De Avintes para o mundo (ou pelo menos para a RTP Play), o músico que se tornou o “sociólogo da era digital” estreia-se no audiovisual com “Sangue & Mármore”. Conhecido por unir mundos improváveis, David Bruno soma colaborações com artistas como Rui Reininho, Gisela João, Marlon, PZ e Mike El Nite (com quem formou a dupla David & Miguel para o álbum “Palavras Cruzadas”).
Entre o crime e a portugalidade pura, o artista de 42 anos, natural de Mafamude/Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia, explica como uma áudio-novela pandémica se transformou numa série de culto e por que razão o seu bloco de notas está cheio de histórias “à espera da Netflix“.
A conversa com a NiT começa com uma interferência na linha de WhatsApp, um daqueles hiatos digitais que o músico e produtor, com a sua habitual bonomia nortenha, descarta prontamente. É um detalhe irónico: o homem que fez carreira a celebrar a estética dos anos 80, das cassetes VHS e da portugalidade analógica, agora tem de lidar com os humores da fibra óptica. Mas o motivo do contacto é tudo menos obsoleto. O “Doutor da Mulher Maravilha” tem um novo trabalho, e desta vez não é (apenas) em formato de disco.
“Sangue & Mármore”, que chega à RTP Play, esta quinta-feira, 12 de fevereiro, é o pretexto para este diálogo. Questionado sobre o que o público pode esperar da série, David não hesita na definição, servindo uma metáfora visual digna de um sommelier de cultura pop: “É uma mistura entre David Lynch e a RTP Memória”.
“Sequeira (Rui Reininho, vocalista dos GNR), um poderoso empresário do sector dos acabamentos, é encontrado sem vida junto ao Zoo de Santo Inácio, em Avintes. No corpo são descobertas duas pistas, uma unha vermelha e a fotografia de uma mulher desconhecida, que lançam o detective privado Guedes (Jorge Paupério) numa investigação em que nada é exatamente o que parece”, revela a sinopse.
“Ao longo da narrativa surgem novas perguntas: quem é a mulher misteriosa (Bárbara Magal), onde está Crespo (João Delgado Lourenço), o antigo Dragão Sandinense desaparecido, e que destino teve a fortuna de Sequeira?”, acrescenta a apresentação.

