Televisão

“Cuba Libre”: a série sobre a história da portuguesa que se juntou à revolução cubana

Estreou esta quarta-feira. Ela era a filha do último diretor da PIDE. A NiT entrevistou a atriz protagonista Beatriz Godinho.
Beatriz Godinho interpreta a protagonista.

“Cuba Libre” estreou na RTP1 esta quarta-feira, 21 de setembro, e é a série que relata a história tão extraordinária quanto real de Annie Silva Pais. Ela foi a filha do Major Fernando Silva Pais, o último diretor da PIDE, que deixou uma vida de conforto em Lisboa para se dedicar à revolução cubana de Fidel Castro e Che Guevara. 

O projeto de seis episódios escritos e realizados por Henrique Oliveira parte do livro “A Filha Rebelde”, dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, que contaram a história em 2005 — no seguimento de uma série de reportagens publicadas no “Expresso”.

Dois anos depois houve uma adaptação do livro para uma peça de teatro do D. Maria II. Mas a administração do teatro foi processada pelos sobrinhos do Major Silva Pais, que acusavam a peça de difamação por associar o antigo diretor da PIDE ao assassinato de Humberto Delgado — sendo que nunca foi julgado porque morreu antes de isso ser possível. Esse caso polémico, que resultou numa absolvição, tornou o tema mediático.

Em maio chegou às livrarias “À Procura da Manhã Clara”, um romance histórico de Ana Cristina Silva baseado nesta história real — que cruza os factos verídicos com elementos de ficção. A NiT entrevistou a autora aquando do lançamento da obra. 

Agora, falámos com a atriz que interpreta Annie Silva Pais na televisão, Beatriz Godinho. O elenco inclui ainda nomes como Adriano Luz, Margarida Marinho, Heitor Lourenço, José Raposo, Marcantonio Del Carlo ou Juan Martín Gravina. Leia a entrevista.

Mais de um ano depois das filmagens, a série estreou finalmente esta quarta-feira. Era algo que esperava há muito tempo?
Sim, é sempre um turbilhão de emoções. Tive o privilégio de acompanhar muito o processo de pós-produção com o realizador. É algo muito querido, porque pudemos discutir ideias, ver e rever versões cada vez mais afinadas do projeto, e agora… eu não tenho filhos, mas os pais falam sempre naquele momento em que os filhos saem de casa e que é uma sensação de trabalho cumprido, de “OK, está pronto”. E é estranho. Porque foi um projeto tão acarinhado, com o qual passámos tanto tempo e demorámos muito a pensar nas coisas que o constituíam, que agora é uma felicidade estranha, de “vamos lá ver como é que isto se comporta sozinho agora no mundo”. Será que efetivamente fizemos um bom trabalho? Como é que as escolhas que fizemos vão ser aceites? É um misto de sensações, com muita felicidade e entusiasmo, mas também ficamos atentos e curiosos.

Quando soube deste projeto pela primeira vez, qual foi a sua impressão? Já conhecia esta história?
Não conhecia esta história e fiquei bastante surpreendida, porque a minha família paterna pertenceu avidamente ao Partido Comunista Português, mesmo antes do 25 de Abril — e conheço imensas histórias. De repente, quando recebi o pedido de casting, fiquei chateada [risos]. Como assim, ninguém me contou sobre esta mulher? Foi um trabalho incrível e riquíssimo de investigação do José Pedro Castanheira e do Valdemar Cruz. E quanto mais eu ia conhecendo sobre a história de vida desta mulher, mais me ia apaixonando. Foi amor à primeira vista, mas depois foi-se intensificando cada vez mais. E eram cenas grandes, ricas, logo muito bem construídas. O Henrique [Oliveira] esteve 20 anos a trabalhar neste argumento, portanto as cenas já estavam muito detalhadas, estruturadas e complexas, em três línguas diferentes — português, francês e espanhol. Pareceu-me muito desafiante, apaixonante por causa da história, amplamente baseada em factos verídicos — e é tão rica que parece ficção. Quisemos honrar esta história. E pareceu-nos quase um daqueles milagres de coincidência, de fazer uma produção tão ambiciosa com os meios que existem em Portugal, e as coisas foram correndo bem. Às vezes foi pura e simplesmente sorte. Noutras foi engenho de profissionais incríveis. Mas é de facto um projeto especial que logo desde o início prometia ser assim.

Tendo em conta que foi um projeto desafiante — pela questão de ser uma história verídica, das várias línguas, de ser uma narrativa complexa — como preparou a personagem?
Foi a primeira vez que tive de construir uma personagem de forma tão deliberada, baseada em factos verídicos de uma pessoa que existiu. Naturalmente divido o meu processo de trabalho entre uma parte mais solitária, de estudo, “vou tentar inteirar-me o máximo possível relativamente àquele universo”. Fora o livro “A Filha Rebelde”, existem algumas fotografias e coisas, mas muito pouco. E este período em termos de contexto histórico e cultural é muito efervescente. Desde o final dos anos 50 até ao início dos 90, foi uma oportunidade perfeita para fazer a revisão de toda a história de Portugal e mundial também. Este estudo não parte só de questões teóricas. O que é que se ouvia na altura? O que se via? Quais eram as principais figuras? Para ela, o Che Guevara, obviamente. Mas ela também tinha uma fixação grande pela Brigitte Bardot. Essa questão mais feminina rebelde e livre que ela própria almejava. Estes diferentes inputs sensoriais também eram importantes. E a segunda parte do processo é limpar o que tenho e ter uma discussão muito cúmplice com o realizador e a equipa toda. Os figurinos, por exemplo, foram feitos para refletir a moda nestes períodos, mas também para se tentarem mesclar com a própria narrativa da personagem — esse trabalho foi super interessante. Temos cenas em que ela está nos 21 anos e vai até aos 54, com próteses, algo que eu também nunca tinha feito. Cada equipa utiliza a sua mestria para comunicar com os outros setores e para tentarmos chegar a um bom porto todos juntos.

