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David O. Russell, o “realizador brilhante” que já deu uma sova a George Clooney

É conhecido pelo mau génio, com vários relatos de abusos e insultos durante as gravações dos filmes. Pelo meio, fez algumas obras-primas.

George Clooney fez uma pausa na azáfama das urgências de “E/R” e viajou para o deserto, onde embarcou numa aventura caótica para gravar “Três Reis”, um dos primeiros filmes do hoje aclamado realizador David O. Russell.

Desde o primeiro dia que o protagonista e o realizador chocaram. Clooney teimava em esquecer-se das suas deixas. Russell, impaciente, vociferava por detrás da câmara. A tensão tornou-se quase insuportável, até que num dia caótico de gravações, entre tanques e helicópteros, Clooney e Russell chocaram e envolveram-se numa luta. Segundo o ator, o realizador agrediu-o com uma cabeçada.

O episódio de 1999, contudo, não foi suficiente para beliscar a carreira de nenhum dos dois. Só que ao contrário de Clooney, que se transformou numa das personalidades mais queridas e unânimes de Hollywood, o realizador construiu, escândalo atrás de escândalo, uma imagem de indivíduo problemático.

Isso não o impediu de se tornar num dos mais reconhecidos nomes da indústria, sobretudo graças aos mais recentes projetos. Consagrou-se com “O Lutador”, em 2011, e em 2013 viu o seu “Guia Para um Final Feliz” receber oito nomeações para os Óscares — sendo que conquistou apenas uma estatueta, na categoria de Melhor Atriz Principal, entregue a Jennifer Lawrence.

Pelo caminho, lançou “A Golpada Americana”, em 2013, e prepara-se agora para trazer aos cinemas portugueses mais uma obra, “Amesterdão”, que reúne, como é seu hábito, um super elenco.

Nos papéis principais estão Christian Bale e John David Washington, dois soldados que acabam feridos e travam amizade com uma enfermeira, Margot Robbie, em Amesterdão. Os três acabam por se ver envolvidos num assassinato que envolve uma elaborada teoria da conspiração, enquanto tentam provar a sua inocência.

Ao seu lado estão nomes como Robert De NiroAnya Taylor-JoyRami MalekTaylor SwiftChris RockMichael ShannonMike MyersZoe SaldañaAlessandro NivolaTimothy Olyphant e Andrea Riseborough completam o elenco de luxo da comédia negra escrita e dirigida por David O. Russel.

Russell continua a atrair estrelas para as suas produções, mas uma nunca voltará a sentar-se ao seu lado. Numa entrevista dada em 2004, Clooney reiterou que o rancor ao realizador ainda se mantinha bem vivo. “Honestamente, se ele se chegar perto de mim, vou partir-lhe a boca”, confessou à revista “Premiere”.

O episódio de 1999 motivou vários membros da equipa a revelarem os detalhes do que se passou durante as gravações. Russell já estava visivelmente irritado com as falhas do protagonista. Conhecido pelo seu temperamento, o realizador perdia regularmente a calma e gritava com tudo e todos.

“Ele gritava e reclamava com toda a gente, durante todo o dia, desde o primeiro dia de gravações”, explicou Cloney em 2000. “Cheguei ao meu limite por várias vezes. Numa das situações, implicou com o operador de câmara que eu conhecia desde miúdo. Eu não tive nada a ver com a sua contratação, mas o David desatou a insultá-lo e a gritar com ele, a envergonhá-lo à frente da equipa.”

“Disse-lhe que podia gritar, até despedi-lo, mas que não podia humilhá-lo. Não no meu set, se eu puder intervir e ter uma palavra a dizer”, confirmou o ator. A gritaria continuou. Chegou a levar às lágrimas uma assistente responsável pelo guião.

O ator, então com 38 anos, estava a perder a paciência e recordou a sucessão de eventos que levaram ao desfecho inesperado. “O David queria que um dos figurantes me agarrasse e me atirasse ao chão. O miúdo estava um bocado nervoso e o David chegou-se a ele e atirou-o ao chão, entre pontapés e gritos. ‘Queres estar nesta merda deste filme? Então atira-o ao chão.’ O assistente de realização aproximou-se e disse-lhe que não podia fazer isso, que se queria algo, deveria antes falar com ele.”

Segundo Clooney, Russell perdeu a cabeça e atirou o walkie-talkie ao chão. “Cala-te caralho. Vai-te foder”, terá dito. O assistente demitiu-se na hora. “Eu voltei a explicar-lhe que não podia empurrar e humilhar as pessoas que não se podem defender. Ele virou-se para mim e disse: ‘Preocupa-te com o teu papel de merda. Deixa de ser idiota. Queres bater-me? Bate-me, seu maricas, bate-me”, recordou. “Estou a olhar para ele e ele a perder a cabeça. E começa a bater-me na cabeça com a cabeça dele. ‘Bate-me, mariquinhas, bate-me.’ Depois agarrou-me pela garganta e eu passei-me.”

Se os relatos dos próprios intervenientes não fossem suficientes, um vídeo de 2004 revelaria o mau génio de David O. Russell nos sets de gravações de forma inequívoca. Num pequeno excerto entre takes, é possível ver o realizador a perder a cabeça, a insultar a atriz Lily Tomlin e a destruir o cenário.

“I Heart Huckabees” era os eu quarto filme como realizador e contava com um elenco com nomes como Naomi Watts, Dustin Hoffman, Jude Law ou Mark Wahlberg. Numa das cenas, Tomlin tenta levar a cabo um take, mas está continuamente a ser interrompida por Russell e manifesta o seu desagrado.

