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“The Crown” regressa com novo vilão, melodrama e um enorme tropeço antes do final

A primeira parte da sexta e derradeira temporada chegou à Netflix esta quinta-feira. É uma desilusão.
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Para a maioria dos adultos, a memória do dia da morte de Diana está ainda bem presente. Os mais de vinte anos que se passaram não foram suficientes para desfazer o tumulto das notícias que antecederam o acidente — e do drama que se seguiu.

À medida que as temporadas de “The Crown” se iam sucedendo — e com elas a aproximação do presente —, íamos conseguindo antecipar as cenas seguintes, num exercício calculista que nos fazia tentar prever motivações e ações de personagens. Nunca isso é tão real quanto nesta primeira parte da sexta e derradeira temporada, que estreou na Netflix na quinta-feira, 16 de novembro.

Sabíamos que este era o momento de Diana. Os produtores já tinham avisado que a morte chegaria neste lote de episódios. Mais do que ser o momento de Diana, a primeira parte da temporada é um one woman show. Não há espaço para mais ninguém, com a honrosa exceção de Carlos, numa curiosa viragem da personagem, uma espécie de redenção do homem que agora é rei.

A narrativa retoma o seu curso na aproximação entre Dodi e Diana, mas de uma forma atabalhoada. Os três episódios iniciais parecem servir como um mero preâmbulo de uma morte anunciada — em vez de contarem uma história. A cada cena, antecipa-se a tragédia e os seus contornos.

Diana em Saint Tropez. Diana em Londres. Diana em Paris. Diana num iate. Diana num jato. Diana num helicóptero. A omnipresença relega todas as outras personagens a meros figurantes. Mohammed al Fayed passa a ser uma espécie de pequeno vilão e é agora retratado como peça fulcral na sequência de acontecimentos que levaram ao trágico acidente que vitimou o filho e Diana.

Em contraponto surge Carlos — Dominic West merece, ainda assim, uma ovação em pé —, que está mais humanizado. É também o detentor das mais fortes e mais hilariantes linhas de diálogo do guião.

Perante a recusa de Isabel II em usar o protocolo real para trasladar o corpo de Diana de França para Inglaterra, Carlos deixou um recado, transmitido por um assistente: “Preferem que a mãe do futuro Rei de Inglaterra seja trazida de volta numa carrinha da Harrods?”.

É também este novo e humano Carlos quem confronta Isabel II, aqui num retrato muito pouco lisonjeiro. O calculismo real está exposto em toda a sua crueldade — ainda que, aqui e ali, pequenos gestos e feições apontem para uma réstia da sua humanidade. O primeiro recurso passa sempre por fazer o que é apenas necessário e nunca, mas nunca o que está correto.

Entre a antecipação obsessiva da morte de Diana e a vilificação de Al Fayed, pouco sobra para contar. E entre estes figurantes que vão saltitando pelo ecrã, nenhum mereceu pior destino do que o atabalhoado retrato de Dodi.

O que sabemos que vai acontecer nunca nos espanta. O que não sabemos que aconteceu por detrás da cortina é preenchido com um melodrama demasiado complicado para ser verosímil. A elegância, a subtileza, o “menos é mais” com que o drama familiar real nos seduziu parece ter-se perdido.

Para trás ficam as memórias de temporadas passadas, onde a falta de memória histórica era um precioso ajudante do curso narrativo em si mesmo imprevisível. Havia romance, drama, retratos históricos, cenas épicas e diálogos intimistas — ou até um brilhantíssimo episódio focado apenas em Churchill e o seu retrato. Hoje, resta-nos o diário de Diana.

A redenção, a acontecer, terá que ser feita em seis episódios. O veredito final sai a 14 de dezembro, data de estreia da segunda e final parte da saga real.

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