Ao mergulhar nesta história para preparar a personagem, qual foi o detalhe que mais a surpreendeu?
A história é toda bastante surpreendente e curiosa. E se calhar foi esse o maior desafio. A questão de a Annie se ter juntado aos 30 anos à revolução cubana e de ter feito treino militar e tudo mais… Mas há muitos pontos importantes nesta história que precisam de ser caminhados no tempo certo. O arco temporal é muito extenso e a minha principal preocupação, como não existe esse ponto de viragem único, era ir acompanhando os diferentes pontos de viragem que ela vai tendo e tentar ser justa no desenvolvimento das ideias e das emoções dela durante esse percurso todo. E estar constantemente atenta a essa progressão. Como é uma mulher muito intensa e passional, está sempre exatamente no sítio onde está — não é uma pessoa que viva muito de memórias, está sempre a ir para a frente e é muito influenciada pelo sítio onde está e pelas pessoas que a rodeiam a cada momento. Mapear esse percurso foi aquilo a que me dediquei mais, porque tinha de ser um trabalho delicado.

Trata-se de uma história real e extraordinária, que muitos portugueses não conhecem. Fazem falta mais histórias destas na ficção portuguesa?
Sim, ou seja, esta relação de namoro constante entre a ficção e a realidade — se bem que existem factos mas também há várias realidades, porque ela é sempre subjetiva… Uma coisa que me deixou muito feliz, mas também a sentir o peso da responsabilidade, é que principalmente à época que foi, é uma história muito moderna. Acho que a Annie tinha um pensamento muito à frente daquilo que queriam que ela fosse. Principalmente num Portugal de ditadura e sendo uma mulher. Há muitas coisas que estão à espera que ela faça, que ela pense. E poder ser o veículo para disseminar uma história de uma mulher com uma personalidade tão forte é uma alegria imensa, porque adoro estas histórias e acho que precisam de ser contadas. O percentual ainda está bastante desequilibrado. Já estamos muito melhores, mas ainda há esse défice. Uma mulher pode ser como a Annie: pode ser feminina e forte. Pode ter relações passionais e amar as pessoas que estão à volta dela, mas continuar a construir a sua vida à sua maneira. Querer ter uma carreira e não se abandonar a um casamento. Porque é que as coisas não se podem conjugar? Hoje em dia, é um dado mais adquirido — mesmo que não completamente. À data, é de uma coragem e de uma viagem um pouco solitária. Mas ela fê-la. E tentar perceber que viagem foi na cabeça dela, o que a levou a ter esta paixão e coragem de construir a vida à sua própria semelhança, foi incrível.

E independentemente dos ideais políticos de cada espectador, a Annie Silva Pais pode ser esse símbolo, de ousadia e coragem feminina.
Sim! E isto prende-se com uma inteligência muito sensível do Henrique, que me agradou imenso no argumento que me apresentou. Nós temos personagens que pertencem aos extremos dos quadrantes políticos, mas o Henrique focou-se sempre nas emoções e relações humanas entre elas. Suspendeu completamente a questão do julgamento moral. Ele convida a pensar sobre as coisas. Apresenta argumentos das diferentes visões do mundo que é possível ter nesta série. E põe-nas a dialogar, as personagens umas com as outras sobre estas mundivisões. Mas nunca eleva um ou outro, é sempre uma dança. Enquanto espectadora, adoro ver projetos assim. Sinto-me convidada a pensar com estas pessoas. Não gosto que sejam condescendentes comigo. E isso foi uma delicadeza muito inteligente da parte do Henrique, tendo em conta que se trata desta história.

Depois desta série, que teve um processo longo e é agora, como disse, uma “filha” a caminhar pelo mundo, o que se segue? Em que projetos está a trabalhar?
Agora estou completamente dedicada à divulgação deste projeto, até porque em outubro começamos com alguns compromissos, mesmo a nível internacional — a série vai ter representação internacional, o que nos deixa bastante felizes. Estou a continuar a tentar encontrar, como sempre fiz, projetos em que sinta que consiga acrescentar alguma coisa. Depois de termos terminado a rodagem, já fiz projetos em teatro, uma longa-metragem, novela, fiz uma minissérie. Prefiro pensar em coisas que existem, projetos com que me cruze e que são coisas específicas. Que eu tenha alguma coisa a acrescentar. Agora estou completamente dedicada à divulgação da série, mas vou andando a fazer coisas por aí.

Carregue na galeria para conhecer outras novas séries de televisão.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT