Televisão

David Attenborough faz 100 anos. Estes são os momentos mais extraordinários da sua carreira

Recorde alguns dos pontos altos dos programas feitos pelo homem que mudou os documentários sobre natureza.

David Attenborough. É, provavelmente, o nome apresentador de programas de vida animal mais famoso do mundo e uma das vozes mais influentes de documentários de divulgação científica em televisão. Esta sexta-feira, 8 de maio, o britânico chega ao impressionante marco dos 100 anos. 

Exemplo de longevidade, talento e resiliência, tornou-se conhecido por aproximar milhões de pessoas do mundo animal, nas últimas décadas, através de séries como “Planet Earth”, “Blue Planet” e “Life on Earth”, juntando rigor científico a emoção.

A sua voz calma, quase hipnótica, é reconhecível em todo o mundo, mas o seu impacto vai muito além da narração. Ajudou a revolucionar os documentários de vida selvagem, levando equipas de filmagem aos locais mais remotos do planeta e mostrando comportamentos animais que quase ninguém conhecia. Attenborough ensinou-nos a olhar para a natureza com fascínio e, mais tarde, com preocupação.

Numa biografia partilhada pelo “The Guardian”, recorda-se uma reunião nos estúdios da “BBC”, no final dos anos 80, onde a grande preocupação era a iminência da reforma de Attenborough, ao fim de 40 anos de colaboração. “Temos que pensar em alguém que possa substituir o David assim que a sua série acabar”. 

A resposta, no entanto, nunca chegou, porque este manteve-se no ativo. O apresentador tinha, então, 65 anos e manteve-se firme na sua missão. Aos 100 anos, Attenborough continua a ser insubstituível. E a prova é que continuou envolvido em novos projetos. Um deles é o documentário chamado “A História de um Gorila”, que estreou a 17 de abril na Netflix.

Ali, narra a história de um grupo extraordinário de gorilas, desde o seu primeiro contato nos anos 1970 até os dias de hoje. O documentário revisita um dos momentos mais icónicos da história do britânico: o encontro de David Attenborough com os gorilas-das-montanhas no Ruanda durante as filmagens de “Life on Earth”, em 1978. A obra acompanha os descendentes de Pablo, o jovem gorila que interagiu com Attenborough há quase 50 anos, combinando imagens de arquivo com novas filmagens captadas nas montanhas de Virunga.

Ao longo da promoção do filme, Attenborough recordou várias vezes o impacto emocional desse encontro. “Há mais significado e compreensão mútua na troca de um olhar com um gorila do que com qualquer outro animal que conheço”, diz. Attenborough também descreveu Pablo como “um embaixador de toda a sua espécie” e confessou que o contacto com os gorilas continua a ser “a memória mais vívida” da sua carreira.

A produção acompanhou durante mais de 250 dias a vida do chamado “Grupo do Pablo”, mostrando conflitos de liderança, relações familiares e a recuperação populacional dos gorilas-das-montanhas, cuja população passou de cerca de 250 indivíduos nos anos 1980 para mais de mil atualmente.

Os projetos dos últimos anos

Apesar da idade avançada, o britânico trabalhou em vários projetos nos últimos anos — e no currículo há várias produções que se destacam. Em janeiro de 2022, por exemplo, foi o protagonista de “The Green Planet”, uma série documental da BBC centrada no mundo das plantas.

A produção destacou-se pelo uso de tecnologia avançada de captação de imagem, incluindo time-lapse e câmaras especiais capazes de mostrar movimentos das plantas invisíveis ao olho humano. A série revelou a complexidade do comportamento vegetal e a relação entre plantas, animais e clima.

Dois meses depois, foi lançada “Dynasties II” na Prime Video, a sequela da acalmada “Dynasties”. Nesta nova temporada, Attenborough voltou a narrar histórias de sobrevivência animal focadas em famílias e líderes de espécies como elefantes, chitas, pumas e hienas. A série apostou numa abordagem cinematográfica próxima do drama, acompanhando durante anos o quotidiano destes animais em estado selvagem.

Já em outubro de 2023 estreou “Planet Eart III”, a terceira parte de uma das mais emblemáticas séries de natureza da televisão. Narrada novamente por Attenborough, a produção mostrou ecossistemas de todo o planeta recorrendo a novas tecnologias de filmagem e enfatizou fortemente o impacto das alterações climáticas e da atividade humana na vida selvagem.

No ano passado, David continuou com toda a força e apresentou “Ocean with David Attenborough”, dedicado à saúde dos oceanos e às ameaças enfrentadas pelos ecossistemas marinhos. O projeto, desenvolvido em parceria com a National Geographic, procurou demonstrar como a recuperação dos oceanos pode ser decisiva para combater as alterações climáticas e preservar a biodiversidade marinha.

Como construiu uma vida dedicada ao mundo animal na televisão

O homem que foi rejeitado pela BBC na primeira ocasião em que enviou o seu currículo, havia de tornar-se num dos nomes mais reconhecidos da estação, quando em 1954 foi chamado a substituir o habitual apresentador de “Zoo Quest”, impedido de trabalhar por doença. À época, Attenborough nem sequer tinha uma televisão em casa, mas já era uma estrela da televisão.

Além de ser um dos homens mais viajados do planeta — estima-se que apenas para o documentário “The Life of Birds” tenha percorrido mais de 400 mil quilómetros —, é também uma das vozes mais respeitadas no que concerne a vida do planeta.