A história, contudo, começa meses antes, no arranque das filmagens. Segundo o “The New York Times”, que teve acesso total na produção, Jude Law teria anunciado a sua desistência do projeto e Russell despejou a raiva nos colegas. Law teria preferido aceitar o convite de Christopher Nolan.

Russell perdeu o juízo e dirigiu-se ao colega realizador em público, durante uma festa, onde o prendeu pelo pescoço, enquanto pedia que libertasse o ator. Dito e feito. Nolan cedeu e Jude Law voltou ao papel.

No set, o ambiente era tudo menos saudável. Segundo a jornalista do diário americano, Russell tinha por hábito ir perdendo peças de roupa e ir-se encostando aos atores e atrizes. Por vezes aos amigos e visitantes.

“No take seguinte, Russell deita-se no chão, diretamente atrás de Lily Tomlin, mas fora do ângulo da câmara. Talvez esteja a tentar potenciar o sentimento de desconforto na cena. ‘É mais provável que esteja a espreitar por debaixo da minha saia’, diz com cara séria a atriz, minutos mais tarde, ao rever a cena no ecrã”, descreve a jornalista.

Noutra cena, Russell terá voltado a tocar em todos os atores, por diversas ocasiões e, de vez em quando, em zonas sensíveis. “A certa altura, [Mark] Wahlberg pega no megafone e grita: ‘Este homem [Russell] acabou de agarrar os meus genitais. É o meu primeiro contacto homem-a-homem’. Noutras ocasiões, o realizador sussurra aos ouvidos das atrizes — obscenidades, confessam elas mais tarde — antes de um take.”

Nada disso surge no vídeo que acabaria por ver a luz do dia, mas um comportamento igualmente perturbador pode ser visto e comprovado. A discussão entre Tomlin e Russell — a atriz queixava-se das constantes interrupções e mudanças decididas pelo realizador — tomou proporções inimagináveis quando este último perdeu a cabeça. “Não estou aqui para gritarem comigo. Não andei a trabalhar nesta merda durante três anos para vir agora uma puta gritar comigo à frente da minha equipa, quando eu estou apenas a tentar ajudar-te, sua cabra. Desenmerda-te”, atirou.

Calmamente, Tomlin responde. “Já tenho tudo resolvido.” Russell, por sua vez, não acalma e percorre o cenário a gritar, enquanto pontapeia objetos e a secretária onde estava a atriz. A certa altura, um dos membros da equipa tem que se agachar para escapar aos objetos que voam pelo ar.

Dez anos mais tarde, Tomlin haveria de revelar que os dois tinham ultrapassado a desavença. Isabelle Huppert, que fez parte do elenco, explicou ao “The New York Times” que o comportamento de Russell no set era intencional, para “destabilizar os atores a bem da sua performance”. “É fascinante, completamente brilhante, inteligente e, por vezes, igualmente irritante.”

Mas o episódio mais perturbador ocorreu longe das câmaras, quando em 2011, a sobrinha do realizador apresentou uma queixa na polícia contra o tio. A jovem transgénero de 19 anos confessou ter sido apalpada por Russell. O realizador, que estava ao seu lado no ginásio ter-se-á oferecido para a ajudar a fazer abdominais. Terá, segundo Nicole Peloquin, colocado a mão no interior do top e agarrado os seus seios.

Ao contrário do que seria de esperar, Russell admitiu tudo. Justificou os apalpões com o facto de a sobrinha “ter agido de forma provocatória” e com a sua “curiosidade pelo resultado dos implantes mamários”. O realizador acabaria por não ser alvo de qualquer acusação.

Mais provas contra ele surgiriam na célebre divulgação de emails da Sony. Os comportamentos de Russell eram bem conhecidos em Hollywood. “O David é doido, é talentoso, mas porra, uma vez vi-o a levar a Sally Field a uma festa e a colocá-la em lágrimas. Mais: lembras-te quando apalpou as mamas da sobrinha trans?”, escreveu um dos executivos da Columbia Pictures num dos emails divulgados.

No mesmo lote de mensagens, foi intercetado um email de um jornalista, que questionava o seu cunhado, CEO da Sony Entertainment, sobre “o que estão a preparar como o Russell?”. No texto, explicava que ouvira vários relatos de comportamentos abusivos no set de “A Golpada Americana”.

“Sei que ele é brilhante, mas conhecemos alguém que trabalhou com ele no filme e não só as histórias de ele ser um homem novo são treta, como as novas histórias de abusos e de comportamento lunático são ainda mais graves, mesmo pelos padrões de Hollywood”, escreveu, antes de relatar o que teria ouvido. “Parece que agarrou um gajo pelos colarinhos, insultou repetidamente pessoas à frente de outras e abusou de tal forma da Amy Adams que o Christian Bale o ameaçou e lhe disse para parar de ser um cabrão.”

Na resposta, o responsável pelo estúdio confirmou tudo. “O próximo filme é para a Fox. Acredita, eu sei tudo sobre o outro [filme].”

Faltava apenas a confirmação oficial, que chegou pela voz de Adams, em 2016, numa entrevista à “GQ”. “Ele foi muito duro comigo, isso é certo. Foi muito… Estava destruída no set”, contou. “Não era assim todos os dias, mas na maioria. A Jennifer [Lawrence] não sofre nada disso, ela é à prova de bala, mas eu não sou. Também não gosto de ver outras pessoas a serem maltratadas. Não está correto. A vida é mais importante do que os filmes.”

Amy Adams com Russell no set de “A Golpada Americana”

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