A produção de cinco episódios mergulha nos tropos clássicos do género noir. Estão lá todos os ingredientes: a femme fatale, o detetive solitário consumido pela melancolia, o cadáver que aparece sem explicação e uma aura de mistério que parece flutuar sobre a neblina. Contudo, em vez das ruas de Los Angeles ou dos becos sombrios de Paris, o cenário é Vila Nova de Gaia. Ou, mais especificamente, Avintes.
“É um formato que já existe, mas passado numa terra que é minha”, explica o artista à NiT. A escolha geográfica não é um mero capricho bairrista de David Bruno, mas sim uma questão de autoridade criativa. Embora admita que a história poderia ser transposta para qualquer lugarejo de Portugal — as falas foram inspiradas em conversas ouvidas de norte a sul —, os “meandros” que conhece são os de Gaia. É ali que o noir ganha sabor a Broa de Avintes e a realidade se torna suficientemente crua para ser ficcionada.
A génese de “Sangue & Mármore” remete-nos para os dias claustrofóbicos da pandemia. Sem palcos para pisar, David Bruno refugiou-se na escrita. “Todos os meus álbuns têm um guião por trás, um argumento. Preciso desse tipo de referências para fazer música”, confessa. O que começou por ser uma áudio-novela, um sucessor espiritual das radionovelas que povoavam o imaginário dos nossos avós, acabou por ganhar corpo e imagem. A transição para o audiovisual foi mediada pela Anexo 82, produtora e parceira de longa data, com o realizador Francisco Lobo ao leme (que dirigiu também o vídeo de “Mesa para dois no Carpa”, distinguido no festival Curtas Vila do Conde em 2019), em colaboração com a RTP Lab.
Bruno aceitou o convite para transformar o álbum que havia lançado em 2022 numa “telenovela musical” com a humildade de quem pisa um terreno desconhecido. “É um universo que eu não dominava minimamente”, admite. No entanto, o processo foi, nas suas palavras, “muito fácil”. Bruno não se refere à falta de complexidade técnica do projeto, mas “à liberdade criativa total”. “Nunca me tentaram condicionar com perspectivas técnicas, nem com outro tipo de questões”, sublinha.
O guião, confessa, “foi escrito de uma forma muito naïve”. “Era como se fosse um avô a contar uma história aos netos”, descreve. A equipa técnica, em vez de o formatar com as regras rígidas da televisão, optou por preservar essa pureza narrativa. David envolveu-se em tudo, dos figurinos à escolha dos locais de rodagem, garantindo que o “sentimento cru” da sua visão original não se perdia na pós-produção.
No ecrã, David assume o papel de narrador, François da Costa, personagem que confessa ter sido inspirado em Olivier Bonamici (jornalista da Rádio Renascença). “O meu grande sonho era que tivesse sido ele a fazer aquilo”, revela, entre risos. Na impossibilidade de concretizar esse desejo num projeto feito “à base da boa vontade”, David chegou-se à frente. Embora tenha gostado da experiência, o artista é pragmático quanto ao seu futuro na representação: “Portugal já tem muitos bons atores para eu lhes querer tirar o trabalho”, sublinha.
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David acredita que o seu maior contributo para o mundo do audiovisual, ou, pelo menos, aquele que tem mais vontade de dar e que sente que pode ser mais especial, é a escrever histórias e argumentos. A sua “mais-valia” reside na capacidade de “trazer uma nova verve às personagens”, através da sua lente única sobre a sociedade portuguesa.
Há quem lhe chame o “sociólogo da era digital”, um título que aceita com humor, mas que reflete a seriedade do seu trabalho de observação. Para David, a portugalidade não é um conceito estático ou folclórico para “inglês ver”; é um manancial infinito de informação. “Não sou capaz de escrever, cantar ou fazer qualquer tipo de arte sobre coisas ou sítios sobre os quais não tenho qualquer propriedade para falar”, afirma, categoricamente. “Gosto da proximidade com quem está a ver ou ouvir, é fundamental para criar algo com que as pessoas se possam identificar.” Esta honestidade intelectual e a atenção “aos pequenos detalhes” é o que cria proximidade com o público.
David é o tipo de artista que estuda os anúncios de beira de estrada e as caixas de comentários nas redes sociais com a mesma atenção com que outros estudam tratados de filosofia. Da mesma forma que imortalizou a loja “Mulher Maravilha” (um histórico pronto-a-vestir de Gaia) nas suas letras, continua a procurar inspiração no quotidiano. Vê poesia “num casal que passa na rua”, inventa nomes e passados para desconhecidos com quem se cruza e nutre um fascínio quase infantil por contar histórias.
“Se há uma coisa que agradeço aos meus pais é isto: eles metiam-me muito cedo na cama”, exclama, com algum dramatismo irónico. A falta de sono obrigava-o a mobilar o silêncio do quarto com mundos imaginários. “Hoje, inventar histórias é uma coisa que faço naturalmente”, explica.

Em “Paradise Village”, o seu álbum mais recente, lançado em 2024, continua a explorar a portugalidade. O disco, que descreve como “simples e honesto”, convida o ouvinte a refletir sobre “o prazer do descompromisso e o alívio de não ser obrigatório responder às suas dúvidas e problemas de primeiro mundo”.
Para já, o foco de Bruno está na estreia da série: o lançamento oficial acontece esta quinta-feira, 12 de fevereiro, no Gaia Shopping. A cerimónia, que coincide com a celebração do 10.º aniversário da RTP Play, tem início marcado às 21h30.
Questionado sobre o que virá depois, David Bruno garante que, por agora, não tem novos projetos, musicais ou outros, no horizonte imediato. Contudo, o seu “bloco de notas” está longe de estar vazio.
“Se a Netflix me ligasse amanhã para escrever uma sequela? Assinava de cruz, claro. Refugiava-me num bungalow em Macedo de Cavaleiros e começava logo a escrever”, responde, entusiasmado, à hipótese levantada pela NiT. As ideias para novas séries, com novos “cavalheiros” e outros dramas suburbanos, já lá estão, em tópicos soltos, à espera do próximo empurrão.
Se “Sangue & Mármore” será o início de uma nova carreira no audiovisual ou apenas mais um capítulo na sua eclética discografia visual, só o público o dirá. Mas uma coisa é certa: enquanto houver portugueses (e seus descendentes), David Bruno não ficará sem material de estudo. O universo da portugalidade é, afinal, “infinito”.
Carregue na galeria para conhecer algumas das séries e temporadas que estreiam em fevereiro nas plataformas de streaming e canais de televisão.

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