Talvez por isso o mundo tenha parado para ver “Uma Vida no Nosso Planeta”, outro especial da Netflix lançado em 2020, no qual Attenborough debate o futuro do planeta. Um tema analisado com a habitual frieza e ponderação do britânico, mas que para os críticos já veio tarde.

A verdade é que com ou sem conselhos sobre como preservar a vida no planeta, Attenborough dedicou grande parte dos seus anos a ensinar-nos a apreciar cada uma das espécies que convivem connosco. E sobretudo a encontrar magia até nos animais aparentemente mais aborrecidos e desinteressantes.

Curiosamente, o britânico revelou por várias vezes que é fascinado por animais, mas que não pode ser classificado como um “amante de animais”. “Não o sou, se isso significar que gostas dos animais se lhes puderes fazer festinhas”, revelou.

Apesar do pragmatismo, Attenborough chegou a ter um verdadeiro jardim zoológico em casa, com chimpanzés a partilharem o espaço com cobras, camaleões e lémures. “Só tinha esses animais todos porque à época estava a colecionar animais para o Zoo de Londres. Voltei [das viagens] com mais de 150 animais e o zoológico ficava com alguns deles.”

Com mais de trinta produções ao longo de quase 80 anos de carreira, os documentários de Attenborough estão repletos de momentos revolucionários. É o caso do momento dramático captado em câmara — numa sequência devastadora — que mostra pequenos gansos bebé a saltarem de um penhasco para se reunirem com os pais.

A narração e os planos de filmagem são do melhor que o género já viu e só poderia sair da mão de David Attenborough. O final é agridoce, mas é a natureza tal como ela é e como o britânico sempre nos mostrou.

Muitos anos antes, em 1979, foi protagonista de uma cena que ficou para a história e que é, talvez, a mais emblemática da sua carreira. Em “Life on Earth”, pôde finalmente contar em 13 horas a vida no planeta e numa dessas filmagens, acompanhou um grupo de raros gorilas das montanhas.

À medida que os ia acompanhando à distância, os animais habituaram-se à sua presença. De repente, deu por si no meio do grupo, que se enroscou no apresentador, como se ele fosse um dos seus. Foi “uma das experiências mais espetaculares” da sua vida.

Esta relação íntima com os animais vem de longe, tinha ainda apenas 29 anos e era um novato nos estúdios da “BBC”. As primeiras imagens do explorador são de 1956 e mostram Attenborough a tentar travar amizade com um pequeno orangotango.

Preso numa jaula, o animal mostrou-se indomável nos primeiros dias, até que a persistência do apresentador deu frutos. As recompensas de comida ajudaram o animal a relaxar, até ao ponto em que se sentiu a vontade para sair e acompanhar Attenborough.

O que lhe deu fama foi também a sua precisão e arte de narração. A voz inconfundível, o minimalismo, a capacidade de saber quando nos dar a informação e quando nos deixar a sós com as impressionantes imagens.

Outro dos momentos impressionantes, se bem que curtos, é um captado em “Planet Earth II”, onde numa sequência que envergonha muitos filmes de Hollywood, acompanhamos a fuga de uma pequena iguana, completamente rodeada de cobras predadoras.

E, claro, há sempre espaço para momentos de humor. Nesse plano, não há melhor sujeito do que o pinguim. Neste caso, a sequência que se tornou famosa e que mostra os rituais de acasalamento da espécie.

Attenborough explica-nos que cada macho procura construir o melhor ninho com as pequenas pedras que vai apanhando. O mais impressionante, ajudará a atrair a melhor fêmea.

Porém, como em tudo na vida, nem todos os pinguins jogam limpo. E há pinguins que quebram as regras e optam por “uma vida de crime”, nota o apresentador.

O fenómeno David Attenborough é de tal forma avassalador que em 2006, a BBC criou uma votação para que os britânicos pudessem escolher o melhor momento da sua carreira. E o sujeito do vídeo vencedor foi um improvável pássaro lira.

É um daqueles casos em que é preciso ver para crer. O pássaro, explica Attenborough, é um especialista da imitação. Para impressionar as fêmeas, tenta interpretar a mais bizarra e complicada canção, usando não só os seus sons habituais, mas os de todos os que capta na floresta.

É uma espécie de pássaro gravador, no sentido em que é capaz de replicar na perfeição os sons que o rodeiam, na sua maioria os cantos de outras espécies vizinhas. Mas não só. De repente, o pássaro lira emite um som bizarro. “É o disparar de uma câmara fotográfica”, nota Attenborough. “E isto é o alarme de um carro.” O segmento termina com a imitação perfeita de uma motosserra.

Quando fez 95 anos, revelou que não sabia o que viria ainda pela frente. “Penso na minha mortalidade todos os dias e não de uma forma mórbida, mas creio que de uma forma mais observacional. De repente, percebo que já me esqueço de alguns nomes, quando há três anos seria capaz de prolongar a conversa o tempo suficiente para me recordar do nome e avançar”, revelou ao “The Telegraph”.

“Percebes que estás a desacelerar”, confessa, apesar de notar que comparativamente a alguns amigos com a mesma idade “que não se lembram de nada” ou “nem sequer andam”, se considera “um tipo sortudo”.

David Attenborough admite ter vivido “a carreira perfeita”. Entre as dezenas de distinções que recebeu, inclui-se o título de cavaleiro atribuído pela British Royal Family, em 1985.

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