mário Botequilha e a ajuda do próprio Mário Zambujal, que, aos 84 anos, ainda tem boas histórias destes gatunos trapalhões para nos contar.

O grupo de “Crónica dos Bons Malandros” não tem o charme dos assaltantes de “Ocean’s Eleven” nem tão pouco a preparação crua e meticulosa dos macacões de “La Casa de Papel”. O seu charme, o que nos cativa, é precisamente a sua forma desajustada, com algumas características bem portuguesas a servirem de base.

É bem diverso o grupo de ladrões: tem o seu chico-esperto, o tipo eloquente e mais cerebral, a figura mais paternal, o bruto desajeitado, a rapariga inteligente (com bem-vindos clichés de uma nova mulher portuguesa), a miúda ingénua e o líder pacifista e com feitio. São mais bondosos do que gente sem escrúpulos, mais trapalhões do que profissionais do crime. E contam todos com um passado que, pelo trabalho de Mário Zambujal, tem algo de humano (mesmo quando é um pouco absurdo).

O Portugal do início da década de 1980 tinha saído há seis anos da ditadura do Estado Novo e da Guerra Colonial mas estava a outros seis de entrar para a União Europeia. Havia mais liberdade mas uma única auto-estrada no País, uma democracia ainda jovem e este nosso eterno lado remendado. Havia, ainda, algo de rural na pulsão citadina. Encontramos também um pouco deste novo Portugal na obra.

Marco Delgado, Maria João Bastos, Rui Unas, Joana Pais de Brito, Manuel Marques, Adriano Carvalho e José Raposo são o grupo que tem agora em mãos, na televisão, o tal assalto do século. É um elenco seguro para um crime cuja vítima é uma coleção de jóias na Gulbenkian.

O humor da obra original nunca envelheceu. É “intemporal”, como o próprio realizador afirmou ao “Diário de Notícias”. “Há malandros em todo o lado”, acrescentava Jorge Paixão da Costa. Estes, no entanto, além do seu lado humorístico, andam também sempre perto da tragédia. À sua maneira, cada um deles conheceu o risco e o lado mau da vida. É também este equilíbrio que os torna humanos. São gente com defeitos, não cartoons.

A série chega à RTP esta terça-feira, pelas 21 horas (passará também pelo RTP Play). São oito episódios com um extra de nostalgia pelos anos 80, mas acima de tudo representa um lugar especial na ficção portuguesa, reservado para estes sete ladrões. Há malandros por todo o lado, é verdade, mas só alguns são especiais.

A “Crónica dos Bons Malandros” é a primeira de muitas outras séries que estreiam ou regressam este mês de dezembro. Carregue na galeria para as ficar a conhecer.

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